Domingo, 4 de Maio de 2008

Mar da Tranquilidade

Depois de uns dias "off", com tantas coisas em que pensar para lá do blog, regresso a esta humilde casa virtual.

Desde o início do mês de Abril, tive imensos assuntos a tratar para o casamento e a passagem para a minha nova casa – a real, não a virtual. A mudança para a nova casa foi a coisa que deu mais trabalho. Marcada primeiro para um dia, depois adiada porque a família que ocupava o nosso futuro apartamento ainda não tinha tirado todas as coisas e limpo o lugar. E a dor de cabeça começava. Como levar todos os nossos pertences, e arrumar tudo, ainda a tempo da data do casamento?

Tínhamos recebido a maior parte dos móveis da casa, de uma organização de beneficência: os móveis do quarto, um roupeiro imenso, a mesa da sala, o fogão e o frigorífico. Sem podermos ainda levá-los para o nosso futuro lar, tivemos a mão generosa de uns vizinhos amigos que nos dispensaram a sua cave como armazém provisório. As mobílias que faltavam, decidimos comprá-las em segunda-mão, através da Internet.

Tudo o que eu tinha acumulado na yeshiva levei, em várias viagens de autocarro, para o apartamento de solteira da minha futura esposa, no bairro de Kiryat Yovel, em Jerusalém. Pedimos caixas num supermercado vizinho. Passámos dias a encaixotar roupas, livros, louças, CDs.

Entretanto, quando faltava uma semana para o casamento, concordámos em seguir a tradição judaica de o futuro casal não se encontrar durante uma semana inteira. Concordámos também, dada a quantidade imensa de coisas que ainda tínhamos para tratar, de nos falarmos por telefone e trocarmos mensagens. Comunicação por telepatia não é a minha especialidade.

No dia da mudança, a viagem da carrinha de transporte iria ter várias paragens. Primeiro, no bairro de Baka, em Jerusalém, para recolher os sofás-cama para o futuro quarto das crianças (entretanto usado como quarto de possíveis visitas e sala do computador). Coordenado ao minuto com a hora em que o antigo dono dos sofás iria estar em casa, antes de partir para o trabalho. Depois, um trabalho extra da empresa de mudanças. A seguir, uma saída até Givat Zeev, a norte de Jerusalém, onde foram recolhidos os sofás da sala. Quase na hora limite de a dona dos sofás sair de casa… Regresso a Jerusalém para levar todas as caixas do apartamento de Kiryat Yovel. Destino: Alon Shevut, um pequeno colonato no bloco de Gush Etzion, 15km a sul de Jerusalém.

O pequeno apartamento do bairro antigo do colonato ficou atulhado de caixas e mobílias fora do lugar. Decidimos não manter um dos sofás na casa, dado que a sala ficaria demasiado apertada com dois sofás. Montar a cama de casal, entregue em peças, foi uma empreitada só à altura de especialistas em puzzles. Ao menos podia dormir na cama das visitas, montada na hora pela equipa das mudanças. O enorme e lindo roupeiro de seis portas para o quarto de casal, teve de regressar ao armazém de conveniência na casa dos vizinhos. Obsoleto no quarto de casal, onde já existe um roupeiro de parede, estava destinado ao futuro quarto das crianças, mas… Era demasiado alto para o baixo tecto daquela divisão. O dono da empresa de mudanças foi simpático em emprestou-nos um outro roupeiro, mais pequeno.

Consegui arrumar muitas das coisas trazidas pela carrinha das mudanças. O resto foi empilhado num canto do quarto. Para ir sendo arrumado. Devagar, ao ritmo das necessidades.

Aos poucos, a nossa casa foi-se compondo. A generosidade dos vizinhos e famílias conhecidas do colonato é infindável. De tempos a tempos ligam-nos a dizer que têm algo para nós. Algo que já não usam, ou que receberam e não precisam e que nos querem oferecer.

