Finalmente, pude tirar o passaporte israelita. Em Israel, a lei para os imigrantes recém-chegados apenas permite o pedido de passaporte após um ano de nacionalidade. Até agora, caso precisasse de sair do país, teria de requerer um passaporte temporário. O que não foi necessário.
Consegui contornar a insuportável burocracia do Ministério do Interior, tratando das coisas numa delegação secundária, num bairro periférico de Jerusalém. Foram algumas horas de espera, numa sala exígua. Porém, muita gente, após tirar o papelinho com o número da vez para ser atendido, ao ver que há mais de 20 pessoas à sua frente, desiste da espera. O que acabou por ser mais rápido do que esperava.
Depois de uma semana, recebi o meu darkon em casa.
Darkon. Passaporte israelita
Depois de uma semana confinado – à força – à Cidade Velha, por causa dos três dias de nevão e consequente paralisação da cidade, consegui sair para lá das muralhas. Em Motzei Shabbat (após o final do Shabbat), fui até ao principal centro comercial de Jerusalém para encontrar-me com a minha noiva que não havia visto toda a semana.
Enquanto esperava pelo 6, o único autocarro que liga a Cidade Velha ao Shopping Malcha, em frente à Câmara Municipal, algo me chamou a atenção. Uma estrela no chão. Uma estrela em papel, recortada de alguma revista. Amarela, como aquelas que os Judeus eram obrigados a usar durante o Holocausto. Com a palavra “Jude” no meio. Apanhei-a, surpreso por encontrar tal coisa cuidadosamente recortada de uma revista, caída no chão. “O que fazer com isto?”, pensei. Por momentos coloquei a estrelinha em cima de um muro junto à paragem do autocarro. “Não, com o vento, irá parar de novo ao chão”, reflecti. Decidi guarda-la na carteira.
O 6 chego poucos minutos depois. Apinhado. Um autocarro, em qualquer lugar de Israel, é um mundo. A mistura de gentes e raças é assombrosa. Religiosos de fato e chapéu negro, ainda com as suas melhores roupas de Shabbat, junto com os seculares. Lado a lado com jovens cheios de rebeldia vindos de algum dos bairros ou colonatos menos religiosos da cidade, a caminho da borga nocturna semanal. No shopping ou na Rua Ben Yehuda, as “Docas” de Jerusalém.
À minha frente, três raparigas sul-americanas. Pelo sotaque deveriam ser argentinas. Ao meu lado, do outro lado do estreito corredor, duas mulheres asiáticas: uma filipina e outra que, pela fisionomia seria provavelmente cingalesa (do Sri Lanka). A filipina faz parte da numerosa comunidade filipina residente em Israel. Na sua grande maioria, a comunidade compõe-se de mulheres jovens. Enfermeiras recém-formadas nas universidades das Filipinas que buscam uma vida melhor em Israel. Trabalham nos turnos nocturnos dos hospitais ou, o que é mais normal, como assistentes domésticas.
É comum ver idosos israelitas caminhando na rua, em cadeira de rodas ou apoiados na bengala ou no andarilho, acompanhados das suas enfermeiras particulares filipinas. Devido ao seu papel social, o termo filipinit (mulher filipina, em hebraico) passou a significar assistente doméstica. Assim que termina o Shabbat, às centenas confluem para as Centrais de Autocarros ou os centros comerciais onde se encontram com outras colegas de profissão. A central de autocarros de Tel Aviv, por exemplo, transforma-se numa Pequena Manila, com algumas das suas lojas já destinadas à clientela oriental.
À chegada ao centro comercial, o autocarro, até então cheio, esvazia-se de uma só vez. Uma torrente de clientes encaminha-se para as portas do shopping, tendo de esperar na fila da segurança, para passar pelos detectores de metais. Ninguém reclama a demora, é o hábito diário de muitos anos, em qualquer local de Israel. Não uma realidade surgida pela Intifada.
Numa cidade com poucos divertimentos, o que é estranho se considerarmos que Jerusalém tem cerca de 600,000 habitantes, há poucos lugares para sair à noite. O principal é o Shopping Malcha. Multidões de jovens da cidade e arredores confluem às salas de cinema do centro comercial. Famílias levam os filhos aos restaurantes de comida rápida. Fãs de futebol juntam-se no local depois de cada jogo no Estádio Teddy, situado mesmo ao lado. Ao subir as escadas rolantes tem-se a visão de um imenso formigueiro, difícil de suportar para quem não é grande fã de multidões.
Uma volta pelo shopping com a minha futura esposa, à procura de alguma promoção que nos interessasse, olhando as lojas de decoração para tirarmos ideias para a nossa futura casa. O tempo passa rápido e, antes que ficasse tarde para apanhar o transporte de volta, saímos do turbilhão.
No regresso, entre um grupo de jovens alegres e faladoras, reparei numa quieta menina. Não falava, apenas parecia olhar o vazio. Menina dos olhos tristes. Dava a impressão de soluçar. Soluçar por dentro. Dava pena olhar para ela. Uma jovem normal, quieta, ao lado das animadas amigas, depois de uma noite no shopping. Que contraste!
Com a aproximação do autocarro às muralhas da Cidade Velha era hora de fazer o resto do caminho a pé. Dez minutos passando pela Porta de Jaffa, o Bairro Arménio e as vielas do Bairro Judeu. Àquela hora, naquela parte da cidade já são poucas as pessoas na rua. Até ao amanhecer, quando as ruas da Cidade Velha se enchem de gente, no bulício do mercado árabe. Numa amálgama de residentes e turistas. Por enquanto, o formigueiro reside no outro limite da capital.
Lição básica de conduta em Israel
Todas as sociedades têm os seus códigos de conduta pública. O faz-se e o não se faz. Por exemplo, no Japão as pessoas cumprimentam-se com uma vénia – incluindo os apresentadores de notícias perante os telespectadores. Na Suécia, é considerado uma enorme falta de educação arrotar em público. Em Portugal, quatro pessoas não apertam as mãos ao mesmo tempo, fazendo um aperto por cima do outro. No Uruguai e em França, os homens cumprimentam-se com um beijo. São códigos que cada um aprende em contacto com a sociedade onde vive.
