Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

A visita da televisão

Na última segunda-feira, à chegada à aula de Judaísmo, deparei-me com uma equipa de televisão no pátio da sinagoga. Interroguei-me quem seriam e para que canal. Rapidamente, talvez por vaidade, pensei que poderiam ser israelitas: "a história de um grupo de portugueses a ter aulas de Judaísmo em Lisboa, já tinha chegado a Israel... com a quantidade de gente estrangeira que passou por cá nos últimos meses e falou connosco, não me admirava.". Até que os ouvi falar português e, a brincar, disse a uma colega da aula: "É p'rá SIC." Ela acreditou mesmo.

Apesar de estar com uma roufenha voz-de-constipado (há quem ache sexy as similares voz-de-bagaço e voz-de-cama) acedi ao convite e também respondi a algumas perguntas da jornalista. A tal colega a quem eu "enganara" dizendo que era para a SIC, estava um pouco preocupada com a possibilidade de as suas declarações virem a ser transmitidas na Guiné-Bissau, de onde é natural.

Afinal, estavam ali só para entrevistar os elementos da turma de conversão para o programa mensal da Comunidade Israelita do magazine A Fé dos Homens. Ainda não era desta que se iriam levantar cabelos em Bissau, por uma senhora pertencente à elite política do país estar num processo de conversão ao Judaísmo.

Confesso que tenho curiosidade em saber quem foi que escolheu o tema para o programa...

PS - Para os interessados, guineenses e não só, passa na 2: no dia 15 de Setembro, por volta das seis da tarde.

publicado por Boaz às 01:27
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Terça-feira, 7 de Junho de 2005

Temos que falar

Luz ao fundo do túnel?

Há momentos em que somos colocados contra a parede - mesmo que de uma forma não ameaçadora - e que nos obrigam a pensar a fundo na nossa vida. Ontem tive um desses momentos.

Assim que cheguei à sinagoga para a minha aula das segundas-feiras, o rabi veio ter comigo e disse-me com ar sério: "Temos que falar. Sobre o seu guiur (גיור, conversão), como vai ser. Quando é que podemos falar?"

Eu respondi que podia ser em qualquer altura. A aula começou pouco depois. A data da conversa não ficou marcada, mas eu não consegui mais deixar de pensar no assunto. Durante a aula, a que eu tentei prestar o máximo da minha atenção, como sempre faço, as palavras do rabino soavam insistentemente na minha cabeça. "Temos que falar". As palavras e o que podem significar.

Sim, o que podem significar, pois eu não tenho a certeza. Significa que o rabi acha que eu estou preparado para as etapas finais do processo de conversão? Sei que várias pessoas que frequentam as aulas comigo já tiveram a tal conversa com o rabino e por sua recomendação (é assim que as coisas funcionam) deverão apresentar-se perante um Bet Din (tribunal rabínico) em Israel, dentro de alguns meses.

Olhando para algumas dessas pessoas, como a Ana e o João - aquelas que eu conheço melhor -, interrogo-me "como posso eu estar tão preparado como elas?" Não creio que alguma vez estarei mais decidido a ir para a frente com o processo do que estou actualmente. Há muito que deixei de ter dúvidas de que isto é o que realmente quero.

No entanto, não consigo deixar de pensar que, comparando com outras pessoas do grupo - e é impossível não comparar -, eu não mereço estar no mesmo plano. E não o admito por modéstia, que essa é companhia que não costuma andar de mão dada comigo. Simplesmente reconheço que ainda não mereço o prémio. Ainda há tantas coisas que eu não sei e não sei fazer. Estou ainda tão longe do que um judeu deve saber, mas especialmente ser e fazer... Não quero desta forma que todo o processo pareça fácil. Como se bastassem uns meses de aulas. Porque não o é, bem pelo contrário.

Por outro lado, caso eu seja mesmo escolhido para me apresentar perante o Bet Din e acabe por "passar no teste", tenho receio de perder o interesse. Depois de cerca de dez anos de um caminho pessoal, com muitas pedras, buracos e mais baixos do que altos, não quero achar que "já está, não preciso de me esforçar mais".

Hoje, a minha motivação para ir todas as semanas a Lisboa é atingir um patamar que me permita dar os passos definitivos no processo de conversão. E depois? Estou como se fosse um animal em cativeiro, uma ave que, depois de viver tantos anos numa gaiola, não sabe se vai conseguir voar e finalmente sobreviver no mundo para lá das grades.

