Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Hebron, entre o Céu e a guerra

No último dia das férias do Verão, antes do recomeço dos estudos na yeshivá, decidi visitar – desta vez sozinho – a cidade de Hebron, situada a apenas 20 quilómetros de casa. Há três anos que não visitava a cidade dos Patriarcas. Apesar da importância histórica e espiritual daquela que é a segunda cidade santa do Judaísmo, confesso que não é dos lugares que mais me atraem. Para lá da santidade, é uma cidade conflituosa, além de terrivelmente suja. Da primeira visita, recordo o som de tiros esporádicos e o persistente fedor a esterco de burro.


"Sétimo Degrau" | Túmulo de Sara
Túmulo de Yishai e Rute | Checkpoint "Tarpat"

Apanhei boleia no cruzamento de Gush Etzion. Destino: Kiryat Arba. Assim que se sai do cruzamento do Gush em direção a sul, a estrada torna-se mais estreita. Ao lado do caminho há vinhas e campos de cultivo, alguns abandonados. Atravessamos várias aldeias árabes. A maioria das casas parecem inacabadas. Grafittis em árabe estão em quase todas as paredes. Entre a miséria das aldeias sobressaem as casas dos ricos locais, com um telhado em forma de pagode chinês. Destoam tanto como as casas de imigrantes com inclinados telhados alpinos que pululam nas aldeias de Portugal. Montes de entulho de obras e das pedreiras e sucatas ferrugentas pontilham a paisagem. O lixo despejado na borda do jardim ou junto às paredes das casas fazem jus à proverbial imundície dos povoados árabes. Em frente a cada cruzamento, uma torre de vigia do exército de Israel. Na beira da estrada, placas vermelhas e brancas avisam os cidadãos israelitas da proibição de entrar no território da Autoridade Palestiniana. Ameaçadoramente declaram “Estão por sua conta e risco”.

Chegados a Kiryat Arba, o condutor da boleia deixa-me numa praça do colonato. Pergunto como chegar a Hebron. “Siga esta rua até ao cruzamento e espere uma boleia até à Gruta dos Patriarcas.” Pergunto se é possível chegar a pé. “Sim, tem presença do exército e da polícia. Não tem problema.” Ao chegar ao tal cruzamento, olho para Hebron, do outro lado da cerca que rodeia Kiryat Arba. Tirando o posto de controlo na entrada do colonato, não se vêm soldados na rua. Decidi não arriscar a caminhada e esperei pela boleia, que chegou logo a seguir. Quase não se avistam pessoas na rua. O calor do meio-dia não encoraja a sair de casa.

Na praça em frente à Gruta dos Patriarcas uma multidão de centenas de turistas franceses com bandeiras de Israel chega para visitar o santuário. Num dos cantos do edifício situa-se o lugar conhecido como o Sétimo Degrau. Desde a conquista islâmica no século XIII aquele era o ponto mais próximo onde os peregrinos judeus podiam rezar do túmulo dos Patriarcas. Depois de 1967, quando Israel conquistou a cidade à Jordânia, os Judeus puderam voltar a rezar no interior do santuário. Mesmo com a permissão, ainda hoje, muitos visitantes continuam a rezar no Sétimo Degrau, recordando 800 anos de humilhante proibição. Homens e mulheres, haredim e os tais turistas franceses, rezam juntos no local. Algumas mulheres choram.

À entrada do santuário há dois pontos de controlo dos visitantes. Não se pode entrar com armas. Nem com bandeiras, mesmo as de Israel que os franceses empunham. Grupos de homens estudam. Ao lado, um minyan reza Minchá, a oração da tarde. Uma vedação de madeira separa-os das mulheres que recitam salmos. No pátio interior coberto por um toldo, outro grupo de homens reza. De cada extremo do pátio, dois pequenos santuários entre os túmulos dos casais dos Patriarcas sepultados no local. Jacob e Leah de um lado. Abraão e Sara do outro. A decoração do local é tipicamente muçulmana, denotando o domínio islâmico quase ininterrupto durante 1400 anos. As pinturas nos tectos têm um aspeto renovado. Sob o túmulo de Leah, os pombos – indiferentes à santidade do local –, deixaram os seus despojos.

Decido estudar um pouco enquanto espero por um novo minyan para a oração da tarde. Saio pouco depois de terminada a reza. Ao descer as escadas para a rua pondero se devo ou não visitar outros locais de Hebron onde residem os judeus. Paro a alguns metros de um soldado que vigia um cruzamento da rua principal. Acerco-me e pergunto: “Quero ir até Tel Rumeida, é seguro?”. “Sim, não tem problema”, assegura-me.

A cidade de Hebron é um dos principais pontos de disputa entre Israel e os Palestinianos. Uma parte da Cidade Velha, em redor da Gruta dos Patriarcas e junto a Kiryat Arba, é controlada por Israel. Nessa área, três pequenos núcleos abrigam algumas centenas de habitantes judeus. Os bairros árabes têm um aspeto de cidade fantasma. A violência da Segunda Intifada – que em Hebron teve alguns dos seus piores episódios – levaram a prolongados períodos de recolher obrigatório e encerramento de lojas. Muitos dos habitantes árabes mudaram-se para o outro lado da cidade, controlada pela Autoridade Palestiniana.

À minha frente, na rua principal, caminha um casal de árabes idosos. O homem usa um longo keffiyeh branco e vermelho. Um pouco adiante, um turista asiático. Ao passar por ele cumprimenta-me com um sorriso: “Hello”. Retribuo a saudação e pergunto-lhe de onde vem. É sul-coreano. No caminho tento conversar um pouco com ele, mas o seu inglês é terrivelmente limitado. Decide parar junto a uma paragem de autocarro que me parece abandonada.

Continuo sozinho a minha jornada. Olho as varandas sobre a rua principal, todas protegidas por finas redes de ferro. “Ao menos assim, não tenho de me preocupar que me atirem alguma pedra…”, penso. Todavia, um cano de espingarda passa bem entre os buracos da rede. Confio que o Exército deve ter procedido à limpeza das armas da cidade. No caminho, uma cafetaria self-service para uso dos soldados israelitas que patrulham as ruas. Beit Hadassa, o antigo hospital judaico é hoje uma das residências judaicas em Hebron. O local foi palco de um massacre da comunidade judaica às mãos dos vizinhos árabes, em 1929. Um pequeno museu recorda a tragédia.

Até há alguns anos, em cada porta havia uma loja. Hoje estão todas fechadas e trancadas com uma barra de ferro. A Intifada matou o comércio nesta metade da cidade. Não sei se ainda vivem árabes naquela área. Alguns barulhos de conversas e de televisões informam-me que sim. No fim da rua, um checkpoint serve de passagem de pedestres para a parte palestiniana de Hebron.