Em Israel, uma das regras entre a sociedade religiosa é: homens e mulheres não se tocam. A não ser entre o casal e pessoas de família muito chegadas. O que exclui também os casais de namorados. No que diz respeito a cumprimentos: homens cumprimentam homens com um aperto de mão ou abraço, as mulheres cumprimentam-se com um beijo, abraço ou um aperto de mão. Com o sexo oposto o cumprimento resume-se à forma oral: “Shalom”, "Como está?" e afins. Toque, nem pensar.
No ambiente militar, onde toda a sociedade israelita se mistura, o contacto entre os sexos foi ultrapassado em parte pela instituição dos batalhões para soldados religiosos. Nas bases em que se encontram estes batalhões, em geral não servem soldados do sexo feminino. Mesmo assim, entre as comunidades haredim (ultra-ortodoxas) existe uma tradicional oposição ao serviço militar. Por um lado, essa oposição deriva de uma opinião geral contra o Estado. Porém, mais do que a questão política, levanta-se a questão do contacto entre membros dos dois sexos, restringido pela Halacha, a lei judaica. Quem cumpre este código dentro da Halacha chama-se shomer neguia (guardar o contacto).

Em alguns sectores este comportamento é por vezes levado ao extremo. É o caso dos transportes públicos. Mesmo que a Halacha não prescreva qualquer limitação especial nestas situações, é costume aceite que homens e mulheres – não casados entre si – não se sentam um ao lado do outro. Em várias linhas de autocarros de Jerusalém que passam por bairros de população judaica haredi, impera a regra (não-oficial) "homens à frente, mulheres atrás".
Por vezes, as mulheres até entram no autocarro pela porta traseira, para evitar atravessar a "secção masculina". Mandam depois alguma criança – livre desses constrangimentos separatistas – pagar o bilhete ao motorista. No entanto, na maior parte dos casos, os autocarros estão tão lotados, que homens e mulheres têm de andar "perigosamente juntos". O que origina sistematicamente protestos das comunidades haredim aos serviços da Eged, a empresa de transportes públicos local.
Em Jerusalém, dominada pelo estilo de vida religioso – mesmo que não seja seguido por todos – esta regra é cumprida. As surpresas surgem quando, mesmo em Israel, se muda de cidade. Em Haifa, por exemplo, a população religiosa é muito menos influente e nem toda a gente conhece estes códigos. Há dias, de visita a uma família amiga da minha noiva, à chegada a sua casa, deparei-me com esta realidade.
A dona da casa abraçou calorosamente a minha noiva e a minha futura cunhada. Quando chegou a minha vez, ela estendeu a mão perguntando ao mesmo tempo "Toca, não toca?". A minha noiva apressou-se a avisar: "Não, não toca". Não houve grande embaraço, desta vez. A senhora entendeu. Mas há momentos em que as pessoas não entendem e sentem-se ofendidas.
Em alguns casos, face a uma mão estendida, dizem as regras que, se não der para resolver a questão de outra forma, é melhor dar mesmo o aperto de mão à senhora, do que causar o seu embaraço. "É preferível deixar-se lançar num fornalha em chamas, que causar vergonha ao seu vizinho".
Nestas últimas semanas andei enrolado com a possibilidade de ser guia e animador de jovens judeus estrangeiros de visita a Israel. Um trabalho interessante e que costuma ser bem pago.
A oportunidade surgiu quando um dos meus professores indicou o meu nome à secção "Israeli Experience" da Agência Judaica, que organiza viagens de grupos de jovens judeus e forma os seus guias e animadores. No meu caso, na mira teria os vários grupos de jovens judeus brasileiros que todos os anos visitam Israel, durante várias semanas. Passeiam, têm actividades lúdicas e educativas, com o objectivo de os aproximar da realidade israelita e, porque não, tentar despertar neles o desejo de, futuramente, imigrarem para Israel.
Primeiro tive de preencher alguma papelada. Um "teste americano" com dezenas de perguntas de cultura geral e judaica, história e geografia de Israel. Em hebraico, o que me criou mais dificuldades do que estava à espera. “Não vale a pena quebrar muito a cabeça com isso”, disse uma das secretárias da organização ao ver-me atrapalhado. Ainda assim demorei mais de uma hora com o teste.
Seguiu-se uma entrevista exploratória. Pedi que fosse em inglês. Razões para a minha candidatura, experiência anterior, os meus prós e contras para uma função desta natureza, o que eu posso dar de especial aos jovens que pode ser valioso para os objectivos do programa. As perguntas esperadas.
Uns dias depois passei à próxima fase: um dia de actividades em grupo com os outros candidatos. Comigo estavam vários colegas da yeshiva que buscavam a mesma oportunidade. E ainda vários israelitas.
Fizeram-nos várias provas individuais. Pediram-nos para classificar e comentar frases polémicas do género: "O Estado de Israel tem de fazer uma separação entre politica e religião" ou "Sem a ocorrência do Holocausto, o Estado de Israel não teria sido fundado."
Divididos em pares, em pouco tempo tínhamos de elaborar uma actividade a ser apresentada a todo o grupo. Durante a apresentação, de apenas 5 minutos (não sabíamos do tempo tão curto enquanto a preparávamos) éramos interrompidos por um dos monitores, que nos pedia para explicarmos o que fazíamos, em inglês. Retomávamos. Nova interrupção: agora explica em espanhol! Unos segundos de explicación... OK, em português! Pus à prova o meu jeito para línguas...
Seguiram-se teatrinhos para testar a nossa capacidade de resolver situações complicadas. E se um dos jovens do grupo do qual éramos guias não quisesse levantar-se cedo para rezar? Como falaríamos com ele e o convenceríamos a levantar-se? E se vários elementos do grupo tivessem roubado as toalhas do hotel, incluindo a professora que os acompanhava? E se o enfermeiro estivesse "a fazer-se" às meninas? Ou um dos jovens não quisesse ir fazer um passeio a Hebron "por ter medo de ser morto num tiroteio"?
Se for escolhido para ser guia, ainda terei de passar por um seminário de preparação, durante dois dias. Além da componente financeira, que não é nada negligenciável, alicia-me a possibilidade de ajudar alguns jovens a aproximarem-se das suas raízes judaicas.