Ando com estes pensamentos e ainda não tive a tal conversa...

publicado por Boaz às 17:35
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2005

Uma folha solta

Decidi passar toda esta semana na cidade, a fim de me preparar para a Pessach (Páscoa Judaica, a original) que começa neste fim de semana. Assim aproveitei a oportunidade e na terça-feira, excepcionalmente, assisti à aula de Cabala - foi a minha primeira e será a única nos tempos mais próximos, por problemas logísticos. Adiante...

Depois de outras actividades que se realizaram na sinagoga e que duraram até quase depois das 23 horas, regressei a casa de metro e, ousadia das ousadias, fiz toda a viagem de kippá na cabeça, até a prendi com um gancho, não fosse ela cair. Pelo adiantado da hora achei que a confusão no metro não me traria problemas.

Achei que nessa altura tinha erguido uma barreira entre mim e o mundo exterior, era um ser à parte. Não gostei muito da sensação. Apesar de, normalmente, o metro não ser para mim um local para socializar. Não houve desacatos, tudo correu com a normalidade esperada de qualquer passageiro anónimo.

Você é dju?

A surpresa chegou numa estação onde tive de fazer uma mudança de linha. Pelo canto do olho vi aproximar-se um indivíduo. Era africano. Perguntou-me se falava português (de barretinho na cabeça, deve ser estrangeiro, terá pensado). E depois: "Você é dju?". Deve ser judeu em crioulo, pensei eu. Respondi que sim. "A sua família é de Israel? De que parte de Israel?". Disse-lhe que era português. Aí, apresentou-se: Fernando. E contou-me que o avô dele era judeu, descendente de judeus portugueses que tinham ido para Cabo Verde. Que ele mesmo, se fosse mais novo - estava nos trintas e tais - ia para Israel e alistar-se-ia como voluntário no Exército. Porque gosta muito de Israel, mesmo havendo guerra. E que Israel precisa de apoio.

Alertou-me do problema em usar a kippa na rua. É que "há por aí muito árabe". "Eu tenho um símbolo (presumi que fosse uma estrela de David) que cheguei a levar para o trabalho, na lapela. Só que no meu trabalho há 17 paquistaneses. Quando eles me viram com aquilo perguntaram-me com má cara: 'O que é isso? Porque é que usas isso?'. Eu fingia que não sabia. 'Então tira. Isso não é bom'. E eu deixei de o levar para não ter problemas. Mas um dia destes volto a usá-lo."

Achei aquele encontro extraordinário. Vi nele a típica atitude de um marrano*. Apesar de ter perdido muitas referências e tradições, várias coisas se mantiveram muito vivas. A identificação e o amor pela Terra de Israel e pelos símbolos judaicos, o receio em relação aos "de fora". Há amores que nunca se esquecem e dores que o tempo não cura.

Foi inspirador. Para mim e certamente também para Fernando. Para mim, porque encontrei mais uma folha solta no grande livro da história do povo judeu. Para ele porque talvez lhe tenha dado mais um pouco da coragem necessária. Para que um dia destes ele volte a usá-lo...

* Marrano: termo, com carga depreciativa - literalmente significa porco - que designa os cripto-judeus ou judeus secretos, e descendentes que durante a Inquisição e até recentemente - em alguns pontos ainda se mantém - continuaram a praticar o Judaísmo às escondidas.

publicado por Boaz às 11:31
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

Mais um "suposto marrano"

Nos meus contactos com pessoas que - como eu - estão a passar por num processo de conversão ao Judaísmo, encontrei diferentes tipos de motivações. De um modo geral, ou é um caminho que já vem da própria experiência da família, (cripto-judeus, marranos), ou então são pessoas que, de alguma forma se foram aproximando do Judaísmo, sem qualquer interferência familiar. É o meu caso.

Em nenhum dos casos é fácil a resolução do "problema". Para além das diversas fases que é preciso cumprir - quase os 12 trabalhos de Hércules - há que lidar ainda com a pouca receptividade da própria comunidade judaica, mais ainda do que com "os de fora". Recebi recentemente este comentário revelador:

Você é mesmo judeu? Ou é mais um suposto marrano? Tem provas documentais como processos da Inquisição? Descende por linha matrilinear de judias? Se não, não é judeu. Jaime Cohen

Gostava de ter respondido em privado, por e-mail, mas como o autor não deixou qualquer contacto, e eu não o conheço de todo, aqui fica a resposta. (Talvez ele volte entretanto para o ler.)

"Mesmo judeu". O que é um judeu? Esta é uma pergunta que permanentemente se ouve nos meios judaicos. De acordo com a definição da Halachá (a lei judaica), é judeu todo o descendente de mãe judia ou por conversão. A minha mãe não é judia de todo, nem a minha avó. Eu até sou daqueles que desde pequeno costumava ouvir termos como judeu, rabino, judiar ou judiaria, com sentido bem distante do seu real significado.