A máquina de lavar roupa, também oferecida, foi entregue alguns dias depois da boda. Mas esteve várias semanas sem sair da respectiva caixa. Teria de ser um técnico a instalá-la, para não perdermos a "garantia". A montanha de roupa suja foi crescendo até ocupar metade da – já de si apertada – casa de banho. No dia em que foi finalmente montada, foi um alívio. Menos para a máquina: saía uma carga de roupa, entrava outra. Até não haver mais espaço no estendal.

A lista de coisas que ainda nos faltam vai sendo cada vez mais curta. A vida segue tranquila. Telefone, Internet. Tudo já está tratado. Agora falta alterar o nosso endereço. E mudar de documentos. O "solteiro" no estado civil é coisa do passado.

publicado por Boaz às 20:48
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Domingo, 25 de Novembro de 2007

Experiência israelita

Nestas últimas semanas andei enrolado com a possibilidade de ser guia e animador de jovens judeus estrangeiros de visita a Israel. Um trabalho interessante e que costuma ser bem pago.

A oportunidade surgiu quando um dos meus professores indicou o meu nome à secção "Israeli Experience" da Agência Judaica, que organiza viagens de grupos de jovens judeus e forma os seus guias e animadores. No meu caso, na mira teria os vários grupos de jovens judeus brasileiros que todos os anos visitam Israel, durante várias semanas. Passeiam, têm actividades lúdicas e educativas, com o objectivo de os aproximar da realidade israelita e, porque não, tentar despertar neles o desejo de, futuramente, imigrarem para Israel.

Primeiro tive de preencher alguma papelada. Um "teste americano" com dezenas de perguntas de cultura geral e judaica, história e geografia de Israel. Em hebraico, o que me criou mais dificuldades do que estava à espera. “Não vale a pena quebrar muito a cabeça com isso”, disse uma das secretárias da organização ao ver-me atrapalhado. Ainda assim demorei mais de uma hora com o teste.

Seguiu-se uma entrevista exploratória. Pedi que fosse em inglês. Razões para a minha candidatura, experiência anterior, os meus prós e contras para uma função desta natureza, o que eu posso dar de especial aos jovens que pode ser valioso para os objectivos do programa. As perguntas esperadas.

Uns dias depois passei à próxima fase: um dia de actividades em grupo com os outros candidatos. Comigo estavam vários colegas da yeshiva que buscavam a mesma oportunidade. E ainda vários israelitas.

Fizeram-nos várias provas individuais. Pediram-nos para classificar e comentar frases polémicas do género: "O Estado de Israel tem de fazer uma separação entre politica e religião" ou "Sem a ocorrência do Holocausto, o Estado de Israel não teria sido fundado."

Divididos em pares, em pouco tempo tínhamos de elaborar uma actividade a ser apresentada a todo o grupo. Durante a apresentação, de apenas 5 minutos (não sabíamos do tempo tão curto enquanto a preparávamos) éramos interrompidos por um dos monitores, que nos pedia para explicarmos o que fazíamos, em inglês. Retomávamos. Nova interrupção: agora explica em espanhol! Unos segundos de explicación... OK, em português! Pus à prova o meu jeito para línguas...

Seguiram-se teatrinhos para testar a nossa capacidade de resolver situações complicadas. E se um dos jovens do grupo do qual éramos guias não quisesse levantar-se cedo para rezar? Como falaríamos com ele e o convenceríamos a levantar-se? E se vários elementos do grupo tivessem roubado as toalhas do hotel, incluindo a professora que os acompanhava? E se o enfermeiro estivesse "a fazer-se" às meninas? Ou um dos jovens não quisesse ir fazer um passeio a Hebron "por ter medo de ser morto num tiroteio"?

Se for escolhido para ser guia, ainda terei de passar por um seminário de preparação, durante dois dias. Além da componente financeira, que não é nada negligenciável, alicia-me a possibilidade de ajudar alguns jovens a aproximarem-se das suas raízes judaicas.