Mesmo estudando em colégios judaicos no Brasil, muitos deles têm uma vivência judaica muito pobre. A imagem que têm do Judaísmo é pouco mais do que um pequeno conjunto de tradições estranhas passadas pelos avós. De Israel sabem o que lhes ensinam nas aulas de história judaica, das celebrações da Independência de Israel ou do Dia de Jerusalém. Lá longe. Da actualidade israelita sabem o que lhes chega pelo olhar vesgo da televisão.
Tenho visto – e eu próprio o experimentei – que não é a mesma coisa ser judeu em Israel e na Diáspora. Depois de passar um tempo por cá, as marcas são demasiado profundas para se ignorarem. Alguns dos jovens provavelmente baixarão os braços face ao "peso de ser judeu". Contudo, para a maioria, estou seguro, despertar-se-á um desejo de aprender mais sobre essa herança dos avós e dos pais que eles muitas vezes não entendem, mas não conseguem deixar de lado.
Garantir que apenas um destes jovens afastados não ceda à assimilação, é um desafio enorme, mas é um trabalho essencial e muito recompensador. No mundo de hoje, nós os judeus, falamos muito das ameaças dos árabes e do Irão. Esquecemo-nos que a maior ameaça ao povo de Israel não parte dos Ahmadinejads, mas dos milhares de Moshes, Yosefs e Davids que desprezam o seu Judaísmo e se perdem pela assimilação.
E quem tem armas para lutar contra esta tendência suicida, não pode ficar de braços cruzados.
De acordo com a tradição judaica, juntar duas almas num casal é tão difícil como a abertura do Mar dos Juncos (o Mar Vermelho na versão ocidental).
O casamento é um dos meus próximos desafios. Está marcado para o mês de Nissan (inícios de Abril).
Aqui na yeshiva, desde que eu fiz a cerimónia de yerusin, ou noivado, que os colegas do departamento sul-americano querem dizer a toda a gente que eu estou comprometido. Ao saber disso, é costume na yeshiva, fazer uma grande roda com os alunos da yeshiva e dançarem com o noivo, normalmente durante a hora de almoço, o tempo em que se junta mais gente.
Havia pedido aos companheiros da yeshiva a quem tinha contado para guardarem segredo e não fazerem ainda a tal rodinha, mas agora que a data está marcada, não deve tardar a que alguém se levante à hora de almoço, me pegue no braço e comece a cantar uma canção típica de casamento. Como um sinal de alvorada, nessa hora se levantarão dezenas de outros alunos da yeshiva e dançarão e cantarão comigo.
Longe da família – a minha em Portugal, a da minha noiva no Brasil – tudo parece mais complicado. Em Israel, felizmente, não faltam instituições que ajudam os futuros casais a concretizar uma das mais importantes mitzvot (preceitos) do Judaísmo.
Seja com os bancos de roupa para casamentos – existentes em vários locais do país, em especial nas comunidades religiosas – ou instituições que apoiam monetariamente para as despesas da festa, braços estendidos para ajudar, não faltam. Por exemplo, alguns alunos do curso de conversão que eu frequentei, tiveram a ajuda do próprio curso, para fazer a festa.
Todavia, além do próprio dia do casamento, há que pensar no local onde vou morar depois de casar. É que, uma vez casado, não dará para continuar a morar num quarto partilhado na yeshiva.
Uma casa-caravana num colonato próximo de Jerusalém é uma das opções mais baratas e, enquanto a família for pequena, uma solução suficiente. Mas por agora, nem essa opção está garantida, dada a longa lista de espera para esse tipo de alojamento.
Finalmente, já tenho o cartão de identidade israelita.
Teudat zehut, o B.I. de Israel
Depois de várias idas ao Ministério do Interior, de pedidos e documentos, fotocópias, traduções, declarações, certificações e outra papelada tão amada pelos burocratas... recebi o cartãozinho azul que me atesta como cidadão israelita.
Nele consta o meu novo nome israelita: Boaz Gabriel Canhoto. Boaz, o meu nome judaico; Gabriel Canhoto, o nome português com que eu assinava há já vários anos. O problema é que, de cada vez que eu disser "Canhoto", alguém vai olhar-me com espanto e pedir "soletre por favor". "Kuf, nun, yud, vav, tet, vav". Se mesmo em termos de apelidos portugueses não é nada comum, em hebraico é totalmente inaudito.
Passaporte, isso só daqui a um ano.
Tratar de papelada é um pesadelo em qualquer lugar. A burocracia é uma coisa tão implantada no cerne das sociedades modernas que é difícil imaginar até um qualquer processo de tirar uma certidão, documento, segunda-via, licença, escritura e afins sem horas intermináveis de espera nalguma secretaria.
Em Israel a burocracia é lendária, ultrapassando de longe a montanha burocrática portuguesa. É de tal modo pesada e ineficiente que o mais aconselhado é levar um bom livro e ao menos uma garrafa de água (para não falar de um farnel) quando é necessário tratar de algo nas oficinas burocráticas.
Passar do assunto de um ministério para outro, é como passar para um outro país, pois parece não existir qualquer coordenação de serviços. Se no primeiro caso pedem uma dúzia de documentos, provas e certidões, no segundo voltam a pedir tudo de novo, sem se importarem que o serviço anterior já ter dado o aval ao avanço do processo. E nunca, nunca, se fie na lista de coisas que lhe dizem para levar para a repartição seguinte. É que sempre lhe pedirão alguma coisa que falta. Por isso, leve toda a tralha burocrática que acumulou nos últimos anos. E mesmo assim sem garantias...
Nos serviços, ninguém parece saber muito bem como funcionam os trâmites. Cada um faz as coisas à sua maneira. Se acontecer uma secretária topar a conversa na mesa ao lado, até é capaz de perguntar: "O que é estás para aí a dizer? Não é nada disso! É preciso isto e aquilo e aqueloutro". E lá começa uma tão típica discussão entre os burocratas. A secretária intrometida contra a que levou com o selo de incompetente, cada uma a reclamar a razão para si. E o infeliz do utente a amargar.
Há também a recorrente pausa da secretária para o café e o cigarrinho, sem hora para terminar. Independentemente de a sala de espera estar apinhada de gente. Uma multidão nervosa e suada, no abafo não disfarçado pelo ar condicionado. E a gritaria dos bebés nos carrinhos.