Tel Rumeida, o meu destino, situa-se no alto de uma colina. A estrada é íngreme. Ao lado, o muro que separa a cidade. Quase no alto da encosta, uma abertura no muro permite observar a cidade palestiniana do outro lado. Ao contrário da área onde me encontro, daquele lado vejo shoppings e mais shoppings, com cúpulas vistosas. Prédios residenciais modernos. Aqui e além, mais alguns pagodes chineses. E um ininterrupto barulho de buzinas.

No alto da ladeira, dois soldados patrulham um cruzamento muito próximo de Tel Rumeida. Ali situa-se, ao lado de uma pequena base militar israelita, o núcleo judaico mais isolado de Hebron. A maior parte das famílias vivem em caravanas, ao lado das ruínas milenares de Tel Hebron. Entro no recinto da base para visitar o túmulo de Yishai e Rute, pai e bisavó do rei David. É uma ruína poeirenta e deserta. Uma vela memorial colocada sobre a laje escurecida testemunha que alguém passou ali recentemente. Entro na pequena sinagoga ao lado. Está vazia, mas a luz e a ventoinha estão ligadas. Sento-me por alguns minutos para descansar do calor e da caminhada. Recito alguns salmos. As eternas palavras do Rei David entoadas na cidade onde ele reinou por sete anos têm outro significado. Dou uma volta pelas ruínas. Um painel informa a existência de uma antiga sinagoga. Entro, curvando-me, por uma porta baixa. No interior, nada lembra tratar-se de uma sinagoga. Exceto alguns livros sagrados numa estante ou amontoados num canto, cobertos de pó.

São horas de regressar a casa. Desço a encosta em direção ao centro da cidade. Algumas crianças árabes caminham também por ali. Passa por mim um carro israelita, o primeiro que vejo passar desde que saí há mais de uma hora da Gruta dos Patriarcas. Junto a Beit Hadassa várias crianças judias correm pela rua. Para eles aquele é o espaço de brincadeiras, independente da situação que se viva na cidade.

Avisto o autocarro 160 que vai partir para Jerusalém. Cheguei em boa hora. Na segunda paragem, o turista coreano ainda espera o transporte de regresso a Jerusalém. Olho a cidade passar pelo vidro sujo do autocarro. Sujo como as ruas da Cidade Velha com casas esventradas, cicatrizes da Intifada. Hebron é um dos símbolos das intermináveis (e talvez insolúveis) negociações com os Palestinianos. É difícil para Israel manter a situação atual, pelos custos económicos e humanos. O exemplo da entrega de Gaza não perspetiva bons resultados para futuras transferências de território. Até porque Hebron é um dos mais poderosos redutos do Hamas na Cisjordânia.

Santa e conflituosa. Cheia de preces. Cansada de mágoas.

publicado por Boaz às 21:10
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Viram? ou Toda a gente estava à espera desta, mas ninguém o disse porque pensavam que o gajo se contentava

Aviso que vou despejar uma bela dose de cinismo nas próximas linhas. Apeteceu-me. Acho que também tenho direito a um pouco de mangação.*

Há poucos dias, o Primeiro-Ministro de Israel, Benyamin Netanyahu revelou uma decisão do governo em congelar durante 10 meses todas as novas construções nos colonatos judaicos na Judeia e Samaria (chamadas pela comunidade internacional Cisjordânia ou Margem Ocidental ou Territórios Palestinianos). Em Israel, essa decisão causou um escândalo. Até mesmos os partidos da oposição de esquerda, mas propensos a cedências ao outro lado, atacaram a decisão de "Bibi" por colocar no mesmo saco os colonatos estratégicos como Gush Etzion e Maale Adumim e os pequenos colonatos clandestinos, compostos de caravanas em locais isolados.

Ninguém sabe bem a intenção do chefe do governo. Uns dizem que, com esta cedência ele quer "colocar a pressão do lado dos Palestinianos" para retomarem as negociações. Outros dizem que quer dar um pequeno empurrãozinho aos "moderados" da Fatah, adversários dos "radicais" do Hamas nas próximas eleições para a Autoridade palestiniana. Uma terceira versão diz que tudo não passa de uma manobra bem calibrada para que Obama e a Senhora Clinton – aflitos para melhorarem a imagem dos States no mundo árabe já que a decisão de mandar mais 10 mil soldados para o Afeganistão e os carros-bomba diários em Bagdad não ajudam nas Relações Públicas e uns puxões de orelhas aos Judeus parecem servir a causa – deixem de enfadar o governo de Israel para retomar o "processo de paz".

Mas, se alguém achava que um congelamento da construção nos colonatos ajudava em alguma coisa – ao pressionado "Bibi" ou à pressionada Fatah – a resposta do outro lado foi simplesmente inventar mais uma desculpa para continuar no mesmo cinismo desde 1991 quando começaram a falar com Israel para ver se lhe arranjarmos um cantinho para montarem mais um curral com pretensões de país para sobreviver às custas da comunidade internacional.

Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, mandou de volta o presentinho de "Bibi" e ainda fez uma exigência para o próximo presente: "não há negociações até que o Mundo – não apenas Israel, estão a ouvir? – reconheça as fronteiras de 1967 para o futuro estado palestiniano."

Sinceramente, até agradeço a sinceridade ao Sr. Abbas. Ao menos um que ponha as cartas em cima da mesa. Assim, ninguém se engana a pensar que ele tem alguma boa vontade nesta coisa do "processo". Os "maus da fita" do Hamas já o fizeram há muito tempo, como em 2005, quando Israel saiu de Gaza. Declararam logo: "hoje Gaza, amanhã Tel Aviv". O Sr. Abbas quis dizer exatamente o mesmo, mas apenas o fez com uma raiva jihadista menos evidente.

Então, pensavam mesmo que conseguiam alguma coisa com a gracinha do congelamento? Eu até imagino que não, mas há que fazer alguma coisa quando se está no poleiro e a coisa ferve. Em Portugal, a silly-season da política é mais para o Verão. Em Israel, parece funcionar em imprevistas intermitências, de Janeiro a Dezembro.

* Foi o melhor sinónimo de "troça" que encontrei no dicionário.

publicado por Boaz às 23:49
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

A geração dos 'Pardais'

Nesta última semana de intervalo nos estudos da yeshiva tive uma pequena mas interessante proposta de trabalho: ser guia de um grupo de jovens sul-americanos em visita a Gush Etzion, o bloco de colonatos a sul de Jerusalém e onde vivo há quase ano e meio. Fui substituir um brasileiro residente – tal como eu – em Alon Shevut e mais acostumado a estas andanças de guia turístico.

Nas vésperas, avisaram-me por e-mail que deveria falar da região de Gush Etzion, a sua situação política e estratégica, o modo de vida dos colonos, as diferenças entre os vários colonatos do "Bloco" e um pouco da história da região. Uma pesquisa noturna à pressa pela Internet, com as páginas da Wikipédia a encabeçarem as opções na busca de informação, deu-me alguns dados para completar aquilo que já sabia de cabeça. O episódio da "caravana dos 35" – que, nem por coincidência deu nome à minha rua, foi um dos pontos que mais destacaram que eu deveria falar.

