Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Shalom, bem-vindo a Portugal

Quando revelo que sou de Portugal, em conversas com algum israelita, a maioria declara não conhecer nada do país. Por vezes perguntam se é bonito, sem existe anti-semitismo e o que tem de interesse. Na verdade, apesar de todos os atrativos turísticos de Portugal, o país atrai uns insignificantes mil turistas israelitas por ano. Isso, num universo de quase dois milhões de israelitas que fazem férias no estrangeiro, anualmente. Porém, não é de estranhar a falta de turistas israelitas – ou judeus em geral – em Portugal. O país apresenta uma série de problemas difíceis de ultrapassar para qualquer turista judeu.


Sinagoga Shaarei Tikvá, em Lisboa. Uma jóia pouco conhecida.

Na minha recente viagem a Portugal, senti o menor dos problemas do turismo judaico no país: a inexistência de voos diretos entre Israel e Portugal. Porém, apesar da conveniência que seria ter um voo direto, não faltam aeroportos europeus como alternativas para escala entre os dois países. Se a escala for curta, até se aguenta. No passado, tanto a El Al como a TAP tiveram voos diretos entre Tel Aviv e Lisboa (esta última nos longínquos tempos da ligação Lisboa-Macau, que fazia escala em Tel Aviv). Porém, a escassez de turistas israelitas a escolherem fazer férias em Portugal e os poucos portugueses que visitam Israel, determinaram o fim da rota nas duas companhias.

Por comparação, em Espanha existem ligações diárias entre Barcelona e Madrid com Tel Aviv (mais do que uma por dia), e outras para algumas estâncias de veraneio da costa espanhola. O “país vizinho” atrai cerca de 200 mil turistas israelitas todos os anos. Ou seja, 200 vezes mais do que aqueles que visitam Portugal.

Mas, de novo, este é o menor dos problemas que um turista judeu enfrenta quando decide viajar para Portugal. Ainda que uma parte importante de israelitas e dos judeus em geral não sejam religiosos, muitos preocupam-se minimamente com a alimentação casher: a que segue o código de Kashrut, a lei alimentar judaica. Ora, num país tão voltado para o turismo e, alegadamente interessado em atrair o público judaico, em todo o país não existe sequer um único restaurante casher. Em Lisboa, a zona nobre dos hotéis, em redor do Marquês de Pombal, Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, com dezenas de unidades à escolha, fica a uma conveniente curta distância da sinagoga, mas não se encontra um único hotel casher.

Em termos de alimentação, pelo menos em Lisboa e Porto, existe em cada uma das cidades somente um supermercado com uma minúscula “secção de produtos kosher”, com artigos como sopas em pó, conservas, bolachas, compotas de fruta, duas ou três variedades de vinho casher português e espanhol de péssima qualidade e carne congelada a preços descaradamente inflacionados (a bem da verdade, não por culpa dos respetivos supermercados).

Isso não quer dizer que um visitante judeu em Portugal – ou qualquer um dos judeus residentes – que queira cumprir as intrincadas regras da alimentação de acordo com a Lei Judaica, se arrisca a morrer de fome. A abundância de frutas e peixe e o uso de algumas leniências nas leis de Kashrut, salvam qualquer um da carência alimentar.

Ultrapassadas as dificuldades de acesso ao país e a alimentação, resta o país em si. Portugal não apresenta monumentos judaicos de referência, como aqueles que se destacam na Europa Oriental ou mesmo em Espanha. Nenhum dos escassos vestígios da presença judaica em Portugal poderá rivalizar com locais como Cracóvia, Praga, Toledo ou Córdoba. Em Lisboa – caso raro entre as capitais da Europa – não existe sequer um museu judaico. Apesar da vontade expressa pela Comunidade Israelita de Lisboa e da autarquia, a abertura de um museu judaico há anos que não sai do papel.

As marcas da presença judaica em Portugal são raras e pouco significativas, se comparadas com outros mercados turísticos. Talvez o mais interessante para o turista judeu seja mesmo uma visita a Belmonte. E aí, nem sequer para conhecer o pequeno Museu Judaico ou a moderna sinagoga Beit Eliahu, mas antes para conhecer ao vivo a extraordinária comunidade judaica local e escutar as histórias dos cripto-judeus, entretanto regressados ao Judaísmo. A ausência de anti-semitismo em Portugal, em contraste com uma Europa onde essa praga regressa numa onda cada vez mais forte, pode até ser um dos pontos a favor para a escolha de Portugal como destino de férias para os turistas judeus.

