Sábado, 24 de Janeiro de 2009

Falafel com chop suey

Em 1977, um cargueiro israelita que navegava no Sudeste Asiático detectou um barco apinhado com 66 homens, mulheres e crianças. Os passageiros encontravam-se num estado miserável. Eram alguns entre as centenas de milhar de "boat people" ou "balseiros", que tentaram fugir do Vietname, nos anos que se seguiram ao final da Guerra do Vietname. Apesar dos repetidos e desesperados apelos de S.O.S., os refugiados, sem água ou comida, foram ignorados por outros barcos da Noruega, Japão, Alemanha Oriental e Panamá.

Os passageiros foram recolhidos pelo cargueiro israelita e levados para Israel. Uma pátria fundada por refugiados chegados da Europa após o Holocausto comoveu-se com a sua sorte, concedendo-lhes asilo político. Trinta anos passados, os descendentes destes e de outros refugiados vietnamitas acolhidos em Israel servem no exército de Israel e estão integrados na sociedade local. Este é apenas um dos episódios da pouco conhecida relação entre Israel e a Ásia.

Actualmente a maioria dos vietnamitas em Israel são imigrantes económicos, à procura de trabalho. E são uma minoria entre os milhares de tailandeses, chineses e indianos. Trabalham nas obras (hoje, muitas empresas preferem os asiáticos aos árabes), nas plantações de bananas e nos campos agrícolas dos kibbutzim. Das Filipinas e do Sri Lanka chegam sobretudo mulheres para trabalhar como enfermeiras e auxiliares de saúde domiciliárias – conhecidas exactamente como filipinit – ou nos turnos da noite dos hospitais.


Bnei Menashe em Israel | Centro Chabad de Phuket, Tailândia.
Família de ex-refugiados vietnamitas na Galileia | Turistas israelitas numa praia de Goa

Do Nordeste da Índia chegaram alguns milhares de membros do grupo Bnei Menashe, que reclamam ser descendentes dos judeus da antiga tribo de Menashe. Durante séculos, apesar de separados do Judaísmo oficial, mantiveram tradições de forte cariz judaico. De aparência totalmente asiática, prepararam-se durante anos para a sua integração oficial no povo judeu. O Rabinato-Chefe de Jerusalém reconheceu as suas reclamações e muitos foram aprovados para a conversão e a imigração para Israel. São famosos pela sua bravura e muitos integraram as unidades de elite do exército de Israel.

Mas não são apenas os asiáticos que buscam Israel. Os israelitas são apaixonados pelo Oriente. Milhares de jovens israelitas, após terminarem os anos de serviço militar, embarcam em viagens de aventura pelo Mundo. Uns buscam a América Latina, da Costa Rica à Patagónia. A maioria porém, busca a Ásia. As praias de Goa e da Tailândia, os trilhos de montanha no Nepal e Caxemira ou as ruínas do Cambodja, são locais de predilecção para os mochileiros israelitas. São tantos e de tal importância turística, que em muitos locais os menus dos restaurantes são escritos também em hebraico.

Para melhorar a imagem persistente do turista israelita como barulhento e pouco educado, alguns mochileiros dedicam-se também a actividades de natureza humanitária. Por exemplo, jovens israelitas dispensam vários meses da sua viagem numa aldeia do Cambodja ensinando inglês às crianças e participando na construção de poços e de um centro médico.

Na afluência israelita à Ásia, muitos não procuram somente a natureza e os prazeres a baixo custo, mas também as experiências espirituais. O Budismo e o exoterismo oriental encontram grande atracção para muitos jovens. Isto desencadeou um novo fenómeno: o florescimento de iniciativas para atrair de volta aqueles milhares de jovens às suas raízes judaicas. Na vanguarda desse fenómeno, o movimento Chabad abriu dezenas de Centros Chabad pela região: Tailândia, Cambodja, Nepal, Laos, Vietname e Índia (o centro Chabad de Bombaim foi um dos alvos da recente vaga de atentados na cidade). Aí os jovens podem encontrar comida casher, aulas de Torá, acolhimento durante o Shabbat e as festas judaicas, hospitalidade judaica tão longe de Israel.

De regresso a Israel, muitos continuam a sua vida normal. Outros, porém, trazem a influência e os costumes asiáticos na mochila, junto com os postais e os souvenirs. Outros ainda, trazem de volta a espiritualidade judaica que encontraram a milhares de quilómetros de distância, e que em muitos casos não haviam recebido nas suas casas e famílias judaicas.

publicado por Boaz às 21:46
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Domingo, 30 de Novembro de 2008

Em memória


Rav Gabriel Holtzberg e a esposa Rivka, mortos por terroristas islâmicos no Centro Chabad de Bombaim.