Encontrei-me com o grupo às 11:45 junto ao alon ha'boded, o carvalho solitário que é o símbolo da zona. Tinham-me avisado que os jovens do grupo não eram religiosos. Bem, "não religiosos" seria uma definição algo branda para aquele bando. Membros da organização judaica de inspiração socialista, HaBonim Dror, os jovens eram na verdade mais do género "anti-religioso". De qualquer forma, sempre se mostraram respeitosos pela minha presença. A kippá grande, as longas peyot e os tzitzit à mostra não os assustaram. Eu também não me senti intimidado pelos grandes decotes e calções de verão das meninas e pelos penteados estranhos e os piercings dos rapazes. (Eu também já fui da "malta moderna". E até já usei um piercing! Vidas passadas.)

Depois da breve visita à histórica árvore, fomos para o kibbutz vizinho de Kfar Etzion, o mais antigo colonato da região, palco de um massacre exatamente no dia anterior à declaração de Independência de Israel. Era já hora de almoço e sentámo-nos à sombra de umas árvores num parque. Aí, tive a oportunidade de conversar com alguns dos outros guias, do Brasil e da Argentina.

Depois, dividimo-nos e metade do grupo foi visitar a yeshivá de Alon Shevut. Uma explicação – talvez demasiado longa – sobre alguns achados arqueológicos no jardim da yeshivá. Subimos até à ala das mulheres, com uma vista soberba do Beit Midrah, o lugar de estudos principal da yeshivá. Imagine-se aquela gente que nunca tinha entrado numa yeshivá – possivelmente muitos nem sequer entraram alguma vez numa sinagoga. Só nessa altura, os outros guias se lembraram que não tinham avisado as meninas para se vestirem de forma "composta", um pouco mais tapadas. Explicámos como é a vida na yeshivá e o modo de vida dos estudantes. Cinco minutos de explicação e voltámos aos autocarros.

Há que voltar daqui a pouco até "à base", onde metade do grupo tem outras atividades e nos espera para também fazerem este giro. Ainda temos alguns minutos para passar por Efrat, o maior colonato de Gush Etzion. Assim que chegámos à primeira rotunda de Efrat, o autocarro deu meia volta e voltou para trás. Não há mais tempo. Este meio-grupo não viu nada do local. Temos de mudar a estratégia para a próxima vez. Troquei de autocarro e tomei o microfone. Há que aproveitar os breves minutos da viagem entre os vários colonatos para ir falando.

Apesar de se identificarem como judeus – ainda que pelo talvez metade não o sejam de acordo com a lei judaica, filhos de pai judeu, mas não de mãe judia ou apenas netos de algum judeu – e imaginando que estão habituados a uma imagem de Israel muito desfocada pelos meios de comunicação social e pela ideologia de extrema-esquerda do Dror – a imagem do colono judeu fanático, sedento de sangue árabe, que come criancinhas palestinianas ao pequeno-almoço – tentei passar-lhes a ideia de que essa é uma ideia errada e que nem sequer todos os colonos são iguais. Que, tal como no resto do povo judeu no mundo inteiro, há judeus de todos os tipos e até seculares que habitam esta região.

Depois de 10 minutos de palestra, apercebi-me que o autocarro ainda não tinha saído do lugar. Ah, eu não tinha dado a ordem de largada! Bem, não me imaginava o líder da comitiva, mas apenas o que provê alguma informação. Fomos para Alon Shevut com quase 15 minutos de atraso. À chegada ao parque de estacionamento da yeshivá, uma vista sobre o enorme colonato de Beitar Illit, uma cidade habitada exclusivamente por judeus ultra-ortodoxos. Ao subirmos as escadas para a yeshiva, avisto o Rabino Aharon Lichstenstein, o director da yeshiva. "Aquele velhinho ali à frente é, apenas, um dos rabinos mais famosos do mundo", informo. Noto olhares impressionados entre os jovens. Não devem ter visto muitas vezes um rabino, ao vivo.

No andar de cima do Beit Midrash deixo-os fazer perguntas. "Porque está um aluno a dormir?" Explico como é cansativo estudar Torá o dia inteiro. "Aqui não estudam mulheres?" Falo da midrashá do kibbutz vizinho de Migdal Oz, com uma versão feminina da yeshivá de Alon Shevut, onde as mulheres estudam a Torá e outras fontes judaicas a fundo, a um nível raro a nível mundial e num ambiente judaico ortodoxo. Aproveito para explicar a evolução da perspetiva judaica em relação às mulheres e os avanços da Halachá (Lei Judaica) com a ajuda da ciência. Aponto o jovem no Beit Midrash que usa um computador e os dois jovens que estudam juntos por um volume da Guemará. As duas faces do estudo da Torá.

Ainda há tempo de ir a Efrat. Ali, temos 10 minutos até ao regresso. Uma visita ao belo miradouro ladeado de buganvílias e pinheiros. Observam o vale onde passa a estrada para Jerusalém e Elazar, o pequeno colonato do outro lado do vale. Mostro-lhes a tranquilidade da vida em Efrat. "E os Territórios Palestinianos, onde são?" Explico que, de acordo com a comunidade internacional, ali já são os "Territórios".

Antes de regressarmos, peço perguntas, mesmo as difíceis. Um rapaz pergunta: "Recebes alguma ajuda do governo para viver aqui?". E uma menina observa: "Isto é tudo muito lindo e tranquilo mas, e do outro lado da cerca, como vivem os Palestinianos?" A guia não me deixa responder ali. Temos de voltar para o autocarro. As respostas têm de ficar para a curta viagem de regresso. Explico que não tenho qualquer ajuda especial para viver ali. É certo que as casas são mais baratas naquela região do que numa qualquer cidade do país, mas apenas por uma questão das leis de mercado. E com a falta de casas os preços têm subido bastante. Ajudas? Eu pago 200 shekels – cerca de 40 euros – por mês, apenas para a empresa de segurança privada do colonato onde vivo.

A cerca... Achei bem explicar a "grande cerca", o Muro. É ruim, é feio, é injusto, mas é necessário. O facto de podermos viajar hoje de autocarro em Israel sem grandes receios, devemo-lo ao malfadado muro. Comparo com outro muro, igualmente caro e feio, mas bem menos polémico, e que ninguém condena: o muro construído com dinheiro da União Europeia em redor de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos, para impedir a onda de imigrantes africanos de chegar à Europa. Se as intenções dos Palestinianos em relação a Israel fossem as daqueles imigrantes que apenas querem trabalhar, será que precisávamos do "nosso" muro?

Sei que não vai ser com alguns minutos de conversa que eles serão conquistados para apoiarem Israel. Pelo menos, espero que entendam um pouco melhor a posição das pessoas que vivem aqui. E que os tenha ajudado a destruir alguns estereótipos.