Não sei o que é um "suposto marrano". Um fantasma? Um mito da família do unicórnio, do judeu de cauda ou do Adamastor? Uma ilusão de óptica? Nem creio que todos os marranos tenham provas documentais da sua condição. Nem todos foram apanhados pela Inquisição, pelo que nem todos têm essas provas. Têm, acima de tudo memória, porque foi pela memória, para lá da descendência, que perpetuaram a sua identidade. A própria condição do marrano (realmente a Joana tem razão, esta é uma palavra muito feia) pressupõe secretismo. Um secretismo cultivado desde tenra idade, para iludir os de fora, possíveis denunciantes ao Santo Ofício. E é preciso ter provas? Afinal, ambos os casos, cripto-judeus ou não, são tratados de igual modo. E as comunidades, pelo menos cá no "Rectângulo", costumam ser igualmente avessas aos dois.

Juntando as peças: não descendo de judeus pela linha matrilinear, não tenho provas documentais de como sou marrano, porque, como disse, não sou marrano. No fundo estou num limbo, um estranho em qualquer lado, um sin papeles. Tal como aos outros, os que têm ascendência pela linha matrilinear e os que têm provas dos seus antepassados presos pela Inquisição, o que me falta é o papel. A "carteirinha", como dizem alguns.

Nunca vi diferenças de legitimidade entre eu e eles. Estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 18:24
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Terça-feira, 8 de Março de 2005

A minha kippá, eu e a minha kippá

Kippá, yarmulke, solidéu: o barretinho que os homens judeus usam durante as orações (os religiosos usam-no a toda a hora). Existem de todas as cores e padrões, até mesmo com bonecos dos Power Rangers! (private joke). A minha é uma simples kippá de veludo preto, comprada numa loja do Bairro Arménio de Jerusalém. (Ficam já avisados: está tudo em "fixed prices", ali não há regateio).

Após a minha última aula de religião e língua hebraica, assim que saí da sinagoga não a tirei logo. Ainda no átrio, enquanto abria o portão, um colega perguntou-me com estranheza: "vais com ela posta?". Não é comum na rua verem-se homens de kippá, mesmo sabendo que os Judeus são escassos por cá. Assim que se deixa a sinagoga, toca a arrumar o barrete no bolso ou na pasta, não vá algum goy (gentio) ver... Medo ou vergonha de se mostrar... não sei.

Apesar de já ter pensado no assunto, nunca me aventurei a "ir com ela posta" lá fora, fazer todo o caminho até casa, mesmo no metro. Contudo, não gosto de correr a tirá-la assim que acaba a aula. Gosto de prolongar um pouco aquele estado... É como se levasse um pouco do oásis para o deserto.

Bem sei que isto não é Paris ou Bruxelas, onde homens de kippá têm sido alvo de ataques e insultos (alguns dos casos reportados aqui). Pois é, por cá diz-se que "somos de brandos costumes". O pior foi ter lido recentemente num jornal que um grupo português de cabeças-rapadas foi aceite num clube internacional dessa canalha, o qual obriga que, para merecerem tamanha "honra", tenham de mostrar "obra feita". Ou seja, espancando (ou mesmo matando) judeus, negros ou gays. Já se sabe, os untermenschen do costume.

Por agora, mais vale prevenir, mesmo que não me agrade nada ter de me esconder.

publicado por Boaz às 17:35
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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

O destino, a viagem e a pressa

Há poucos dias, quando regressava a casa de autocarro, um amigo ligou-me a perguntar-me sobre uns afazeres que andamos a planear há já uns tempos. Depois de falarmos um pouco sobre o trabalho, perguntou-me como iam as minhas aulas de religião e língua hebraica.

- Muito bem. Só é pena serem apenas uma vez por semana.
- E o rabino, já disse alguma coisa sobre a conversão?
- Não. Mesmo àqueles que estão mais adiantados... creio que ainda não disse nada. De qualquer maneira, não quero apressar as coisas.

Despedimo-nos logo a seguir e o telefonema terminou. Eu fiquei a pensar no que ele me tinha perguntado e no modo como eu respondera, tão prontamente. Em especial o facto de "não querer apressar as coisas".

É este o essencial da história. Mesmo quando o destino é magnífico e tão ansiado, o caminho até lá chegar pode ser tão extraordinário como o que se anseia, que o melhor é não pretender acelerar o passo, e fazer o caminho tranquilamente, aproveitando todas as etapas.

publicado por Boaz às 16:27
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