Mesmo estudando em colégios judaicos no Brasil, muitos deles têm uma vivência judaica muito pobre. A imagem que têm do Judaísmo é pouco mais do que um pequeno conjunto de tradições estranhas passadas pelos avós. De Israel sabem o que lhes ensinam nas aulas de história judaica, das celebrações da Independência de Israel ou do Dia de Jerusalém. Lá longe. Da actualidade israelita sabem o que lhes chega pelo olhar vesgo da televisão.

Tenho visto – e eu próprio o experimentei – que não é a mesma coisa ser judeu em Israel e na Diáspora. Depois de passar um tempo por cá, as marcas são demasiado profundas para se ignorarem. Alguns dos jovens provavelmente baixarão os braços face ao "peso de ser judeu". Contudo, para a maioria, estou seguro, despertar-se-á um desejo de aprender mais sobre essa herança dos avós e dos pais que eles muitas vezes não entendem, mas não conseguem deixar de lado.

Garantir que apenas um destes jovens afastados não ceda à assimilação, é um desafio enorme, mas é um trabalho essencial e muito recompensador. No mundo de hoje, nós os judeus, falamos muito das ameaças dos árabes e do Irão. Esquecemo-nos que a maior ameaça ao povo de Israel não parte dos Ahmadinejads, mas dos milhares de Moshes, Yosefs e Davids que desprezam o seu Judaísmo e se perdem pela assimilação.

E quem tem armas para lutar contra esta tendência suicida, não pode ficar de braços cruzados.

publicado por Boaz às 22:59
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Um Mundo (quase) perfeito

Despotismo estalinista na Coreia do Norte. Perseguição a opositores políticos e minorias étnicas e transferência forçada de populações na Birmânia. Violência sobre os opositores políticos (recentemente também sobre algumas personalidades religiosas discordantes), expulsão e espoliação de propriedade de membros da minoria branca no Zimbabwe. Grandes limitações na liberdade de imprensa e total repressão de opositores políticos em Cuba e na Bielorússia. Escravatura na Mauritânia e República Centro-Africana. Massacres e expulsões em massa contra minorias étnicas no Sudão, com participação activa de forças patrocinadas pelo governo. Tráfico de mulheres para escravatura sexual na Roménia, Ucrânia, Bulgária, Rússia e Ásia Central. Violência sectária no Iraque e Líbano. Esmagamento brutal de uma revolta separatista no Sri Lanka. Silenciamento dos meios de comunicação social críticos ao governo na Venezuela. Violência entre facções políticas em Timor-Leste.

Ausência de liberdade política no Egipto, Síria, Cuba, Bielorússia, Sudão, Líbia, Azerbeijão, Uzbequistão... Pena de morte (nalguns casos mesmo para menores) no Irão, Estados Unidos, China, Paquistão, Nepal, Birmânia, Cuba, Rússia, Vietname... Exploração de mão de obra e ausência de condições laborais na China, Índia, países do Golfo Pérsico, Tailândia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão... Excisão (mutilação sexual de mulheres) na Guiné-Bissau, Sudão, Egipto, Etiópia, Quénia, Somália, Burkina Faso, Mali... Perseguições de minorias religiosas no Irão, Arábia Saudita, China... Exploração sexual de crianças na Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Cambodja, Tailândia, Indonésia... Mulheres como “cidadãos de segunda” no Irão, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, Afeganistão... Crianças usadas como combatentes em conflitos na Costa do Marfim, Somália, Uganda, Territórios Palestinianos, Sri Lanka... Exploração de mão-de-obra infantil no Peru, Bolívia, Brasil, Colômbia, Índia, Vietname, Paquistão, Afeganistão, México...


Crianças soldados e "mulheres de segunda"

Oh, como seria perfeito o Mundo, se não fosse... Israel.

A ver pela atenção dada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, violações de direitos humanos só acontecem em Israel. Casos gravíssimos de brutalidade patrocinada pelo governo no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte ou Zimbabwe, são ignorados. Investigações agendadas sobre a situação em Cuba e na Bielorússia foram bloqueadas. Os meios da Comissão são devotados em permanentes críticas a Israel. Apenas.

Recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon foi atacado por criticar os estados islâmicos membros da Comissão, por ignorarem abusos dos direitos humanos em todo o Mundo e apontarem apenas Israel. A observação de Ban Ki-moon irritou a Organização da Conferência Islâmica quando disse, o mês passado, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU deveria observar todas as situações de violações de direitos humanos.

Só parece não valer a pena olhar para eles.

publicado por Boaz às 12:50
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Terça-feira, 27 de Março de 2007

De costa a costa

Israel é um país muito pequeno. Em termos comparativos, é mais pequeno que o Alentejo. Apesar disso, a variedade de paisagens é impressionante. Desde o enorme deserto do Neguev, a sul, que constitui mais de metade da área do país. Às montanhas do centro - verdejantes a norte e secas a sul de Jerusalém. E a Galileia, o norte do país. Verde, com colinas e vales férteis.

Os israelitas, desde os pioneiros judeus que chegaram desde o século XIX, apreciam muito as caminhadas ao ar livre. É comum encontrar grupos de mochileiros percorrendo as muitas áreas de paisagem protegida distribuídas por todo o território. Por isso, trilhos bem assinalados para caminhantes existem por todo o lado.

No início das férias da Páscoa Judaica, a Yeshivat HaKotel organizou um passeio para os estudantes estrangeiros: uma caminhada de três dias pela Galileia. Conhecido como Yam le'yam o trajecto liga o Mediterrânico ao Mar da Galileia (conhecido localmente por Kinneret). São 68 quilómetros de caminhada.


De um mar ao outro, de mochila às costas.

Começámos em Achziv, uma praia rochosa poucos quilómetros a sul da fronteira libanesa. Rumando a oriente, passámos primeiro por extensas plantações de bananeiras e abacateiros. Um detalhe chamou-me à atenção: os sinais informativos escritos em hebraico, árabe e... tailandês! A razão para isso é o facto de muitos dos trabalhadores das plantações serem naturais da Tailândia.

Leitos secos de ribeiros, cheios de grandes calhaus rolados foram alguns dos trilhos mais difíceis de transpor. Mais para o interior, os ribeiros estavam em pleno e com cuidado, aproveitando as pedras alinhadas, havia que atravessá-los, procurando não molhar os pés. Aos poucos, entrámos nos vales cobertos de florestas, até Monfort, um castelo medieval construído por Cruzados franceses. Aí o percurso torna-se acidentado e a trilha passa a ser um estreito carreiro de pedras escorregadias entre uma parede vertical e um precipício. Impróprio para os que sofrem de vertigens.

Por vezes tive de acalmar um companheiro mais nervoso com medo das alturas. A cada passo certificava-se que eu estava bem próximo dele. Ora segurando-o pela mão, ora incentivando-o a continuar.

No final do primeiro dia, acampámos nos arredores da cidade de Maalot, num descampado a mais de dois quilómetros daquele que deveria ter sido o nosso primeiro acampamento nocturno. Durante a noite, a cada meia hora revezavam-se grupos de dois na guarda do acampamento contra eventuais ladrões. Pela primeira vez na vida, empunhei uma arma, apesar de não saber atirar e de a arma em questão ser tão antiquada que creio mesmo que só serviria para matar pardais. De qualquer forma, era só mesmo para intimidar alguém com intenções menos nobres...

O segundo dia começou tarde. Devido à distância em relação ao ponto programado para a partida, a organização resolveu levar-nos de carro até ao local. Grupos de três, a cada 7 minutos. Eu fui dos últimos a ser levado, mais de hora e meia depois dos primeiros terem partido. Um atraso que teria de ser compensado por um passo mais rápido durante a caminhada do dia.