Nota: "Pardal" é a outra tradução possível de Dror, o nome pelo qual é conhecido do movimento a que pertenciam os jovens, HaBonim Dror, os "Construtores da Liberdade".

publicado por Boaz às 23:11
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Crónicas da crise I: Colonização embargada

Os colonatos judaicos ainda são uma opção mais económica em relação ao crescente preço das casas nas principais cidades de Israel. Na região de Jerusalém, as opções são Gush Etzion, Maale Adumim ou Beitar e outras dezenas de colonatos mais pequenos. Porém, até aí os preços das casas têm aumentado. Por exemplo Beitar Illit, um gigantesco colonato de população ultra-ortodoxa, tradicionalmente bem mais barato que Jerusalém, já começa a ser demasiado caro para as novas famílias. Muitos casais jovens apenas conseguem arrendar uma cave apertada, com a perspetiva de terem de viver aí com as suas famílias que crescem rapidamente.


Nuvens ao pôr-do-sol sobre o colonato de Efrat, 2006.

Numa época de recessão generalizada nos preços imobiliários, o aumento dos valores das casas nos arredores de Jerusalém deve-se em grande parte às crescentes pressões americanas de congelamento da construção nos colonatos. Os colonatos dos arredores, assim como o recente bairro de Har Homa no sudeste de Jerusalém, eram as opções ideais para quem procurava casas espaçosas e baratas.

Todavia, a gravidade da crise nos EUA que fez aumentar em 15% a imigração de judeus americanos para Israel e a chegada em massa de imigrantes franceses – por via da vaga de anti-semitismo que tem assolado a França na última década –, ambos com maior poder de compra que o israelita médio, fizeram agravar os preços. As leis de mercado são claras: com pouca oferta e muita procura, o resultado foi o disparo do preço das casas em toda a região de Jerusalém.

O ritmo da construção nos colonatos abrandou após a eleição de Obama para a presidência americana, o qual não tem parado de pressionar Israel para congelar toda e qualquer colonização dos territórios disputados com os Palestinianos, incluindo o "crescimento natural da população". Ou seja, os filhos de colonos que se casem, não poderão viver junto aos pais, porque qualquer nova construção – na mente de Obama e da nova administração americana – é ilegal. No fundo, o que se pretende é abolir o mandamento "crescei e multiplicai-vos".

Ainda assim, desafiando as pressões, algumas ordens de novas construções foram emitidas pelo governo para os colonatos de Maale Adumim, Adam e Modi'in. A população local exige do governo que se preocupe mais com os seus cidadãos do que com as pressões oportunistas do "amigo americano".

publicado por Boaz às 14:55
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Flashes da terrinha

O vento do fim da tarde no arvoredo. O nevoeiro matinal e a neve duas vezes por ano. As estradas sem trânsito no Shabbat. Os garotos que correm, sem preocupações, pelas ruas. Os parques infantis em cada quarteirão, para entreter as numerosas crianças. Os jardins fartos do bairro antigo. Os jardins ainda recentes do bairro novo.


O carvalho solitário que dá nome ao colonato. As famosas vinhas da região.
Um dos muitos parques infantis. A yeshivá Har Etzion.
A nova sinagoga askenazi. A única sinagoga sefardita.

A enorme yeshivá Har Etzion com os seus extensos jardins. Os peixes vermelhos nos lagos do jardim da yeshivá. Os edifícios baixos dos alojamentos dos alunos. Os prédios do kollel*, com apartamentos exíguos, rodeados de árvores e de caminhos cimentados. Os carrinhos de bebé, deixados à porta dos prédios, por falta de espaço em casa. Os choros dos bebés vindos dos apartamentos.

A "sinagoga velha" de 30 anos. As rezas da noite, em tom corrido, às 20, 21, 22 e 23 horas. As reuniões de Sábado à tarde dos grupos juvenis, no relvado ao lado da sinagoga. O salão de festas com a sinagoga dos judeus iemenitas nas traseiras. A mikve* antiga, agora só usada pelos homens. Um caminho ladeado de roseiras ameaçadoramente espinhosas. A nova rampa de acesso à sinagoga para cadeiras de rodas e carrinhos de bebé.

O posto dos correios com horários impossíveis. O corredor ao lado dos correios com centenas de caixinhas de correio. As caixas de correio todos os dias cheias de panfletos publicitários. O enorme contentor aberto para a reciclagem de cartão. A agência bancária, com um horário do género "Fechado 24 horas". O minimercado, chamado por alguns boutique. Os preços inflacionados (daí o apelido). A velhinha que vende flores na praça, durante a tarde. As mesas de venda de doces caseiros às sextas-feiras. O instituto que, misturando lei judaica e ciência, cria inventos "amigos do Shabbat".

Os gatos que trepam às árvores. Os gatos que vasculham os contentores do lixo. A matilha dos cães selvagens que uivam à noite. A ameaça da segurança do povoado de dar caça aos cães selvagens. O bicho misterioso – talvez um pássaro – que pipila de forma estranha, algumas noites, perto da minha janela. Cinco coelhos negros à solta pela rua, na noite de Shabbat. Duas meninas aflitas a correr atrás dos seus coelhos. O canto e o saltitar dos melros nos relvados.

Os hipopótamos de plástico no recreio do centro de crianças deficientes. O crepitar constante dos postes de electricidade. As actuações dos jovens nos feriados, no anfiteatro central. A enorme dupla sinagoga nova com os seus curvos telhados azuis. O – aparentemente – recatado acesso das mulheres ao mikve novo, logo ao lado da sinagoga. O enorme salão de festas, por baixo das sinagogas. As pessoas que esperam uma boleia na paragem do autocarro. Os carros que teimam em não parar para oferecer boleia. A espera ao sol, pela boleia que não chega. A senhora de chapéu de abas largas que todas as manhãs, nas suas caminhadas, nos saúda com um forte "Boker tov!" (Bom dia).

As crianças que aparecem na sinagoga, para receber um chupa-chupa, na manhã de Shabbat. A chuva de rebuçados sobre o jovem de 13 anos, no dia do seu bar mitzva*. A pressa das crianças para apanhar o maior número de doces. O sono que ataca metade da assistência da sinagoga antes da reza nocturna de Shabbat. A voz nasalada do leitor da Torá da sinagoga sefardita. As longas e rimadas bênçãos do oficiante da sinagoga para quem sobe à Torá.

As batidas da música quase em estilo rave e os gritos estridentes das raparigas nas agitadas festas de casamento da aldeia árabe vizinha, numa noite de Shabbat. A videira que sobe o estendal da roupa. Os cachos de uvas maduros que sempre me esqueço de colher. As árvores "de todos" neste ano sabático da terra*. Os anúncios de permissão para colher as frutas, nas árvores que, no próximo ano, voltarão a ter dono.

