Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010

O rapaz judeu, o “Sim” e a filha do ex-presidente

Um jovem, Marc Mezvinsky, casa com a princesinha da América, Chelsea Clinton, filha do antigo presidente Bill e da atual secretária de Estado Hillary. Ele judeu. Ela metodista. Nos últimos meses, desde que a imprensa noticiara o compromisso entre Marc e Chelsea, os comentadores em Israel especulavam sobre o caso. Se Miss Clinton se iria converter ao Judaísmo e o que significa um casamento destes. Sabe-se que nas últimas “Grandes Festas” – Rosh Hashaná e Yom Kippur, ou o Ano Novo Judaico e o Dia do Perdão –, Chelsea e Marc participaram juntos nos serviços religiosos numa sinagoga. Isso parecia dar um sinal de esperança aos que sonhavam ver formar-se mais uma família no Povo de Israel.


Casamento judeu em Jaffa, 1899

Na América da integração, do "melting pot" onde tudo se funde, até é bastante aceitável uma cerimónia de casamento ecuménica. Como o de Marc e Chelsea. Por um lado, o casamento foi oficiado por um pastor metodista. Por outro, realizou-se debaixo de uma chuppá (o pálio nupcial judaico), com a recitação das Sheva Brachot (as sete bênçãos do casamento judaico), com o noivo de kipá e talit (o xaile de orações judaico), com a assinatura da ketubá, o contrato matrimonial e contou com a presença de um rabino. (Reformista, pois claro). À maneira americana, em nome de Moisés e Jesus. Apenas na aparência. Afinal, dados os factos, é evidente que nem para o noivo é assim tão importante ser judeu, e nem para a noiva significará alguma coisa ser cristã. Se assim fosse, nem se teriam casado, uma vez que fazendo-o, tanto um como o outro, estão a ir contra a tradição da sua religião.

Do ponto de vista judaico, apesar de toda a alegria de um casamento, este é apenas um sinal de um dos fenómenos mais significativos e trágicos da história judaica do último século: a assimilação. O fenómeno surgiu na sua expressão moderna com a emancipação judaica promovida pelo liberalismo napoleónico, quando os judeus da Europa deixaram aos poucos de ser "cidadãos de segunda" e foram integrados na sociedade. Durante séculos, judeu era sinónimo de perseguido.

Em muitos casos, como em Portugal e Espanha, a conversão ao Cristianismo não significava o fim das tormentas, pois continuava o estigma do cristão-novo e as suspeitas de judaizar. Ainda que perseguido, a permanência numa comunidade era o único refúgio para o judeu. Com o despertar das liberdades cívicas e da crescente igualdade de cidadania, independente da religião e origem social, a ideia da comunidade judaica como refúgio tornou-se praticamente obsoleta. Um judeu que saía do caminho do Judaísmo não se tornaria um pária completo “lá fora”. Ainda que, de vez em quando, ainda o fizessem lembrar de onde ele tinha saído. A mácula do cristão-novo, ou judeu-velho que teima em não desaparecer.

Foi na América, terra das liberdades e das oportunidades, que os Judeus mais se desenvolveram e prosperaram. Pela primeira vez na história, os Judeus deixaram de ser uma classe marginal para passarem a estar no mainstream. Para serem o mais fino desse mainstream: a elite na literatura, na filosofia, na política, na moda e no cinema. Elementos da cultura judaica – como palavras em língua yiddish e comidas típicas – foram integrados no quotidiano do americano comum.

Porém, a par da prosperidade económica e da plena liberdade social e de culto, cresceu a dissolução dos valores judaicos como em nenhuma outra sociedade até então. Aquilo que a Torá (em Devarim/Deuteronómio 32:15) descreve como: "E Yeshurun (outro nome de Israel) engordou e deu coices: engordaste, engrossaste e tornaste-te corpulento! E abandonou Deus..."

Esta será apenas mais uma família americana, das milhares de famílias americanas em que um dos cônjuges é judeu. Neste caso, caso Chelsea não se converta ao Judaísmo, no futuro, isso significa que os filhos desta família não serão judeus. (De acordo com a Halachá, a lei judaica, os filhos de mãe judia são sempre judeus, mesmo que o pai seja "gentio", enquanto que os filhos de um homem judeu e de mãe não-judia, serão considerados não-judeus). O abandono dos valores e tradições judaicos – para lá da circunstância de casar sob a chuppá, envolto num talit e de cabeça coberta com uma kippá, escutar as sete bênçãos e ter um rabino - ainda que reformista - a dirigir a cerimónia, realizada num Shabat, são um sinal da crise que vive uma grande parte do povo judeu. Mais ainda na Diáspora. Pior, nas sociedades onde os judeus são livres, com a América à cabeça.

Porém, o que poderíamos esperar de um jovem que nunca teve uma educação judaica significativa? O que significará para ele o Judaísmo para além de algumas velhas histórias de família? Sendo assim, honestamente, não poderíamos pedir mais do rapaz. Para lá do amor – que se diz ser cego – sentido por uma menina que ele achou ser a sua alma gémea. Mesmo que não-judia. Em termos judaicos, o problema de Marc Mezvinsky – e dos muitos como ele – não está nele próprio, mas na sua família que o criou como um não-judeu. Agora, ele apenas se casou em conformidade.

Nos comentários à notícia na Internet, não pude deixar de concordar com a honestidade do seguinte: "Quem disse que isto era um casamento misto? Ele não se importa com a fé dele, ela não se importa com a fé dela. Este é o casamento perfeito para duas pessoas que não se preocupam com a sua herança. Isto não é um casamento misto. É a triste realidade de uma sociedade sem outros valores para lá do ser liberal".

E depois da bela festa, dos flashes dos fotógrafos e as parangonas nas revistas cor-de-rosa, Marc e Chelsea viverão felizes para sempre. Ou, em menos de dois anos estarão a juntar-se à regra de "casar entre um divórcio e o outro". Para seguir fielmente mais uma tradição americana.

publicado por Boaz às 23:00
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14 comentários:
De Arnaldo lopes a 19 de Agosto de 2010 às 01:19
desde a antiguidade Deus quis que o seu povo não se mistura-se, relembremos Sansão e Dalila.
De Boaz a 19 de Agosto de 2010 às 13:19
Antes de Sansão e Dalila, houve o episódio de Dina que saiu do acampamento da sua família para conhecer as moças de Shechem e foi abusada pelo rei da cidade.
Ou o que aconteceu quando homens de Israel se deixaram curromper pelas filhas de Midian.

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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