Segunda-feira, 12 de Abril de 2010

E se estivéssemos lá

Foi numa aula de História do 9º ano da escola. Creio que estávamos já no terceiro período lectivo, ou no final do segundo. O final do ano não estava longe. Desde o início do ano que a professora – ainda lembro o nome dela, Fernanda Ruivo –, não se limitava a ensinar, a despejar matéria como tantos professores fazem.

Ela era muito mais emotiva que a maioria dos professores. Na primeira aula do ano, durante a apresentação, quando soube que me chamava Gabriel fez a seguinte observação: "Gabriel é o nome do meu maior inimigo". Engoli em seco. Na altura achei que tinha ficado marcado, mas aquele ano de aulas de História foi um dos meus melhores de sempre.

Depois de passarmos a Revolução Francesa, a colonização de África, a I Guerra Mundial (fiz um monumental trabalho de grupo sobre o assunto), chegou a vez da II Guerra. E o Holocausto. É um assunto pesadíssimo, mas no nosso livro de História não ocupava mais do que uma página. Para ensiná-lo a adolescentes, portugueses, em geral sem qualquer relação com o tema, ou se transmite de uma maneira seca, ou marcante. A professora escolheu a segunda opção.


Jovens sobreviventes de Auschwitz, no dia da libertação, 27 de Janeiro de 1945.

Primeiro, a professora explicou a sociedade alemã antes da guerra e as Leis de Nuremberga, base da política de descriminação racial do regime nazi. Depois falou sobre os campos, as deportações, os guetos. Com 16 anos, eu já tinha visto alguns filmes, séries e documentários sobre a Shoá, mas naquela manhã o tema foi apresentado de uma forma mais especial. A professora adoptou uma estratégia de choque: “Imaginem que vocês viviam na Europa ocupada pelos nazis”. E com esta ideia em mente – na dela e na nossa –, prosseguiu. “Se vocês vivessem naqueles tempos, de todos aqueles que se encontram nesta sala, provavelmente apenas dois sobreviveriam. Apenas a Susana e o Gabriel [eu] têm um aspecto ariano.”

Nunca, nem antes nem depois, presenciei uma aula como aquela. Impressionou-me tanto a exposição do tema pela professora, como o pesado silêncio respeitador dos alunos. Uma turma de jovens de 15 anos, em silêncio absoluto, atentos a ouvir uma professora falar. Alguns minutos depois, a campainha da escola tocou. O toque de saída. Ao contrário de todas as outras aulas a que alguma vez assisti, não houve alvoroço na saída. As cadeiras quase não se arrastaram. Todos arrumaram as suas pastas e mesas em silêncio e saíram calados.

Nos meses e anos seguintes li alguns livros sobre o Holocausto. A pequena biblioteca municipal da Batalha foi a minha fonte de informação. O primeiro e um dos mais marcantes: “Os feiticeiros do Céu”, do jornalista francês Christian Bernadac. Sobre as experiências de alguns padres e freiras católicos e pastores protestantes deportados pelos nazis. Encontrei-o por acaso, na estante de História da biblioteca, por causa de uma estranha e macabra foto na lombada do livro. Hoje em dia, infelizmente, a sua vasta obra sobre vários capítulos menos conhecidos do Holocausto, é difícil de encontrar até em alfarrabistas.

Aos 16 ou 17 anos, as histórias macabras que li fizeram-me questionar muita coisa. A culpa, a inocência, a fé, a salvação. Alarguei o rol de leituras a outros assuntos relacionados. A história judaica mais vasta, Israel... Daí ao interesse crescente pela espiritualidade judaica foi um salto de alguns meses e muitas, muitas perguntas. Pode ter sido aquela aula marcante o início da minha caminhada em direção ao Judaísmo. Não sei. É tão-somente o facto mais remoto que consigo recordar em relação a este assunto.

A cada ano que passa, é mais difícil contar a história do Holocausto. Os sobreviventes são cada vez menos e mais envelhecidos. A velhice fez muitos perder a memória daquilo por que passaram. Muitos, por causa da enormidade do trauma, nunca sequer falaram do assunto, nem com os familiares. As memórias morrerão com eles sem nunca terem sido passadas às gerações mais novas.