O pedregoso vale até à colónia de Elazar, cultivado de vinhas e oliveiras e com figueiras abandonadas. Os passeios de bicicleta que eu sonho fazer no vale (quando arranjar a dita bicicleta). Os muros de pedra que separam campos abandonados. O jipe da segurança que percorre dia e noite, as ruas do povoado. Os jovens que fazem a vigilância nos portões de acesso ao lugar, olhando de soslaio para os condutores que entram, antes de abrir a cancela.

Os judeus peruanos de origem inca e os judeus indianos Bnei Menashe, residentes no bairro de caravanas. A longa e sinuosa estrada que liga o povoado ao bairro de caravanas. Os planos sempre adiados de transformar a colina das caravanas num bairro a sério.

Kollel – instituição de estudo religioso ligada normalmente a uma yeshiva, onde estudam a tempo integral, homens casados, recebendo um salário e/ou alojamento.
Mikve – tanque para o banho de imersão ritual, usado principalmente pelas mulheres, para a purificação no final do seu período menstrual. É costume de alguns homens banharem-se no mikve antes de Shabbat, ou todos os dias, antes das orações matinais.
Bar mitzva – literalmente "filho do mandamento". Cerimónia de passagem para os rapazes de 13 anos, que marca a sua entrada na idade adulta em termos de cumprimento dos preceitos religiosos. Consiste na leitura pública do rolo da Torá, na sinagoga.
Ano sabático da terra - ou Shemitá, o sétimo ano do ciclo agrícola de sete anos, ordenado pela Torah para ser de descanso das actividades agrícolas na Terra de Israel. Nesse ano é proibido semear, colher, podar ou lavrar. Apenas algumas actividades de manutenção dos campos são permitidas. Qualquer fruto nascido neste ano é considerado "sem dono" e poderá ser colhido por qualquer pessoa.

publicado por Boaz às 22:51
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Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Um carvalho solitário

No planalto de Gush Etzion, a cerca de 20 quilómetros ao sul de Jerusalém, fica a localidade de Alon Shevut. O tipo de local como Alon Shevut este é conhecido como "colonato", esse chavão da diplomacia internacional tão invariavelmente nefasto e vergonhoso. Porém, a sua realidade está tão longe do imaginário daqueles que nunca entraram num local destes.

Rodeado de colinas cultivadas de vinhas e oliveiras, Alon Shevut é um dos povoados judaicos que compõem a região de Gush Etzion. Há milénios que a região é habitada. Era ponto de passagem importante no acesso a Jerusalém e ao seu Templo. Em localidades vizinhas, encontraram-se mikvaot, estruturas usadas nos banhos de purificação ritual judaica, contando com mais de 2000 anos. Episódios da vida de Abraão e Jacob, de Rute a Moabita, o juiz Boaz ou o Rei David, tiveram lugar nestas paragens.

A região teve um repovoamento judaico nas primeiras décadas do século XX. Após massacres de judeus em Hebron em 1929 e em Kfar Etzion em 1948, habitantes judeus só voltaram a estabelecer-se aqui após a reconquista israelita na Guerra dos Seis Dias, em 1965.

O seu nome Alon Shevut, significa "Carvalho do Regresso" deriva de uma velha árvore existente num dos extremos do povoado. Localizada perto da chamada "Linha Verde" - a antiga fronteira entre Israel e a Transjordânia, até 1965 - a árvore era o símbolo do desejo de regresso dos judeus ao bloco de Etzion, após a expulsão pela Legião Jordana, em 1948. De longe, do lado israelita da fronteira, descendentes dos antigos moradores judeus na área, vislumbravam a solitária árvore. A memória dos difíceis dias entre 1948 e 1965 persiste e é contada às novas gerações.

Hoje, o local converteu-se num símbolo da região, um destino dos passeios familiares de Sábado, onde as crianças brincam debaixo da sua abundante copa.

publicado por Boaz às 22:21
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Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Rumo ao Sul

Desde o dia 3 de Abril último que a minha residência oficial é a Rehov Ha'teena (Rua da Figueira) no colonato de Alon Shevut. Depois de mais de um ano e meio a partilhar um quarto na Yeshivat HaKotel, finalmente arranjei uma casa que, apesar de alugada, posso chamar de "minha".

Alon Shevut é um pequeno colonato, cerca de 15 quilómetros a sul de Jerusalém. Saindo da Cidade Velha, na direcção sul, quem segue pela Estrada de Hebron, ao chegar às imediações de Belém, quando no fim da estrada se avista o posto de controlo junto ao Túmulo de Raquel, vira à direita. Duas centenas de metros e chega-se ao Cruzamento de Gilo, a ponta sul de Jerusalém.

Aí, durante todo o dia e parte da noite, sempre há alguém a pedir boleia. Quem viaja para sul, normalmente para algum dos colonatos do bloco de Gush Etzion ou para a cidade de Hebron, costuma parar e oferecer um lugar no carro. Uma boa alternativa, se pensarmos que a maioria das viagens de autocarro para o Gush – como é conhecida em Jerusalém a região de Etzion – apesar de serem baratos, têm pouca frequência e demoram imenso tempo.

Os túneis, o posto de controlo e o muro

À esquerda da estrada vê-se a cidade árabe de Belém. Nota-se que a cidade tem crescido, depois da crise da Segunda Intifada, quando os hotéis estiveram praticamente vazios durante anos a fio. Logo a seguir, os túneis de Gilo. Um túnel curto, um viaduto sobre o vale e o túnel mais longo. Antes da construção destas obras, a estrada para o sul cruzava a cidade árabe de Beit Jala. Com a Intifada, eram frequentes os tiroteios e o lançamento de pedras contra os carros que passavam o viaduto. Por isso se ergueu um muro de betão de um dos lados, para tapar a vista dos atiradores.

Assim que se sai do túnel, chega-se a um enorme posto de controlo ainda em construção. Todo o trânsito que sai do sul de Jerusalém em direcção à capital, é verificado nesta instalação. Soldados patrulham as várias faixas do posto, 24 horas por dia. Todos os dias.

Os carros vindos dos colonatos não costumam ter problemas para passar. No máximo, o enfadado soldado de serviço pergunta "De onde vem?". As mulheres soldados, talvez "para mostrar serviço" costumam ser mais insistentes. Os carros, táxis e autocarros árabes, pelo contrário, são verificados minuciosamente. Os passageiros costumam ser mandados sair da viatura, e as bagagens inspeccionadas. Excesso de zelo? Pense-se o que se quiser, mas a segurança é uma palavra levada a sério por aqui.

No posto de controlo começa uma das novas secções do muro que Israel constrói na Margem Ocidental. Ironia, todos os trabalhadores da obra são árabes. Até a empresa que fornece o cimento é árabe, descobriu-se que um dos seus donos é o ex-PM palestiniano Ahmed Qorei. Durante quilómetros, o muro acompanha o lado oriental da estrada. Até há alguns meses, do outro lado do muro viam-se povoados árabes. Hoje, apenas o muro de pedra e, de tempos a tempos, uma cinzenta torre de vigia militar.