O percurso do segundo dia era o mais agradável. Vales belíssimos com ribeiros tranquilos e algumas cascatas. Por várias ocasiões passámos por vacas pachorrentas, que pastavam indiferentes à nossa invasão do seu território. Quase no final, o trilho incluía a subida à segunda montanha mais alta de Israel, o Monte Meron. E de lá, uma descida - apressada para aproveitar as últimas horas de sol do final da tarde - até ao acampamento, situado a poucos metros do santuário onde está sepultado o Rabbi Shimon Bar Yohai, um famoso rabino que viveu há quase 2000 anos. Consegui chegar e montar a minha tenda ainda nos últimos momentos de luz.

Apesar de todos estarem munidos de mapas, um grupo de quase uma dúzia de caminhantes perdeu-se da trilha e terminou numa aldeia drusa, a 7 quilómetros do local correcto. Druza, por sorte, pois se fosse uma aldeia árabe, algo de trágico poderia ter-lhes acontecido. É que em muitas localidades árabes da Galileia, os judeus não costumam ser bem recebidos.

O último dia, haviam-nos prometido, seria o mais fácil. Apesar de a distância ser de 28 km, enquanto nos dois dias anteriores havia sido de 20 km por dia, o percurso seria «apenas descer uma montanha». Com esta descrição, muitos de nós, apesar de maltratados pelas condições do caminho já percorrido, ficaram convencidos e decidiram não desistir.

No entanto, aquilo que era "apenas" a descida de uma montanha, revelou-se o mais complicado dos trajectos. Carreiros estreitos e escaladas à beira do abismo. Um passo em falso e adeus... Matagais de urtigas e canaviais. Pernas e braços arranhados. Isto tudo debaixo de um sol que, ao contrário dos dias anteriores, se fazia sentir forte. Na pausa a meio do caminho, as reservas de água de boa parte do grupo já se haviam esgotado.

A solução foi ir até à cidade mais próxima comprar garrafas de água para todos. Era impossível caminhar os restantes 11 quilómetros "a seco". No final do dia, apenas alguns chegaram ao destino escolhido. Muitos tiveram de ser recolhidos pelo carro de apoio, espalhados no trajecto. Para todos, numa praia do Mar da Galileia havia um churrasco à espera.

Mais do que um desafio físico extremo - que eu não sei se me atreveria a repetir - o Yam le'yam foi uma experiência humana inexcedível. A camaradagem entre todos foi extraordinária. Actos como esperar pelos companheiros que ficavam para trás, dar uma mão para ajudar a subir um trilho mais difícil, partilhar da comida e da água, palavras de encorajamento, avisar sobre algum perigo do caminho, foram constantes. Cada um teve a perfeita consciência de que não poderia continuar sozinho.

Existe uma distância (a todos os níveis) entre os alunos americanos e ingleses e os do grupo de língua portuguesa da yeshiva. No final, tenho a certeza que ficámos todos mais unidos, independentemente do grupo a que cada um pertence.

publicado por Boaz às 17:17
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005

Amostra do que aí vem?

Ontem, num ataque suicida na estação de autocarros de Beersheva, sul de Israel, dez pessoas ficaram feriadas, duas das quais com gravidade. Foi o primeiro ataque terrorista desde a retirada israelita de Gaza, ocorrida na semana passada. A acção foi reivindicada conjuntamente pelos braços armados da Fatah e da Jihad Islâmica. Poucos dias antes, num vídeo divulgado pelo Hamas, o novo líder do movimento prometeu continuar com os atentados terroristas contra Israel.

Interpretando a retirada israelita de Gaza como uma capitulação israelita face à estratégia do terror, os movimentos terroristas palestinianos prometeram continuar com acções suicidas para conseguirem o seu objectivo de apagar Israel do mapa. "Primeiro Gaza, no futuro Jerusalém e toda a terra do Jordão ao Mediterrêneo."

A mesma perspectiva teve o Hezbollah em 2000, quando o exército de Israel retirou do sul do Líbano. Que a retirada não era só uma mudança de estratégia de segurança (nunca é), mas uma fuga face à ameaça constante das emboscadas, dos mísseis e dos ataques suicidas. Desde então verificam-se confrontos esporádicos, com lançamento de rockets sobre Kiryat Shmona e outras cidades junto à fronteira libanesa.