No calendário judaico, hoje é o Yom Ha'Shoá, o Dia da Memória do Holocausto. Daqui a alguns anos, não haverá mais pessoas para contar na primeira pessoa o terror da perseguição nazi. E são poucos os professores que, tal como a minha professora do 9º ano, contam a história com a intensidade necessárias para inspirar os seus alunos.

publicado por Boaz às 20:05
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Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Feliz Dia do Holocausto

Hoje, em Israel e no calendário judaico, comemora-se o Yom HaShoá, o Dia do Holocausto. A data coincide com a revolta do Gueto de Varsóvia, em 1943 e acontece – não por acaso – uma semana antes do Dia da Independência de Israel.

O tom das celebrações repete-se todos os anos. No antigo campo de morte de Auschwitz-Birkenau, milhares de jovens participam na "Marcha da Vida". Em Israel, as cerimónias oficiais são centradas no Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém. Alguns sobreviventes, cada vez mais escassos e cada vez mais idosos, acendem seis tochas em memória dos 6 milhões de mortos judeus às mãos dos Nazis e seus colaboradores.


Jovens visitam Auschwitz, durante a 'Marcha da Vida'. | O arrogante macaco iraniano.

Na véspera, lojas e restaurantes fecham ao final da tarde, e mantêm-se encerradas durante a noite. As televisões emitem filmes e documentários sobre a Shoá, entrevistas com sobreviventes, os telejornais descobrem algumas das histórias ainda não contadas 64 anos depois do fim da II Guerra Mundial. Os canais de entretenimento, simplesmente suspendem a sua programação, anunciando a que a emissão voltará "após o final do Dia do Holocausto".

Às 10 horas da manhã, por todo Israel toca uma sirene. O trânsito pára. Nas ruas das cidades e nas auto-estradas e os condutores saem das viaturas e ficam de pé. Nas lojas, repartições públicas, escolas, no meio da rua, as pessoas param também. Dois minutos de silêncio, apenas cortados pelo clamor ondulante da sirene.

Este ano, no Yom HaShoá, estive em Nahariya, uma pequena cidade turística do Norte de Israel. À hora da sirene, acabado de tomar o pequeno-almoço, corri para a entrada do hotel para observar a cidade parada, em sentido. Na sala de jantar do hotel, porém, um grupo de mulheres e crianças árabes riam e falavam alto, continuando a sua farta refeição matinal. O Dia do Holocausto não parece dizer-lhes nada. Para eles, o Holocausto é apenas “a desculpa de Israel para oprimir o povo Palestiniano”, “para fazerem aos Palestinianos aquilo que os Nazis fizeram aos Judeus, ou pior ainda”.

Ontem, na sede das Nações Unidas em Genebra, onde decorre a segunda Conferência Internacional sobre o Racismo, discursou Mahmud Ahmadinejad, o presidente do Irão, famoso por apelar à destruição de Israel e pelas suas declarações em que nega o Holocausto. Já se sabia o que ele iria dizer e ele, sem vergonha alguma, repetiu-o. Na véspera do dia em que se lembra o Holocausto. No melhor dos palanques, houve um timing perfeito, do ditador e da arena política internacional que lhe dá voz.

Nota: Para quem não entendeu a ironia, o adjectivo do título deve ser lido com umas aspas bem carregadas.

publicado por Boaz às 10:30
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Domingo, 29 de Julho de 2007

Força

A yeshivá está de férias. Nos últimos dias de aulas e nas duas primeiras semanas de interrupção, recebemos um grupo de cerca de uma dúzia de rapazes do Bar Ilan, um colégio judeu do Rio de Janeiro. Apesar de provenientes de famílias judias e frequentarem um colégio judeu, a maioria deles não estavam habituados a um ambiente religioso. Antes de virem para a yeshiva, passaram vários dias a passear por todo o Israel.