Para os palestinianos, o muro tem o efeito psicológico de marcar a presença israelita. Para que eles saibam quem tem o controlo. Para os colonos israelitas o muro é visto como uma possível – e não desejada – fronteira com um possível – e não desejado – estado palestiniano. Por outro lado, é também uma maneira de esconder o outro lado. De uma certa forma, esconder o problema palestiniano. Longe da vista...

As grandes colónias

À chegada ao extremo norte do colonato de Efrat, termina o muro à beira da estrada. Do outro lado não há árabes. Os perigos para os automobilistas já não são os atiradores furtivos. Agora só os próprios condutores, que há muito tempo que matam mais que o terrorismo. Saindo da estrada principal, um pequeno posto de controlo, vigia os carros que entram em Efrat pelo norte. À frente, um acesso para os bairros de caravanas de Dagan Hill e Tamar. Apesar de já contarem com alguns anos, nunca se transformaram em bairros de casas de cimento. A expansão do colonato, que se estende por vários quilómetros do lado ocidental de uma montanha, está suspensa. Só no perímetro do próprio colonato ainda se constrói, embora pouco.


Efrat, a capital do Gush

Na continuação da estrada principal começa a parte mais povoada de Gush Etzion. Primeiro Neve Daniel, situado no alto de uma montanha, a quase 1000 metros de altitude, é um dos pontos mais altos do centro de Israel. Do local, ventoso durante todo o ano, tem-se uma vista espectacular. A ocidente, em dias de céu limpo, avista-se toda a região entre Jerusalém e o Mediterrâneo, de Tel Aviv a Gaza.

Um pouco abaixo, fica a colónia de Beitar Illit, a cidade com maior taxa de natalidade em Israel, habitada por judeus ultra-ortodoxos. É tal a procura de casa por novas famílias e o seu crescimento populacional, que se prevê que a população quase triplique até ao final da década, chegando aos 100.000 habitantes.

Perto de Neve Daniel, fica Elazar, em frente do vale que separa a estrada principal da colónia de Efrat. É um colonato pequeno, com belas casas. À entrada, um pequeno jardim zoológico, que faz as delícias das crianças da região. Depois de uma curva perigosa e de uma recta propícia a altas velocidades fica a entrada principal para Efrat e a colónia agrícola de Migdal Oz. Efrat é casa de quase 10.000 pessoas, a maioria americanos endinheirados. Em algumas das suas ruas, sucedem-se mansões gigantescas, com jardins bem cuidados.

A estrada do Gush continua até ao seu ponto central, o Tzomet haGush (Cruzamento do Gush). O cruzamento é o destino de muitos trampistas, os viajantes à boleia. Daí, é fácil chegar a qualquer ponto da região. Para ocidente, três singulares colónias de Gush Etzion: a aristocrática Alon Shevut; a campestre Kefar Etzion e a alternativa Bat Ayin. Para sul, a estrada continua até à dividida cidade santa de Hebron, um dos principais pontos de discórdia entre Israelitas e Árabes. E a militante Kiryat Arba.

O trajecto cruza, como se tudo fosse tranquilo, várias aldeias árabes. A paisagem vai mudando, de vinhas e olivais entre os belos muros de pedra – como me lembram a Serra de Aire! – a colinas cada vez mais secas, pontilhadas ora de cinzentas aldeias árabes, ora de bucólicas colónias judaicas. Pelas colinas do sul da Judeia, ruma para sul, até ao deserto do Neguev, seguindo para Beer Sheva, a grande cidade do sul. Porém, aí, é um mundo à parte, bem longe da tranquilidade aparente e das disputas políticas que são o quotidiano do Gush.

publicado por Boaz às 22:06
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Viver na lista negra

Maale Mikhmash, o colonato a 10 quilómetros a noroeste de Jerusalém onde passei o último Shabbat, é um lugar aparentemente tranquilo. A pequena comunidade, situa-se num desvio a algumas centenas de metros da Estrada 60, a via que atravessa as montanhas da Samaria e liga Jerusalém a cidades como Nablus ou Jenin e continua até Nazaré (a original). Numa área semi-desértica, Mikhmash é tórrido no Verão e frio e no Inverno. No alto de uma montanha, o vento é presença todo o ano.

Isolada, tem como vizinhos mais próximos a vila árabe de Mukhmas – a semelhança dos nomes não é coincidência. Para sudeste, vêem-se dois núcleos suburbanos de Jerusalém: Pisgat Zeev e Neve Yaakov. A ocidente, na crista das montanhas da Judeia, estende-se a cidade de Ramallah, sede da Autoridade Palestiniana. Ao longe, mais para norte, o colonato de Rimonim, ainda mais isolado. Não muito longe, a oriente, estende-se o vale do Jordão.

Aqui habitam poucas centenas de famílias. As ruas são quase desertas durante qualquer dia da semana e, no Shabbat nenhum carro cruza o local. Com uma excepção apenas: o carro da segurança. Segurança é uma palavra muito discutida e uma preocupação quotidiana na vida de Mikhmash.

Até há poucos anos, Maale Mikhmash era uma alternativa aos altos preços das casas e do bulício de Jerusalém. Havia planos para estender o povoamento. Novos bairros, montados de início apenas com caravanas, deveriam ser organizados com vivendas simpáticas rodeadas de pequenos jardins.

A retirada de Gaza, em Agosto de 2005, e os posteriores planos do governo de Ehud Olmert de entregar mais terras aos Palestinianos, instalaram a incerteza em Mikhmash, assim como na maioria dos outros colonatos. Maale Mikhmash, Rimonim e muitas outras comunidades isoladas foram incluídas na "lista negra" de possíveis áreas a entregar aos Palestinianos.

Como consequência da mudança de política, a maioria das obras foi cancelada. A já longa paragem na construção de uma nova sinagoga e centro comunitário, só com as paredes exteriores, é um sinal da situação de paralisação que se vive na comunidade. Não se permite a construção de novos bairros, apenas a construção de casas particulares. E casas novas, dada a situação de incerteza em relação ao futuro, são poucas as que se vêm em construção. Poucas são as novas famílias que, por agora, apostam no futuro em Mikhmash. Por enquanto, um dos poucos sinais de construção é a renovação de uma pequena sinagoga.

Mesmo noutros colonatos mais desenvolvidos, a paragem das obras também é a regra. Na região de Gush Etzion, a sul de Jerusalém, mesmo sendo uma área considerada dentro da cintura urbana da capital e que se pretende incluir no seu território municipal, os planos também foram alterados. A expansão para norte do grande colonato de Efrat está parada. O projecto de unir Elazar e Alon Shevut, numa extensão de menos de dois quilómetros, no vale que separa as duas localidades, regressou ao fundo da gaveta. Planos para aumentar a selecta colónia de Alon Shevut, onde a maioria dos habitantes são famílias americanas que vivem em belas vivendas com jardins bem cuidados, e onde a procura de casa é grande, também estão em stand-by.