Empresários turísticos de Portugal interessados em atrair o pujante mercado israelita declararam que pretendem destacar-se como um produto distinto de Espanha. Porém, para o conseguirem terão de resolver uma série de obstáculos. O mais simples dos quais será mesmo pôr aviões a voar entre Tel Aviv e Lisboa.

publicado por Boaz às 22:08
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13 comentários:
De Eman a 6 de Julho de 2010 às 22:57
Começa primeiro por dizer que não existe uma comunidade que sustente os produtos casher. Não tens restaurantes, porque não tens ninguém na comunidade apto para tal. É muito bonito sonhar, mas para a realização de sonhos precisas de economia 101.

Agora, em relação aos sítios, Belmonte? Achas que as pessoas de Belmonte querem falar com judeus americanos ou israelitas pós-60 anos? Não entendes muito bem a mentalidade dos cripto-judeus, alguém que conviveu com alguns já devias saber o que te espera.
De Boaz a 8 de Julho de 2010 às 22:32
Até concordo com o primeiro parágrafo. Não entendi o segundo.
Se os judeus de Belmonte não querem falar com judeus americanos ou israelitas, para quê abriram um museu na sinagoga? Para a visita do senhor padre de Belmonte? Porque fazem negócio com os turistas?
A dos 60 anos também não entendi...
Quanto à mentalidade dos cripto-judeus, esse é exatamente o mal dela: ser "cripto" e nunca ter deixado de o ser, mesmo depois de várias décadas depois do retorno deles ao Judaísmo oficial.
É problemático eles acharem que os seus cripto-costumes - alguns dos quais pouco tinham de judeus e eram mais uma mistura de superstição medieval, cristianismo, pintalgada com algum judaísmo - continuam a ser mais importantes que o Judaísmo a sério. Daí que eles nunca consigam conservar um rabino por muito tempo.
Os cripto-judeus com quem convivi são gente que teve de abdicar do seu passado "cripto" para dar o salto para o Judaísmo moderno. Sei que é difícil dar esse salto, mas essas pessoas também entenderam (aquelas que eu conheço) que havia chegado a hora de deixar de ser cripto-judeu e passar a ser Judeu. (Maiúscula intencional).
De fábio daniel a 14 de Julho de 2010 às 16:33
Boaz tem toda razão naquilo que escreve. e respondendo a um comentário de um amigo acima, digo-te que, em Israel a população portuguesa residente no país ascende a 500. e há inúmeros bares e restaurantes de origem portuguesa espalhos pelas principais cidades de Israel. eu Estive em Tel Aviv e Jerusalém no mês de outubro último, e pude contactar esta realidade. e acredita meu amigo, você lá, poderá sim comer o teu cozinho a portuguesa e ainda tomar o teu café saíde de uma máquina expresso. eu vivo e trabalho cá mesmo em Lisboa e onde trabalho temos sim generos alimentícios de orgiem judaica, seguindo todo o protocolo Kasher, mas, infelizmente além de ser muito inflacionado, o número de produtos é limitado, ou seja, a variedade não chega a atender as nossas necessidades diárias. o que é diferente em cidades como Paris, Viena, Praga, Londres, São Paulo, enfim. eu tenho amigos que não vem a Lisboa justamente por isso. porque temos em nosso país muitas limitações não só para a nossa comunidade judaica como também para os turistas. é uma realidade. e seria muito bom ter em nosso país turistas israelitas e israelitas judeus em maior número, porque a relação entre nossos dois países é muito vaga.
De Eman a 6 de Agosto de 2010 às 13:36
Em relação ao turistas israelitas e americanos, a relação passa como em qualquer lado no Portugal profundo. Muitos não têm paciência para passar tempo com um grupo de pessoas que nem falam português.

Sobre os cripto-judeus, concordo plenamente. A minha sorte foi dos meus pais terem tido uma educação superior e acabarem com as tradições dos meus avós. Isto abriu-me portas para ver o Judaísmo como ele é, mesmo tendo presente o meu passado cripto-judeu. Foi por isso que aceitei fazer um giur l'humrah, se não tivesse esta mente aberta ainda estaria na pele dos meus avós, pensado que somos judeus e que os outros não têm que se meter ao barulho.

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