Foi tarefa dos alunos de língua portuguesa da Yeshivat HaKotel recebê-los e tentar incutir-lhes um pouco mais de Judaísmo prático, para lá do Judaísmo cultural ao qual estão mais ligados.

A mim couberam-me dois rapazes tranquilos, Nahum e Moti (nomes fictícios). O animador do grupo pediu-me para estudar mishnayot com eles. Tarefa aparentemente fácil para alguém habituado ao ambiente religioso e ao estudo das fontes judaicas. No entanto, para eles mesmo o nível básico do estudo estava muito para lá do seu interesse.

Ao fim de três mishnayot, e não tendo o mínimo feedback dos meus companheiros de estudo, decidi fechar o livro e pedir sugestões de temas para estudarmos ou apenas para conversarmos. Moti disparou uma série de perguntas: "O que é o demónio? O demónio existe?"; "Porque é que Deus permitiu o Holocausto?"; "Porque é que todo o mundo odeia os judeus?". Caramba – pensei – estas são perguntas para rabinos, não para mim! Tentei responder às suas questões o melhor que sabia. Afinal, já estudo na yeshiva há mais de um ano, já tenho de ter algum tipo de resposta até para estas perguntas bicudas.

Dois dias depois, fizemos uma vista ao Yad Vashem, o Museu Memorial do Holocausto de Jerusalém. Como não poderíamos entrar como um grupo único, fomos divididos em pares ou trios: um aluno da yeshiva para um ou dois dos rapazes do colégio. De novo calhou-me o Nahum. Esta seria a minha quinta visita ao Museu, e a segunda como guia.

Nós os dois fomos os primeiros a entrar. Tentei dar-lhe uma perspectiva geral do museu e da história que ele encerra. Obviamente que Nahum já vira muitas das imagens e ouvira histórias como as que são mostradas no Yad Vashem, mas ficou impressionado pela presença de objectos autênticos nas várias salas do museu. Candeeiros públicos, bancos de rua e pedras da calçada verdadeiros numa reconstituição de uma rua do gueto de Varsóvia. As cruas fotos de um massacre de judeus numa aldeia do Leste da Ucrânia. Uma grade sobre a qual eram incinerados cadáveres no campo de concentração de Majdanek. Aos poucos, todos os outros companheiros de visita nos foram ultrapassando, e acabámos por ser os últimos a terminar a visita. Já na praça do Museu, encontrámos o resto do grupo reunido a rezar a oração da tarde. Como se sentiriam Nahum e os outros rapazes a rezar depois de visitar um local como aquele? Afinal, a pergunta deveria repetir-se vezes sem conta: "Porque é que Deus permitiu o Holocausto?".

Apesar de já ter visitado o museu por várias vezes, descobri coisas que nunca tinha visto. Um pequeno placard contava a história de cerca de 2000 judeus polacos convertidos ao Cristianismo e que, mesmo assim, foram enclausurados no gueto de Varsóvia e finalmente deportados. E sem qualquer distinção de fé, gaseados em Treblinka como todos os seus companheiros de clausura.

Dias depois, os animadores do grupo resolveram mostrar um vídeo-clip de uma canção israelita, "Chazak amenu" – Forte é o nosso povo. Mostrava imagens de Israel e manifestações pró-Israel ocorridas em vários países durante os anos da Intifada, quando de todo o Mundo choviam críticas a Israel. Demonstrava que, em tempos de infortúnio, o Povo Judeu se une, independente das suas diferenças. Religiosos e seculares, ortodoxos e reformistas, de Israel e da Diáspora. Unidos à força pela ameaça externa. Voltei a recordar a história dos tais judeus que renegaram a fé de Abraão e que mesmo assim não tiveram melhor sorte que os outros no gueto.

Reparei que nestes dias, Nahum, habitualmente pouco interessado, se mostrava mais concentrado durante as horas de reza.

Não sei que impacto terá a visita do grupo a Israel e o que levarão para o Brasil, para lá de algumas dezenas de fotos e recordações de turista para a família. Mas se depois desta experiência, todos eles se casarem com mulheres judias e assim fizerem frente à tendência de assimilação dos judeus fora de Israel, já terá valido o esforço. É que essa é, nas últimas décadas a maior ameaça ao Povo de Israel.