"E abençoarei os que te abençoarem, e aqueles que amaldiçoarem, amaldiçoarei..." (Génesis 12:3)

publicado por Boaz às 22:23
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Domingo, 7 de Outubro de 2007

A estrada da Birmânia

Depois dos protestos pela democracia em Rangum, brutalmente reprimidos pela sinistra polícia militar birmanesa, o Mundo parece ter despertado para o drama que há décadas se vive na Birmânia.

Aquele que os ocidentais raramente viam pelas revistas de viagens como um misterioso país de serenos monges budistas e magníficos pagodes dourados, apenas visitado por alguns turistas afoitos e bem recheados de dólares, é na verdade um dos mais terríveis e sanguinários infernos do planeta.

O país é governado por uma sádica "Junta" militar que teima em não aceitar os resultados eleitorais das últimas eleições democráticas que elegeram a líder da oposição Aung San Suu Kyi, sujeita há vários anos a um regime de prisão domiciliária.

Até há umas semanas era apenas mais um dos regimes ditatoriais esquecidos, ou melhor, coniventemente ignorados, como a China ou a Arábia Saudita. Quando o sangue jorra para as câmaras, torna-se difícil manter o silêncio. E virar a cara. Daí as manifs por todo o Mundo.


Manifestação na Malásia

Israel, tal como muitos países ocidentais, tem relações diplomáticas com a Birmânia. Hoje, a par das relações diplomáticas, existem relações económicas, em especial por numerosas empresas de armamento israelitas a fornecerem o regime militar birmanês. É óbvio que Israel não tem o exclusivo da venda de armas à Junta, mas de acordo com a publicação Jane's Intelligence Weekly, "empresas de segurança" israelitas são suspeitas de ter vendido Uzis e partes de espingardas de assalto Galil ao governo de Rangum. Ainda, mercenários israelitas são referidos como treinado a repressiva força policial do regime.

Até aos anos 70, Israel era conhecido entre os estados do Terceiro Mundo como o pequeno país que tinha feito florescer o deserto. Emissários de kibbutzim, as famosas cooperativas agrícolas israelitas, apoiavam projectos agrícolas por todo o continente africano. Depois da Guerra do Yom Kippur, o país abandonou os seus ideais agrários e a presença dos emissários agrícolas enviados pelo estado foi substituída pelas empresas de armamento e os mercenários.

Mercenários israelitas são conhecidos por ter trabalhado a favor de regimes autoritários em Angola, Argentina, Chile, Nicarágua, Congo ou Serra Leoa. A guarda pessoal de Manuel Noriega, ditador do Panamá, era dirigida por Mike Harari, um ex-agente da Mossad. São conhecidas também as ligações dos serviços secretos israelitas à antiga polícia do último Xá da Pérsia. Na Colômbia, o "rei dos mercenários" Yair Klein e seus capangas treinaram os esquadrões da morte da extrema-direita, cartéis de droga e outras organizações de terrível fama, dispostas a pagar milhões pelos seus serviços.

Se comparada com outros apoios, como o da petrolífera francesa Total, que explora campos de gás natural no sul da Birmânia no valor de muitos biliões de euros, é verdade que a parte do apoio israelita nesta equação é ínfima. De qualquer forma, a má fama que dá ao país não é negligenciável. Para lá da ainda mais pertinente questão moral.

O presidente Nicolas Sarcozy terá apelado às multinacionais francesas para congelarem investimentos na Birmânia, como retaliação à violência do regime. Vamos a ver se é só lábia de ocasião. Por enquanto, para a França, o sangue birmanês é mais amargo que o dos africanos, vítimas dos vários ditadores apoiados por Paris. Veremos se a influência da Total não adoça as bocas do Eliseu.

Israel é responsável por 10 a 12% das vendas de armamento a nível mundial. E, é evidente que esses negócios são feitos em virtude do lucro e de algumas considerações políticas. Se por um lado essas empresas com a anuência do governo não fazem, por razões claras, negócios com países árabes ou muçulmanos. Por outro, o governo deixa de ter legitimidade de criticar o apoio de empresas estrangeiras, russas ou chinesas, com o consentimento dos seus governos, a regimes como o Irão ou a Síria. Isto chama-se realpolitik.

Afinal, não existem princípios morais no negócio da guerra. Há interesses, nada mais. Israel faz os seus negócios de acordo com esses interesses e por essa via, perde a face para poder criticar com o argumento da moralidade, outros estados que fazem os seus negócios com os inimigos de Israel.

Custa afirmá-lo, mas no final, o sangue birmanês é tão vermelho como o israelita.

Nota: Estrada da Birmânia é o nome de uma rota construída pelas tropas israelitas, para abastecimento de Jerusalém, cercada por tropas árabes, durante a Guerra da Independência. O nome foi retirado da famosa estrada construída nas montanhas da Birmânia para permitir o abastecimento das tropas que combatiam os japoneses no sudeste asiático, durante a II Guerra Mundial.

publicado por Boaz às 15:32
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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