Ninguém sabe bem qual será o futuro. A situação em Gaza não transmite muita confiança nas negociações entre as partes. Entregar mais territórios, ainda mais na cercania de Jerusalém, é arriscar-se a transferir para a capital a desesperada situação de Sderot, bombardeada diariamente há mais de 7 anos pelos mísseis Qassam lançados de Gaza.

publicado por Boaz às 21:55
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Em boa vizinhança

A cada três Sábados, a yeshiva fecha as portas e os alunos têm de encontrar um lugar para passar o Shabbat. Para os israelitas isso não é problema. Simplesmente, passam o Shabbat com as famílias, em casa. Para os estrangeiros (ou os israelitas sem família em Israel, como é o meu caso), a opção é conseguir uma casa alternativa. Com vários dias de antecedência, tentei arranjar um lugar fora da yeshiva para passar o Shabbat com a minha noiva. Depois de vários telefonemas, conseguimos um local disponível a pouca distância da yeshiva. Apenas umas centenas de metros, fora das muralhas da Cidade Velha, no bairro de Shiloah.

Somente a 20 minutos a pé da Cidade Velha, o local é, no entanto, um mundo à parte do Bairro Judeu e da Jerusalém moderna e judaica a que estou habituado. Ali é "o outro lado". Shiloah (Silwan, em árabe) é um bairro de população árabe, situado imediatamente a sul da Cidade Velha. Num vale estreito que desce em direcção ao Mar Morto, amontoam-se casas pelas encostas.


Shiloah na era otomana. Árabes e Judeus Iemenitas viviam aí juntos, 1910

A meio da encosta, um edifício alto ostenta orgulhoso, em toda a altura da frontaria, uma faixa com a bandeira de Israel. Não é o local mais seguro para os judeus atravessarem, muito menos para morarem. Para lá chegar, há que esperar na saída da Cidade Velha por um jipe especial, conduzido por agentes de segurança privada. Assim que chegamos à entrada do prédio, ao chamado por walkie-talkie de um dos agentes do jipe, a porta abre-se do lado de dentro. Várias pessoas chegam connosco para passar o Shabbat naquele estranho lugar.

O prédio, chamado Kfar Hateimanim, é a residência de sete famílias judias. Umas dezenas de metros acima na mesma rua, numa casa isolada, vive outra família de judeus. Todos casais jovens, com crianças pequenas, a maior delas com 3 anos apenas. Por não terem homens suficientes para o minyan (conjunto mínimo de 10 homens adultos, obrigatório para se realizarem orações públicas), necessitam sempre de convidados para completarem o número.

Depois de recebidos pela família que nos acolheu, fomos convidados a apreciar a vista do telhado. No último andar do prédio, funciona a pequena (e gélida) sinagoga e numa colorida sala ao lado, o infantário para as crianças residentes. No telhado plano, alguns baloiços, escorregas e casas de brincar: o parque infantil. A poucos metros das casas dos vizinhos árabes, que rodeiam o edifício por todos os lados. Sem qualquer protecção, sem telhado ou sequer uma rede. À distância de uma fácil pedrada. Para não falar de um tiro. Por enquanto a situação está calma.

Ficámos alguns minutos no telhado a apreciar o lugar, ao sol do final da tarde, antes de começar o Shabbat. No alto da montanha, ao longe, avistam-se as muralhas da Cidade Velha, a Yeshivat HaKotel e a cúpula negra da mesquita de Al-Aqsa. Da parte de fora das muralhas, o bairro de Ir David, a Cidade de David, onde David fundou Jerusalém há mais de 3000 anos. Vista de postal turístico. Ocupado durante as últimas décadas apenas por árabes, nos últimos anos, a população judaica tem alastrado, através da compra de edifícios completos a residentes árabes, povoados depois com judeus dispostos a viver naquela vizinhança.

Medonho é olhar o primeiro plano. Uma paisagem dominada por casas semi-acabadas, cada piso num estilo distinto, prontas para receber mais um andar assim que se casar o próximo filho da família. Ruas íngremes e apertadas onde, em muitos casos não conseguem passar dois carros em simultâneo. Montes de lixo deitados pelas encostas, entre as casas ou ao longo das ruas. Uma favela de cimento. A pouca distância, uma mesquita improvisada numa residência, com graffitis na fachada representando a Cúpula do Rochedo e a Caaba de Meca.

Mais do que pela vista, tremi ao pensar e presenciar a situação em que vivem as famílias naquele prédio, apesar de serem extremamente calorosas connosco. Sempre que encontrava a porta aberta, o bebé da família que me hospedou saía para ir brincar nas escadas interiores do edifício. Naturalmente, ao ver o bebé com pouco mais de um ano a brincar nas escadas, peguei nele e levei-o para a sala. Não fosse ele cair. A mãe logo me disse: “brincar nas escadas é para ele como sair à rua”. O pai, que divide o tempo entre o pequeno apartamento e a sala de estudos religiosos no último piso do prédio já desabafara que, em muitos dias nem saía do próprio prédio. Pudera, ir aonde? Para mudar de ares, dá uma volta no telhado. Sob a mira hostil dos vizinhos. A única forma que os habitantes de Kfar Hateimanim têm para sair à rua é sob a escolta dos agentes de segurança privada que patrulham o complexo em permanência.

Os habitantes judeus do local reclamam que os terrenos da zona são propriedades de judeus, comprados nas últimas décadas do século XIX pelo Barão de Rothchild, para albergarem pobres judeus iemenitas imigrados para a Terra de Israel. A maioria das casas foi ocupada por árabes após confrontos com os residentes judeus nas primeiras décadas do século XX, ou após a expulsão dos judeus do bairro, durante a ocupação jordana de Jerusalém Oriental, depois da independência de Israel.

Pode reconhecer-se a quase inutilidade das suas pretensões, para lá do risco de vida que correm os residentes de Kfar Hateimanim e do risco e trauma das suas crianças, criadas num ambiente cerrado e perigoso. Por enquanto, e devido à sua tenra idade, facilmente confinadas às paredes de casa, da sala do infantário e às escadas do prédio. Quando crescerem, possivelmente os pais mudarão de casa e serão substituídos por outras famílias.

Com os seus enormes gastos em segurança certamente mantidos por doadores privados, Kfar Hateimanim é, ao mesmo tempo um posto de resistência judaica e um espinho cravado na garganta e no orgulho dos árabes de Jerusalém. E não parece ajudar à convivência entre ambas as comunidades.