Gostava que de Portugal viesse um grupo de jovens para viver o mesmo tipo de experiência cá em Israel. Só é preciso um patrocinador e vontade da comunidade.

publicado por Boaz às 16:51
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Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007

Quem se lembra dos Arménios?

Vizinho do Bairro Judeu fica o Bairro Arménio, o mais pequeno dos bairros da Cidade Velha da Jerusalém. Daquela que foi outrora uma comunidade influente e numerosa, restam hoje poucos milhares de residentes. Muitas das casas do bairro são hoje habitadas por judeus. Com a afluência contínua de novos habitantes à Cidade Velha, deparando-se com a falta de casas no Bairro Judeu, a alternativa é o Bairro Arménio.


Mosteiro Arménio na Cidade Velha de Jerusalém, 1910

Uma das marcas do Bairro Arménio são os permanentes cartazes colados nas paredes das ruas principais, muito frequentadas por turistas. De tempos a tempos são renovados, pois a mensagem neles contida tem de continuar a ser difundida. A mensagem de recordar o genocídio dos Arménios, perpetrado pelos Turcos em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial.

Aproveitando-se do facto de as atenções do Mundo estarem dirigidas para o conflito que grassava na Europa, o governo turco ordenou a deportação maciça do Povo Arménio que habitava a parte oriental do território turco. Uma a uma, aldeias e cidades inteiras, e os bairros arménios nas cidades turcas foram esvaziados. Primeiro os homens, válidos para a guerra e para evitar que se formassem num exército de guerrilheiros, foram levados para fora das povoações e assassinados. Depois, a restante população: mulheres, crianças e velhos foram ordenados caminhar durante semanas e meses em direcção ao sul, ao deserto da Síria. A fome, a sede, a tortura dos guardas turcos que os escoltavam fizeram centenas de milhares de mortos.

Em poucos meses, mais de um milhão de Arménios foram aniquilados e despojados da sua terra natal por quase 3000 anos. E isto, em nome de um estado turco homogéneo com um povo único, uma língua e uma religião. Depois de terminado o trabalho, as autoridades turcas depressa se ocuparam em ocultar as provas dos seus crimes, tornando-se "o Genocídio Esquecido".

A tragédia dos Arménios foi o primeiro genocídio do século XX. Duas décadas depois, um certo soldado austríaco com pretensões imperialistas inspirou-se exactamente no trabalho que haviam feito os turcos e na falta de memória da Humanidade, para executar a "Solução Final do Problema Judaico". Terá dito «Hoje, quem se lembra dos Arménios?»

Com o empurrão que lhe faltava para levar a cabo os seus intentos genocidas, as deportações em massa de Judeus começaram em toda a Europa ocupada pelos Nazis.

Israel, como herdeiro principal da memória da Shoa - em especial quando do Irão e entre alguma intelectualidade europeia e americana se levantam vozes que pretendem apagar a história e negar que o Holocausto alguma vez teve lugar - tem também a responsabilidade de não deixar cair no esquecimento o Genocídio Arménio.

No entanto, por conveniência política da sua aliança com a Turquia - o maior aliado de Israel no Médio Oriente - pressões para o estado turco reconheça, 90 anos depois (!), as suas responsabilidades para com a tragédia de 1915, não constam da agenda da política externa israelita. Neste aspecto a União Europeia pode dizer-se que pôs a pressão no momento chave. Numa altura em que a Turquia pretende entrar no clube europeu, a UE colocou com uma das condições essenciais para a sua entrada, o reconhecimento do Genocídio Arménio.

Por aqui, os Arménios continuam, entre a sua vida quotidiana a tentar preservar a memória com os cartazes. Não sei quantos turistas reparam, e se reparam, se dispensam alguns minutos para ler o que deles consta. Num esforço hercúleo de quem sabe que a memória colectiva é, para os que estão de fora, algo muito difícil de manter.