Se a coisa ficar feia, sempre se pode usar a técnica do berro e do murro na mesa. Pode não ajudar nada, mas a secretária fica logo a saber que o utente que tem pela frente não é um tolo. Para bruto, bruto e meio é uma máxima a ter em conta naquela altura.
Ah, e isto tudo, é claro, só acontece se os serviços estiverem a funcionar. O que, com a onda de greves a varrer o país, nunca se sabe. Pode acontecer, terminar de tratar de uma coisa aqui e depois ficar encalhado além, por causa da greve, que nunca tem data para terminar. Só à noite, no telejornal, saberá se vai ser amanhã que poderá voltar a amargar com as filas de espera, os apertos e a fantástica simpatia do funcionário público local.
E prepare-se para ouvir que ainda falta a porcaria de um qualquer papel que a senhora se lembrou agora de pedir.
Nota:Actualmente ando na senda de tratar da papelada para obtenção da cidadania israelita. Apesar de já ter passado por todo o processo para a imigração, isso parece não valer nada e tudo volta ao princípio. Manhãs inteiras gastas no Ministério da Imigração e especialmente no tenebroso Ministério do Interior. A última coisa que se lembraram foi pedir-me uma certidão de nascimento. A data e local que constam no passaporte, no documento de imigrante, e nas trinta declarações que já assinei parecem não provar nada. Temo que alguém pense que eu afinal não nasci no dia 24 de Março de 1977 em Leiria, mas fui clonado nalgum laboratório científico da ex-União Soviética. Ou então que terei nascido de um repolho...
E agora começa a senda da burocracia em Israel.
Conta bancária. Seguro de saúde. Equivalência dos estudos universitários portugueses e possível pós-graduação. Exame para a carta de condução. Aulas de hebreu. Bilhete de identidade. Passaporte.
Estas são SÓ ALGUMAS das coisas que eu tenho de tratar nas próximas semanas. Ao mesmo tempo tendo de enfrentar a onda de greves que afectam o Ministério do Interior e o Banco Postal, duas das instituições que controlam estes processos.
Cheguei a Israel na passada quarta-feira. Todavia, esta chegada, a minha quinta ao país, não tem paralelo com as outras. Agora cheguei como imigrante. Sem o aparato de muitas chegadas de imigrantes dos Estados Unidos, com milhares de pessoas à espera com bandeirinhas, mas com todos os passos planeados a partir do momento da aterragem no aeroporto de Ben Gurion.
Imigrantes de Marrocos no aeroporto de Lod, onde chegaram num avião vindo de França, 1954
Comecei o processo de aliya (nome dado à emigração para Israel e que, literalmente, significa "subida") ainda em Jerusalém, nos finais de Fevereiro último. Numa ida ocasional a um gabinete da Agência Judaica, para acompanhar um colega da yeshiva entretanto chegado a Israel, pedi eu também informações sobre os procedimentos de imigração.
Mais dúvidas surgiram e acabei por contactar o serviço em língua espanhola ou portuguesa do Global Center da Agência Judaica. Fui a uma entrevista, preenchi uns papéis e levei os meus documentos essenciais à abertura do ficheiro para a minha imigração: o passaporte e a chamada teudat hamará (uma declaração que atesta que eu sou judeu após passar o processo de conversão), essencial para assegurar o meu direito a emigrar para Israel.
Mais uma ida ao Global Center entregar uns papéis que faltavam e uma troca de e-mails com informações. Aos poucos, a data da minha aliya ia ficando mais clara. Após receber a garantia de ter todo o processo tratado e entretanto transferida a minha pasta para a delegação da Agência Judaica em Madrid – responsável também pelos raros casos de portugueses que emigram para Israel – resolvi comprar a viagem para Portugal. Todo o dinheiro que havia ganho em sete dias de trabalho nas limpezas antes de Pessah serviu para pagar o bilhete. Aproveitava para visitar a família e sabia que o meu voo de regresso a Israel seria pago pela Agência Judaica. E entretanto evitaria ter de renovar o meu visto de turista, entretanto a caducar. E como só poderia fazer aliya quando completasse um ano após a conversão, seria o timing perfeito.
Com a chegada a Portugal tive de ligar para Jerusalém, a confirmar que já me encontrava fora do país. Os trâmites seguiriam agora a partir de Madrid. Informada a embaixada israelita em Lisboa, estava aberta a porta para a obtenção de um "visto de aliya". Só foi necessário encontrar uma data em que o horário da embaixada coincidisse com a minha permanência em Lisboa às sextas-feiras. Coisa difícil, já que a delegação israelita fecha ao meio-dia e eu chegava normalmente à capital à uma da tarde. Levantar-me bem mais cedo e apanhar o autocarro das 8 da manhã para Lisboa foi a única opção. E esperar que não houvesse nada de extraordinário na embaixada que me impedisse de tratar da burocracia.
Numa das minhas idas de final de semana à capital para passar o Shabbat, fui à embaixada para pedir o visto. O habitual aparato de segurança no local foi facilmente ultrapassado com uma conversa em hebraico com um dos seguranças israelitas e o mostrar do passaporte com uma série de carimbos estampados em Israel. Algumas informações num questionário e pronto. Seria só esperar dois dias e o visto estaria pronto. E o senhor cônsul desejava falar comigo...
Chegara a altura de marcar a data do voo de regresso a Israel. Oferta do governo de Israel através da EL-AL, foi-me dito que o receberia por e-mail. Só sabia a data e a hora. Mas havia um problema: o voo seria apenas entre Madrid e Tel Aviv. A viagem Lisboa-Madrid teria eu de a comprar e seria posteriormente reembolsado. Procedimento estranho se comparado com o que acontece com os emigrantes que viajam da América Latina, aos quais a viajem é paga integralmente desde o início. Com grande aperto, lá consegui um voo para Madrid na data exacta que necessitava. E ainda tive de enviar o próprio bilhete, a factura e os dados da minha conta bancária para a delegação madrilena da Agência Judaica.
Telefonema para um lado, e-mail para o outro, agora parece que o dito cujo vai ser pago pelo consulado de Israel em Espanha. Vá-se lá saber... We wait and we wonder.
E ainda me falta toda a fase do processo após a chegada. Isso é outra empreitada.

No passado Domingo festejou-se Purim em Jerusalém. Purim é uma festa judaica que recorda o milagre da salvação dos Judeus da Pérsia, do decreto de morte de todos os Judeus do império persa, pelo malvado vizir Haman.