PS – Notícia recente sobre esta comunidade, no diário Haaretz: Court rules to evict eight Jewish families from E. Jerusalem house.

publicado por Boaz às 12:11
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

Shabbat Shalom

Desde que estou em Israel tenho tentado usufruir o mais possível dos Sábados, os únicos dias da semana em que (aparentemente) posso descansar. No entanto, apesar das inúmeras coisas interditas durante aquele que é o dia sagrado por exscelência do Judaísmo, o Shabbat está longe de ser um mero dia para deixar a rotina normal.

Uma das melhores formas para receber toda a riqueza do Shabbat, é passá-lo, o mais possível - total ou parcialmente - com pessoas diferentes, para assim conhecer as várias tradições associadas ao dia. Em Efrat, cheguei a passar a ceia de Shabbat (na noite de Sexta-feira) em casa de várias famílias. Agora que me mudei para Jerusalém, estou mais por "conta própria".

O meu primeiro Shabbat desde que entrei para a yeshiva, decidi passá-lo fora, com a família do meu rabino, em Mitzpe Yeriho. Mitzpe é um colonato no meio do deserto da Judeia, com uma vista espectacular sobre as montanhas estéreis que o rodeiam, o Mar Morto, o Vale do Jordão e a cidade palestiniana de Jericó, situada a poucos quilómetros de distância.

A terra é pequena, com pouco mais de mil habitantes. Tão pequena e distante dos principais povoados que o autocarro que a liga a Jerusalém demora mais de uma hora a cumprir a viagem, já que para que esta renda, passa antes por vários colonatos mais importantes.

Apesar de pequena Mitzpe tem, pelo menos, oito sinagogas. O meu rabino quis partilhar a riqueza do Judaísmo, levando-nos - a mim e ao amigo uruguaio do ulpan giur e da yeshiva que me acompanhou - a rezar os quatro serviços religiosos em três sinagogas diferentes, entre elas uma sinagoga teimani (de rito iemenita), cujas orações são quase todas cantadas e entoadas num sotaque muito particular.

Pela manhã, caminhámos durante meia hora até uma sinagoga improvisada, situada numa caravana no alto de uma colina desértica, posto avançado com vista expansão planeada para o colonato nos próximos dois anos. Aí, fomos convidados para ler a Torá. Durante a oração da tarde, desta vez numa pequena sinagoga recém-construída no centro de Mitzpe, o convite repetiu-se. Sendo forasteiros e acompanhando um ilustre habitante da terra, sempre nos era oferecida a honra de subir à Torá.

Não pudemos aceitar tamanha honra. Estamos ambos - ainda - em processo de conversão e, por isso, não contamos para o minyan e, logo não podemos ler da Torá. Convites destes não se recusam, mas nós temos de os recusar. Por mais que custe.

publicado por Boaz às 21:03
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

It's the American stupid, stupid!

No último Sábado, após o fim do Shabbat (que acaba ao pôr-do-sol), fui a Jerusalém. (Efrat é uma terra um bocado chata para quem é jovem e solteiro como eu). Fui de boleia, como habitualmente. No regresso, tomei um autocarro das carreiras regulares que ligam Jerusalém aos vários colonatos de Gush Etzion.

Apesar da hora tardia, onze da noite, o autocarro estava cheio. E, incrivelmente, cheio de jovens americanos, de ambos os sexos. A língua que se escutava era o inglês e não o habitual hebreu. Pela disposição notava-se que eram novatos nestas andanças israelitas. De tal modo descontraídos que mais parecia uma viagem de miúdos de liceu à Disneylândia, que uma normal viagem de Jerusalém para Gush Etzion.

Assim que se sai da cidade, o condutor desliga todas as luzes interiores do autocarro, a fim de melhor proteger os passageiros, ao dificultar a visibilidade dos alvos a eventuais atiradores furtivos ao longo da estrada, que passa junto a povoações palestinianas, até ao Gush.

Ignorantes desse facto, e assim que a escuridão se instalou, por todo o autocarro se esticaram dedos para ligar as luzes situadas por cima de cada assento. E de novo se fez luz.

Entretanto, o autocarro saiu da estrada principal e atravessou Beit Jala, detendo-se antes do portão eléctrico que cerra o único acesso à primeira paragem. Ao meu lado, um dos americanos perguntou surpreso: "Onde estamos?". "Har Gilo", respondi-lhe.

Pensei em acrescentar-lhe, maldosamente: «É um minúsculo colonato judeu construído numa colina rodeada de uma cidade hostil, palestiniana. Sim, eles também vivem por aqui...» Achei melhor não o fazer.

Coitado do rapaz. Muito provavelmente, havia chegado há dois dias a Israel (alguns dos jovens ainda tinham nas mochilas autocolantes da EL-AL) e passara o Shabbat, calmamente, com alguma família em Jerusalém, antes de rumar à yeshiva onde irá viver e estudar nos próximos meses, algures num colonato. Nos "Territórios".

Deixei-o viver no sonho dele mais um bocadinho.

publicado por Boaz às 14:58
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2005

A estrada de Gush Etzion

A estrada que liga Jerusalém a Gush Etzion - o bloco de colonatos que inclui Efrat - é uma das coisas que mais me continuam a impressionar aqui.

Ao longo dos quase 20 quilómetros há arame farpado na maior parte do caminho. No vale junto ao bairro de Gilo, no sul de Jerusalém, a estrada é ladeada de muros, construídos há poucos anos, no início da Intifada, a fim de proteger os carros dos atiradores furtivos que tinham um forte reduto na vila palestiniana de Beit Jala, do outro lado do vale.

Os autocarros que fazem o trajecto têm vidro duplo e estes são dotados de "desfocagem óptica", a fim de confundir os eventuais atiradores da posição dos passageiros.

Coisas incríveis para quem vem do cantinho do céu que os portugueses julgam ser a nossa terra.

publicado por Boaz às 17:28
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Domingo, 9 de Outubro de 2005

Primeiras impressões

É impossível definir com clareza - para menos para os de fora - a situação em que me encontro. Primeiro, pelo facto de estar a residir, mesmo que temporariamente, num colonato, poder levar a interpretações precipitadas. É claro que, em Efrat, o espírito na sua génese é o de um sionismo militante e o sonho da Grande Jerusalém.

Facilmente, de novo para quem assiste de fora e seguindo os estereótipos vigentes, podia pensar-se que os habitantes da cidade são gente fanática, armada até aos dentes e sedenta de sangue árabe.

A verdade é que, se fosse possível abstermo-nos, ao menos um pouco, da situação entre Israel e os Palestinianos, este bem podia ser o paraíso. As pessoas são hospitaleiras, como nunca imaginei que os israelitas pudessem ser, habitualmente hostis ao primeiro contacto.

Rapidamente nos convidam para as suas casas, nos servem comida e bebida e conversamos como se nos conhecêssemos há anos. Antes do Shabbat, dezenas de famílias, mesmo não nos conhecendo, convidam-nos para passar a ceia de Shabbat com elas. E depois, querem que voltemos.

publicado por Boaz às 14:45
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