Não deixa de ser irónico que, para lá da "cedência de terras bíblicas", seja exactamente a mesma "capitulação ao terror" o argumento dos israelitas que se opõem ao plano de retirada.

publicado por Boaz às 17:30
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Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

Mau uso, mau sinal

Manifestante com estrela laranja 
(AP Photo/Ariel Schalit)

Numa recente manifestação contra o plano de retirada israelita da Faixa de Gaza, um apoiante do movimento dos colonos usa uma Estrela de David laranja na lapela. O símbolo faz lembrar as estrelas amarelas que os Judeus eram obrigados a usar durante o regime Nazi.

É sem dúvida um mau (e deliberado) uso de um símbolo infame, tirando-o do seu contexto e servindo-se do seu significado para daí obter proveitos pessoais e políticos.

Não vou questionar o plano de Ariel Sharon de desmantelar os colonatos da Faixa de Gaza e outros quatro da Cisjordânia. Nem sequer a manifestação. Afinal, e apesar dos seus defeitos, Israel é uma democracia e as pessoas têm direito a manifestar-se livremente. No entanto, nem tudo serve, ou devia servir, para ganhar simpatia para uma causa.

Infelizmente, não é a primeira vez que a simbologia do Holocausto entra na campanha contra a retirada. Noutro protesto pelo mesmo propósito, vários manifestantes iam vestidos com fatos às riscas a lembrar os uniformes dos prisioneiros dos campos de concentração. Ou o célebre cartaz surgido há uns 10 anos, em que o antigo Primeiro Ministro Yitzhak Rabin aparecia vestido com uma farda das SS, numa manifestação contra o processo de paz.

Usar aquele símbolo daquela maneira é banalizar o mal que foi a Shoa (Holocausto, em hebraico "Catástrofe"). E pior, é mais um triste exemplo do uso do Holocausto como marketing.

publicado por Boaz às 16:21
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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2005

Mais do que semântica (II)

Depois do "Mais do que semântica (I)" era apenas uma questão de tempo até surgir a segunda parte. Porque a saga continua. Ora vejam. É vulgar nos nossos Média, em especial na televisão, com a RTP à cabeça, chamar "exército judaico" ao exército de Israel.

Exército israelita ou exército judaico?É óbvio que a maioria dos soldados israelitas são judeus, já que a maioria da população de Israel é de religião judaica. No entanto, quando um jornalista usa a expressão "exército judaico" demonstra que sabe pouco daquilo que fala, pois no exército de Israel há também elementos drusos e beduínos. Denota também uma confusão entre nacionalidade e religião.

O último caso deste tipo ocorreu no último fim-de-semana quando a RTP enviou o jornalista Paulo Dentinho ao Médio Oriente à região para fazer a cobertura das eleições palestinianas. Na única peça que vi dele, além da já habitual presença da expressão "exército judaico", apareceu também "prisões judaicas" (!). O jornalista falou com um palestiniano que no dia das eleições foi libertado de uma prisão em Israel, mas referiu-se-lhe como "prisão judaica".

Jamais ouvi chamar "exército católico" ao exército português, espanhol ou brasileiro, apesar de a maioria dos seus efectivos serem católicos (até há um bispo para as Forças Armadas!). Nem mesmo à Guarda Suíça do Vaticano. O termo "prisão católica" nem sequer se usa quando se fala das prisões da Santa Inquisição. E as prisões da Arábia Saudita ou do Irão (onde a justiça que se aplica segue a Sharia, lei islâmica) são somente prisões sauditas ou iranianas. Não "prisões islâmicas".

Num contexto religioso, é legítimo falar em israelita como judeu, judaico ou hebreu (ex. comunidade israelita = comunidade judaica). Mas tratando-se de nacionalidade, não são sinónimos.

É provável que não exista má-fé no uso destas expressões. No mínimo há falta de rigor ou mesmo ignorância. Porém, tratando-se de jornalismo não é de todo uma ignorância inocente.

publicado por Boaz às 16:56
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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