(Interessante como menos de 2500 depois, da mesma Pérsia entretanto chamada Irão se levanta outro Haman, na pessoa do presidente Ahmadinejad).
É costume as pessoas mascararem-se (não sei se por influência do Carnaval), fazerem churrascos e, especialmente, beber até cair.
Eu, não bebi, mas caí. E o resultado foi uma luxação no dedo grande do pé esquerdo. Graças a Deus, não foi fractura.
Como as dores não paravam e o dedo estava inchado e roxo (bem madurinho, pronto para cair), fui ao Maguen David Adom (o equivalente israelita da Cruz Vermelha). Aí recomendaram-me descanso por dois dias.
Jerusalém é uma cidade onde os tempos de maior agitação estão definidos. Além dos dias santos judaicos, como as peregrinações de Pessach (a Páscoa Judaica), Shavuot e Succot; as festas muçulmanas, especialmente o mês de jejum de Ramadão e as datas cristãs de Natal e Páscoa, existem ainda os feriados nacionais israelitas, com destaque para o Yom Yerushalayim (Dia da Reunificação de Jerusalém, na guerra dos Seis Dias) e o Yom Atzmaut (Dia da Independência de Israel).
Sempre há uma ou outra manifestação politica a decorrer, como tendas montadas junto a um qualquer ministério a protestar contra alguma coisa. Nada de mais. Nas semanas passadas, a cidade agitou-se com a perspectiva da realização da Marcha Mundial do Orgulho Gay. Uma organização internacional, apoiada por um grupo local, decidiu marcar para a Cidade Santa um desfile de "orgulho gay".
Após a permissão dada pelo Supremo Tribunal para a realização da marcha, levantaram-se imediatamente as vozes dos opositores ao desfile, visto como uma provocação e, pior ainda, uma profanação da santidade de Jerusalém. Líderes judeus, cristãos e muçulmanos reuniram-se para, a uma só voz, se oporem à Marcha. Coisa rara essa aliança, apenas vista aquando da visita de João Paulo II a Israel em Março de 2000 e de uma marcha idêntica realizada em 2005.
À medida que se aproximava a data anunciada para a realização da Marcha - para aumentar a afronta, marcada para a véspera de Shabbat - foi crescendo a oposição ao evento. Cartazes espalhados pela cidade relatavam uma alegada profecia de uns anónimos "mestres cabalistas" que avisavam que, na eventualidade da parada ser realizada, Israel sofreria "uma guerra no Norte e um grande terramoto".
Chegaram a aparecer anúncios a oferecer uma recompensa de 5000 dólares a quem matasse um dos que se atrevesse a participar na Parada. Na marcha do ano passado, um homem armado com uma faca e com a mesma ideia, feriu levemente três participantes. Foi recentemente condenado a 20 anos de cadeia.
Depressa a manifestação de oposição ao evento deixou de ser apenas verbal e em acesos artigos de jornal e passou para as ruas. Em bairros de Jerusalém habitados principalmente por haredim (judeus ultra-ortodoxos), jovens exaltados incendiavam diariamente os contentores de lixo. No bairro de Mea Shearim bloquearam as principais ruas com pilhas de pneus a arder e enfrentaram a polícia com chuvas de pedras. Por várias ocasiões, o trânsito no bairro teve de ser desviado, devido à desordem nas ruas.
Numa das manhãs seguintes a uma das batalhas de rua em Mea Shearim, passei pelo bairro, situado a uns 15 minutos a pé da Cidade Velha. No ar um cheiro forte a queimado, um aroma do género "Beirute anos 80". Os passeios estavam cobertos de boletins da versão local do totoloto, provenientes de uma banca de apostas alvo de vandalismo. Nas ruas - onde a maioria das lojas permaneciam fechadas - ainda se viam os restos carbonizados de pneus. No principal cruzamento do bairro, a marca mais chocante de todas: a carcaça de um automóvel calcinado, virado de rodas para o ar. Ali ao lado, os vidros quebrados das paragens de autocarro.
Os rabinos mais importantes, apesar de naturalmente se oporem ao desfile, condenaram igualmente a onda de destruição e as opções de oposição violenta. Foi marcada então uma contra-marcha para a mesma manhã.
No entanto, apesar da enormidade dos protestos, a Parada Gay foi apenas cancelada nos seus moldes iniciais por causa de uma operação militar levada a cabo pelo Exército de Israel em Gaza.
É que, dada a envergadura da operação e a subsequente necessidade de aumentar o nível de segurança nos pontos principais do país, os 12 mil polícias inicialmente previstos para vigiar a marcha e evitar recontros com os contra-manifestantes foram mobilizados para locais sensíveis. E assim, ao fim de tantos protestos contra a Marcha, esta acabou por realizar-se, mas num recinto fechado, num estádio do campus universitário e em moldes mais discretos.
Com mais ou menos plumas e lantejoulas, a vida segue normal em Jerusalém.
Um dos passos definitivamente mais difíceis quando se muda de local de residência, é habituarmo-nos ao novo lugar e às novas pessoas. No meu caso, não mudei apenas de local, mudei de país, de continente e, em grande parte de cultura.
Da Batalha e de Lisboa, passei para Jerusalém. Os contrastes são enormes e o choque inicial foi brutal. No entanto, hoje - passado quase um ano de residência na Cidade Santa - essa fase da estranheza passou em grande medida. Já me sei orientar com os transportes públicos, não costumo perder-me em relação aos quatro pontos cardeais e, por vezes, até já posso indicar o caminho a quem "anda perdido".
Outro dos sinais da familiaridade com a cidade é, ao caminhar na rua ou nos autocarros, encontro certas pessoas com alguma frequência. Não faço ideia dos seus nomes, mas sei que já as vi por aqui. São gente desta cidade.
Todos estes são sinais de que posso já chamar a esta: a minha cidade.
Nunca é fácil viver longe da família e dos amigos. É verdade que amigos fazem-se ou arranjam-se outros novos, mas nunca se deixam os "antigos" para trás. E a própria noção de família pressupõe eternidade dos laços - divórcios à parte -, pelo menos entre pais e filhos.
