Há poucas semanas, Yair, de 18 anos, o filho mais velho do Primeiro-ministro israelita Benyamin Netanyahu foi incorporado na Tzavá, o Exercito de Israel. Como todos os israelitas, também o filho do chefe de governo são obrigados a começar o serviço militar aos 18 anos. Os homens servem por três anos; as mulheres – sim, elas também – por dois anos. Tirando o facto do jovem Yair ser o único soldado do exército israelita com um guarda-costas, em tudo o resto ele será igual aos seus colegas de pelotão. No início terá de ultrapassar três semanas de treino militar básico. Como em todos os exércitos, começará de "soldado raso". A partir daí, poderá escolher o ramo das forças armadas que deseja integrar, de acordo com a classificação que adquiriu na altura da inspecção militar.

Soldado no porto de vigia no telhado da yeshiva de Hevron, Outubro de 2006.
A experiência militar é parte fundamental da vida em Israel e fonte de prestígio. As altas patentes militares usam as suas medalhas como credenciais para ascender na carreira política. Muitos políticos adquiriram fama no campo militar: Yitzhak Rabin tomou parte na conquista de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, Ariel Sharon liderou as tropas no Sinai na mesma guerra, Ehud Barak participou na operação antiterrorista de Entebbe, e o próprio Netanyahu foi membro de uma unidade de elite.
Ao contrário de Portugal, onde há já alguns anos a tropa é opcional, em Israel, poucos escapam à incorporação. À partida, todos os israelitas judeus são obrigados a cumprir o serviço militar. Dos não-judeus, apenas os Drusos e os Beduínos têm a mesma obrigação. Os Árabes israelitas – os Drusos e os Beduínos não são árabes – estão isentos de servir no Exército. No entanto alguns alistam-se de forma voluntária.
As mulheres cumprem um serviço militar mais curto que os homens e não integram unidades de combate, mas já podem ser piloto de aviões. A discussão mantém-se sobre o papel das mulheres na hierarquia e na realidade militar em Israel. Há anos uma jovem que tinha ganho o concurso de Miss Europa foi alistada como soldado. Obviamente foi notícia. Como comentou na altura o correspondente da SIC na sua reportagem: "Israel é o país onde a Miss Europa vai à tropa".
Apesar de obrigadas à incorporação, as mulheres podem optar por fazer aquilo a que se chama de "serviço nacional". A maioria das jovens judias religiosas escolhe esta opção, substituindo a tropa regular pela realização de trabalhos voluntários nas mais diversas áreas. Da assistência em hospitais, escolas ou lares de idosos até guias turísticos, trabalhos de arqueologia e proteção ambiental ou mesmo secretária dos serviços secretos, na maioria dos casos as jovens elegem funções relacionadas com a sua futura profissão. O “serviço nacional” é uma oportunidade preciosa de formação profissional e de pesquisa de mercado de trabalho.
Uma realidade recente são os refuseniks. Uns são “objectores de consciência”, os que por razões ideológicas são contra o uso de armas. Outros, mais problemáticos, são soldados que apesar de pertencerem ao exército, se recusam a cumprir ordens específicas como participar na evacuação de colonos (como aconteceu em Gaza), ou no extremo oposto, recusam-se a servir nos chamados Territórios Palestinianos.
Desde a fundação do Estado de Israel, os haredim ou judeus ultra-ortodoxos estão também isentos de ir à tropa, desde que estudem numa yeshiva. Porém, na última década foi fundada uma nova unidade de elite do exército, o Nahal Haredi, composta exclusivamente por soldados religiosos. Tirando a inexistência de mulheres nas suas bases e um maior tempo para rezar e estudar Torá, esta unidade segue as mesmas exigências do exército regular. Por ajudar a integrar os jovens na vida ativa pós-tropa, o Nahal Haredi passou a ser uma opção aceite para jovens de famílias ultra-ortodoxas normalmente hostis à entrada no serviço militar.
Para os judeus religiosos que não são ultra-ortodoxos, é também possível conciliar a experiência militar e os estudos judaicos, através do programa yeshivat hesder. Os jovens que escolhem este modo, estudam dois anos numa yeshiva, fazem pelo menos 18 meses de tropa e voltam mais um ano para a yeshiva. Algumas yeshivot têm já no seu currículo classes de preparação dos seus alunos para o exército, ensinando em especial os desafios de cumprir Shabbat durante a tropa.
Outra das particularidades de ser soldado em Israel é que, após a conclusão do longo serviço militar, todos os homens são considerados na reserva. Em Portugal, nos tempos idos do serviço militar obrigatório, "ficar na reserva" praticamente significava "livrar-se da tropa". Pelo contrário, em Israel a "reserva" obriga à prestação de um período de serviço militar extra, chamado miluim, que pode chegar a um mês por ano. Isto, até aos 40 anos. Num país com uma situação de segurança tão delicada "fazer miluim" é a oportunidade de melhorar o treino e atualizar as capacidades dos soldados após o final da tropa.
Existe o costume que os jovens recém saídos da Tzavá façam uma longa viagem pelo Mundo no ano seguinte ao final da tropa. Os destinos favoritos são o Oriente, com as praias de Goa e as trilhas de montanha do Nepal e de Caxemira, a Tailândia e o Cambodja pejadas de mochileiros israelitas. A América Latina, com o Brasil, a Patagónia, o Peru e a Colômbia são destinos cada vez mais populares.
Imigrado para Israel aos 30 anos, fiquei automaticamente isento de cumprir o serviço militar. Com essa idade, se me alistasse com voluntário, teria de fazer uns 6 meses de tropa. Tenho de confessar que, por um lado, me arrependi de não o ter feito. Além de ser uma experiência importante em termos de integração no país, um reconhecimento da contribuição dos militares para a existência de Israel, ainda me ajudaria imenso a desenvolver o meu hebraico.
Porém, tenho de recordar-me que, em 26 de Junho de 2007, imediatamente antes de tomar o autocarro na Batalha rumo ao aeroporto, para viajar como imigrante para Israel, na hora da despedida prometi à minha mãe que não iria à tropa. Cumpri a minha promessa.
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