Nunca tive grande facilidade em fazer amigos. Aliás, creio que é mesmo impossível ser fácil "fazer amigos". A amizade requer um conhecimento mútuo, uma cumplicidade e uma proximidade tal que não se conseguem senão com um contacto particular e profundo que não se estabelecem com qualquer pessoa.
Sempre tive um grupo muito exclusivo de eleitos como "os meus amigos". A minha denominação de alguém como "amigo" sempre foi mantida no mais alto nível. Nunca tive o hábito de chamar "amigo" a todo o bicho e careta com quem contactava diariamente na escola. Esses foram e são simplesmente "colegas".
Antes, era habitualmente reservado nos meus contactos com estranhos. Aqui em Israel, com a distância da família e dos amigos de Portugal - que são os amigos de sempre -, descobri uma faculdade que não julgava ter: a de socializar com pessoas novas e criar laços com relativa facilidade. A saída da yeshivá Machon Meir e a entrada na Yeshivat HaKotel obrigou-me a construir novos vínculos.
Alguns - muito poucos - dos companheiros de estudos da antiga yeshiva, acabaram por tornar-se amigos de quem sinto uma falta constante. Na minha nova casa, a integração fez-se muito por conta da facilidade de contacto entre portugueses e brasileiros. O meu habitual sentido de humor e a natural boa-disposição brasileira ajudaram no processo.
Hoje olho para as fotos que trouxe de Portugal com uma saudade impossível de conter. Pelo menos uma vez por semana recebo uma chamada da minha mãe. Menos frequentemente sou eu que ligo. Há dias em que penso por momentos que o pior pode acontecer com os que estão distantes e eu, a mais de 4000 quilómetros de distância, sem poder fazer nada. A ansiedade pela distância existe naturalmente nos dois sentidos.
Durante as semanas de guerra entre Israel e o Hezbollah subiu a frequência das chamadas da minha mãe. Preocupada com a minha situação. Não consigo conceber o nível da sua angústia ao ver as imagens da guerra e imaginar-me próximo daquilo tudo. Sempre me pedia para regressar a Portugal. Ofereceu-se até para me pagar o bilhete, para ao menos passar umas semanas longe do conflito. Sempre lhe dizia que em Jerusalém a situação estava praticamente inalterada e que ficava bem distante dos locais atingidos pelos mísseis no norte de Israel. Obviamente que isso não era suficiente para a sossegar.
Todas as vezes que falamos, me pergunta quando volto a Portugal e diz-me que tem saudades. Infelizmente, nunca lhe posso dar grandes certezas quanto ao meu regresso, mas digo-lhe que em princípio no próximo Março devo ir visitá-la. Gostava de poder ir a Portugal ao menos uma vez por ano. Foi essa a esperança que lhe deixei quando nos despedimos no dia da minha partida para Israel, em Maio último.
A condição quotidiana de Israel nunca é tão relaxada como na maioria dos outros países, por isso custa-me deixar as pessoas preocupadas com a minha situação. Em nome do quê o faço? Tenho pena que todo o meu projecto de vida possa causar alguma ansiedade na família e nos amigos. Estar hoje em Israel e desejar permanecer aqui, construindo cá a minha família e o meu futuro são consequências da minha conversão ao Judaísmo. Não passei por cima de ninguém para o consegui. Não creio que o processo tivesse alguma vez tido como consequência o sofrimento de alguém.
Todavia, não poderia deixar de fazer o que fiz. Pensar na eventual ansiedade da família e dos amigos como obstáculo ao meu futuro seria simplesmente boicotar a base da minha vida. Sobre isto me apoio nas palavras de Hillel, um dos sábios do Judaísmo contidas na obra "Pirkei Avot", a "Ética dos Pais":
«Se eu não sou por mim, quem será por mim? E se eu sou por mim, quem sou eu? E se não agora, quando?»

No próximo Domingo vou mudar de casa. Deixo o lugar que foi o meu lar durante quase um ano, a yeshiva Machon Meir. Não vou para muito longe, apenas a 20 minutos de autocarro, até à Cidade Velha de Jerusalém.
Não é fácil deixar para trás o lugar onde aprendi realmente a ser um judeu comprometido. Foi com esta bagagem que me aguentei mais de um mês em Portugal, fora de um ambiente judaico. Antes de entrar para o Machon Meir, por exemplo, apenas por uma vez tinha passado um dia em que havia feito as três orações diárias requeridas pelo Judaísmo. Rezar com minyan e estudar Torá passou a fazer parte do meu dia-a-dia. Judaísmo autêntico.
Desde o primeiro dia fui tratado com todo o respeito e o facto de ainda não ser judeu, nunca foi obstáculo para os estudos. Aqui, judeus e futuros-judeus estudam sem qualquer separação. Desde o início que a maioria passou a chamar-me logo pelo meu nome judeu - Boaz -, o nome que já havia escolhido, meses antes de completar o processo de guiur (conversão).
Foi de entre os estudantes da yeshiva que escolhi aquele que seria o meu sandak - a pessoa que me acompanhou durante a operação/cerimónia de circuncisão - uma espécie de padrinho. Foi cá também que recebi os primeiros abraços no dia em que completei o meu guiur.
Todavia, nem tudo foi fácil na vida na yeshiva. O pior foi mesmo ter de abdicar da privacidade e obrigar-me a ser um pouco condescendente com a falta de arrumação dos companheiros de quarto. Ter de aturar os muitos "loucos" que tenho por colegas e vizinhos. Tanto assim que um dos lemas em tom de piada entre os estudantes cá do sítio é: "o manicómio tem inveja da yeshiva". Mas é um lugar deveras especial.
Quando comuniquei ao favorito dos meus professores a minha saída próxima, ele mostrou-se triste com a perspectiva da minha saída. Que melhor reconhecimento poderia receber eu da parte de um sábio? O director do programa de lingua espanhola - do qual fiz parte durante a minha estadia na yeshiva - comentou nestes termos a minha saída: "É pena. Vai-se um dos baluartes do nosso departamento..."
Estas palavras enchem-me de orgulho, mas também são um peso que levo às costas para a nova yeshiva. Um fardo de responsabilidade que não quero nem posso desprezar. Apesar de mudar de casa e acima de tudo de lugar de estudo, quero continuar a merecer os elogios e a consideração dos mestres que deixo. O nível que me vai ser exigido na nova yeshiva é bem mais alto do que aquele que experimentei nos últimos meses.
Ainda não sei o que me espera. Não sei se os estudos que vou iniciar na próxima semana serão parte de um plano definido de vida, para além da obrigação de qualquer homem judeu de estudar Torá. Afinal, como ensinam os sábios: "o estudo da Torá vale por todas as outras mitzvot".
Com a situação financeira em que me encontro - com a perfeita consciência que tenho de ser bem poupadinho e evitar as despesas supérfluas, de vez em quando, quando caminho pelas ruas, penso que vou encontrar algum dinheiro perdido. Porque não? Tive dias em que cheguei a encontrar... 1 ou dois shekels. Confesso que nunca ponho grande fé nessa possibilidade, mas, pode ser que...
Hoje foi um desses dias. Quando caminhava para o trabalho pus a fasquia nos 50 shekels (pouco menos de 10 euros). Não fiz a coisa por menos.
Até chegar ao trabalho: moedinhas ou notas perdidas nos passeios, não vi nada. Assim que comecei a trabalhar, chegou-se um rapaz morador no edifício onde trabalho e disse-me que deveria limpar esta semana o jardim do prédio.
Já trabalho naquele lugar há mês e meio e nunca tinha limpo o jardim. Para o pouco que recebo, bem me chegam as escadas para me cansar. Bem, e aquilo não é jardim, coisa nenhuma. É uma área em que metade é cimentada e a outra é um matagal seco. Tudo imundo, com sacos e garrafas e copos de plástico, papeis e folhas de árvores. Uma felga.
Aí lembrei-me de que se limpasse o tal jardim receberia mais 75 shekels. A Torá ensina a não esperarmos milagres, incluindo possivelmente, dinheiro no caminho. Está certo que foi mais uma hora que tive de trabalhar, mas não ganhei 50 shekels caídos - do céu - no caminho. Ganhei 75 a enrijecer os calos das mãos. Deus é realmente bom.
Em tempos de guerra, uma das coisas mais extraordinárias do espírito humano é a capacidade que as pessoas têm de se adaptarem à situação. Há uma adaptação de tal modo forte que até deixam de lhe chamar guerra e passam a chamar-lhe exactamente "situação".
Em Jerusalém as coisas continuam como em todos os dias. É verdade que, até agora, não chegaram aqui os katiushas do Hezbollah, mas Israel é um país muito pequeno e o que acontece na Galileia (norte) é apenas a pouco mais de uma hora de carro de Jerusalém. Tudo é muito próximo.
Durante uma guerra, o modo como as pessoas se divertem, mostra muito a sua força de espírito. Há poucos dias passei pela Baixa de Jerusalém à noite. Tive um duplo espanto. Para além de ter ficado a saber que os bares da parte ocidental da Cidade Santa funcionarem também na noite de Shabbat, vi que os jovens de Jerusalém e os milhares de turistas que ainda cá estão, não cedem ao ambiente de tensão nacional e insistem no seu direito a divertirem-se, a dançar, a beber as suas cervejas, a conversar e passear à noite pelas ruas.
Mesmo que as chovam as bombas, há que continuar vivendo.

Na semana passada estive durante algumas horas em Tel Aviv, a trabalhar. Já habituado ao estilo de vida de Jerusalém, a agitação de estilo ocidental (ao extremo) que se vive por lá, é um choque.
Para começar, a forma de vestir das pessoas. Em Jerusalém, domina a descrição. Mulheres bem cobertas (mas bem longe do estilo burka afegã, ou do shador islâmico, nada de confusões). As mulheres ultra-ortodoxas vestem-se invariavelmente de negro, cabeça sempre coberta por uma touca estranha ou uma peruca, na maior parte das vezes mal disfarçada. Outras, as chamadas, religiosas sionistas adoptaram um estilo que alguém descreveu como "Estou-me a cagar para a elegância".
Quase todos os homens de kippa, seja ela negra, tricotada, larga, minúscula-como-um-ovo, etc. Em Tel Aviv, é quase tão difícil encontrar homens que usem kippa como em Lisboa. Aí, as mulheres maquilham-se imenso, em especial as russas - notam-se a milhas - e vestem-se seguindo a moda europeia, com o extremo adicional de quem parece desejar sobressair a qualquer custo...
O tráfego é outra das diferenças entre Tel Aviv e Jerusalém. Na capital, reina o trânsito caótico típico das cidades orientais, nas suas ruas do centro, maioritariamente estreitas. Já na moderna e plana Tel Aviv, o trânsito é também caótico, mas não pela falta de ruas largas por onde escoar a enorme quantidade de carros. É mais pela crónica falta de civismo dos israelitas ao volante.
A vida nocturna, em Jerusalém, tirando uns barzitos de adolescentes que só enchem de estudantes das escolas religiosas nas noites de quinta-feira, é fraquita. Em Tel Aviv não faltam discotecas. A animação nocturna dura toda a semana, com a triste realidade da moda da marijuana e das drogas sintéticas.
A arquitectura das duas cidades não poderia ser mais distinta. Em Jerusalém impera a lei da pedra. Todos os edifícios - mesmo todos! - são cobertos de pedra calcária, amarelada, o que dá à cidade um ar mais harmonioso, em combinação com o deserto que limita a cidade a norte e a oriente. Em Tel Aviv não faltam os arrojos arquitectónicos. Desde a "Cidade Branca", que é a maior área do Mundo com edifícios em estilo Bauhaus, dos anos 30, até aos arranha-céus de betão e vidro dos últimos anos.
A calma, ao fim do dia, é a regra em Jerusalém enquanto Tel Aviv faz jus ao nome de "cidade que nunca dorme".
Israel é um país coberto de plástico. Os israelitas são viciados em PET, poliuretano, esferovite e derivados. Louça e talheres descartáveis são a moda nas refeições de Shabbat. As toalhas de mesa são cobertas por uma manga de plástico e no fim da refeição simplesmente deitam-se os restos com as louças e os talheres para o caixote. Muito práctico.
Eu, habituado à separação de embalagens em Portugal - confesso que é a única coisa em que sou manifestamente ultra-ortodoxo - deparo-me com um retrocesso de anos nos meus hábitos mais básicos do dia-a-dia: deitar sacos de lixo sem qualquer separação para o contentor. E se me custa! Por inúmeras razões.
Primeiro, acho importantíssimo o cuidado com o ambiente. Daí depende não só o nosso futuro, mas também o nosso presente mais são. Depois, por questões económicas: há que ter sentido práctico.
Ora, Israel (ainda mais que Portugal) é um país muito pobre em termos de recursos naturais. Petróleo e gás existem, mas em quantidades insignificantes. (Há poucos meses foi descoberta uma jazida de gás natural ao largo da Faixa de Gaza que será explorada por uma empresa britânica.)
De um modo geral, matérias-primas têm de ser importadas. Petróleo e derivados são importados de longe, apesar da ironia de os maiores produtores de petróleo do mundo serem vizinhos de Israel. É que, esses vizinhos que nadam em petróleo boicotam Israel e assim a fonte de combustíveis tem de ser procurada mais longe. Tudo isto acarreta custo enormes ao país.
A única coisa que consigo salvar para reciclagem são as garrafas de plástico, para as quais há uns contentores aqui e acolá. Todavia, parece ser um acto tão pouco habitual que, há poucos dias, um dos meus professores, ao ver-me levar um saco de garrafas para o 'ecoponto' me chamou tzadik*!
No Judaísmo existe a ideia de Tikkun Olam - reparar o Mundo. A ecologia acaba por ser uma das formas mais básicas de atingir esse princípio.
PS - 'Uma pessoa cujos méritos ultrapassam a sua iniquidade é um tzadik'. (Mishnê Torá). O Talmud diz que, em cada momento há 36 tzadikim a viver entre nós e é por eles que o mundo não é destruído.
Quando cheguei a Israel, há quase dois meses, pensei que o ulpan guiur onde estou a estudar para a conversão, seria uma escola de estudo intenso de Judaísmo. No entanto, as aulas são de quatro horas, dois dias por semana. Acho manifestamente pouco, já que é apenas o dobro do que havia estado a estudar, durante um ano, em Lisboa. E não me mudei de Portugal para Israel para ter somente o dobro das horas de estudo que tinha antes.
Por isso, desde a semana passada, comecei a assistir às aulas matinais na yeshiva Machon Meir, em Jerusalém. Alguns dias antes de começar as aulas, ajudei um amigo e companheiro de casa e de ulpan a mudar a sua bagagem para lá, uma vez que já havia conseguido vaga. O choque foi imediato. Não que estivéssemos habituados a luxos ou a confortos especiais na casa onde estávamos a morar, mas o que encontrámos fez-nos pensar no que nos fomos meter...
Chegado ao quarto que lhe coube, pareceu-me estar perante uma cela dd uma prisão brasileira. Pequeno, escuro, sujo. À hora de almoço, depois da oração da tarde (minchá), descemos à cantina. A comida pareceu-me horrível. A primeira impressão da yeshiva, excluindo no que toca os estudos, foi de repulsa.
Todavia, as coisas não estavam a correr bem na casa onde vivia em Efrat, pelo que, apesar de as condições na yeshiva me terem chocado, me esforcei para lá conseguir uma vaga e, finalmente deixar a casa onde vivia há dois meses.
E foi assim que, ontem, carreguei a tralha para o meu quarto na yeshiva. O choque inicial passou. A comida até se revelou aceitável. Parece que as coisas não haviam corrido muito bem na cozinha nos dias em que lá comi. Pelo que vejo do meu amigo que me mudou há pouco mais de duas semanas, a comida de cá engorda. Bom sinal. É que me disseram, há dias, que estava mais magro desde que cheguei.
E afinal, os quartos não são assim tão maus. É verdade que têm de ser partilhados entre quatro ou cinco pessoas, o que, caso os companheiros sejam limpos e calmos, não é um problema de maior. Claro, para quem não se importe de abdicar da sua privacidade.
O ambiente parece-me estupendo. As classes são diárias no meu caso em espanhol, mas também as há em hebreu, inglês russo e francês. Passamos os dias imersos na Torá, no Shulchan Aruch e no Talmude.
Eu sou o único português entre os mais de 300 estudantes e residentes, mas há um grande número de brasileiros e latino-americanos. Dois dos meus companheiros de quarto são brasileiros, o que ajudou a não estranhar tanto a mudança.
No último Sábado, após o fim do Shabbat (que acaba ao pôr-do-sol), fui a Jerusalém. (Efrat é uma terra um bocado chata para quem é jovem e solteiro como eu). Fui de boleia, como habitualmente. No regresso, tomei um autocarro das carreiras regulares que ligam Jerusalém aos vários colonatos de Gush Etzion.
Apesar da hora tardia, onze da noite, o autocarro estava cheio. E, incrivelmente, cheio de jovens americanos, de ambos os sexos. A língua que se escutava era o inglês e não o habitual hebreu. Pela disposição notava-se que eram novatos nestas andanças israelitas. De tal modo descontraídos que mais parecia uma viagem de miúdos de liceu à Disneylândia, que uma normal viagem de Jerusalém para Gush Etzion.
Assim que se sai da cidade, o condutor desliga todas as luzes interiores do autocarro, a fim de melhor proteger os passageiros, ao dificultar a visibilidade dos alvos a eventuais atiradores furtivos ao longo da estrada, que passa junto a povoações palestinianas, até ao Gush.
Ignorantes desse facto, e assim que a escuridão se instalou, por todo o autocarro se esticaram dedos para ligar as luzes situadas por cima de cada assento. E de novo se fez luz.
Entretanto, o autocarro saiu da estrada principal e atravessou Beit Jala, detendo-se antes do portão eléctrico que cerra o único acesso à primeira paragem. Ao meu lado, um dos americanos perguntou surpreso: "Onde estamos?". "Har Gilo", respondi-lhe.
Pensei em acrescentar-lhe, maldosamente: «É um minúsculo colonato judeu construído numa colina rodeada de uma cidade hostil, palestiniana. Sim, eles também vivem por aqui...» Achei melhor não o fazer.
Coitado do rapaz. Muito provavelmente, havia chegado há dois dias a Israel (alguns dos jovens ainda tinham nas mochilas autocolantes da EL-AL) e passara o Shabbat, calmamente, com alguma família em Jerusalém, antes de rumar à yeshiva onde irá viver e estudar nos próximos meses, algures num colonato. Nos "Territórios".
Deixei-o viver no sonho dele mais um bocadinho.
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