Num mundo cheio de distracções, todos nós temos ligado pouco ao que se passa no Sudão. Os Arménios foram chacinados há 90 anos, os Judeus, há 60, os Ruandeses há pouco mais de 10. Em Darfur o genocídio é uma realidade actual, diária. Alguns até podiam argumentar com a falta de informação, pela indiferença em 1915 ou em 1933-45. Mas na década de 90 no Ruanda e hoje, no Darfur, ninguém - ninguém mesmo - pode dizer que não sabe o que se passa.

publicado por Boaz às 11:50
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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Regresso ao Egipto

Recentemente, um grupo de estudantes americanos da Yeshivat HaKotel foi de viagem à Polónia. No passeio de uma semana visitaram locais que representam alguns dos momentos mais gloriosos da história judaica e também dos mais trágicos.

Das estreitas ruas de Kazimierz, o antigo bairro judeu de Cracóvia, onde viveram durante séculos inúmeros rabinos que escreveram obras fundamentais do saber judaico. E a menos de 50 quilómetros de distância, o arame farpado, os pavilhões de madeira e as ruínas das câmaras de gás de Auschwitz.

Poucas semanas depois da viagem dos americanos, foi a vez de um colega brasileiro fazer a mesma "peregrinação". De volta a Jerusalém, descreveu a experiência como uma viagem a não repetir. «Foi impressionante, mas nunca mais volto àquele país», disse. «Foi como andar num ambiente de filme de terror. Tudo era fantasmagórico.»


Wroclaw, Polónia (antiga Breslau alemã), o velho cemitério judeu, 2004

Experiências como estas fazem parte de um já instituído ritual de passagem para os jovens em Israel: a viagem a um passado algumas vezes brilhante, mas acima de tudo de desgraça. Uma destas iniciativas, destinada também a jovens judeus de todo o mundo é chamada muito adequadamente, "Marcha dos Vivos". Inclui uma viagem de uma semana pela Polónia e depois outra semana em Israel. Na mente dos jovens, invariavelmente fica impressa a mensagem de que o lugar dos judeus é, agora e sempre, em Israel.

Muitos pais israelitas são reticentes em relação a estas iniciativas. Porquê regressar às ruínas e reviver um passado macabro? Mais, porque ainda hoje vivem actualmente em Israel cerca de 200 mil sobreviventes da Shoa. Avós de alguns desses jovens.

Para lá da perspectiva pedagógica, do lado religioso também há objecções. Na Torá, quando o Povo de Israel saiu do exílio do Egipto, Deus ordenou-lhes que nunca mais voltassem àquela terra. Pela escravatura sofrida na terra dos Faraós, nunca mais o Povo de Israel poderia viver naquele país. Ora, pelo mesmo princípio, dada a violência sofrida pelos Judeus na Polónia, alguns rabinos defendem que os Judeus nunca mais deveriam viver aí.

No entanto, parece ser exactamente o contrário que está a passar-se. A comunidade judaica está em expansão na Polónia. Isto depois do Holocausto - em que mais de 3 milhões de Judeus polacos foram chacinados - dos vários massacres ocorridos poucos meses após a guerra, que terão feito 2 mil vítimas mais e dos 50 anos de domínio comunista. No pós-guerra o anti-semitismo não deixou de ser propagado e a negação da colaboração dos polacos com os nazis foi política oficial.

Casos como o de Jedwabne - uma aldeia onde todos os seus habitantes judeus, cerca de 1500, foram assassinados num só dia, a 10 de Julho de 1941, pelos próprios vizinhos polacos em ajuda aos ocupantes nazis - foram abafados. A imagem que foi sendo passada foi a de que os polacos foram apenas vítimas, e não perpetradores ou sequer colaboradores.

Desde a derrocada do regime comunista assiste-se a um revigorar da vida judaica na Polónia. Após décadas de vida em segredo - para evitar reavivar velhos ódios - em que pais esconderam dos próprios filhos a sua identidade judaica, mais e mais judeus (especialmente os jovens) se revelam, enfrentando uma sociedade onde, de tempos a tempos, se repetem casos de anti-semitismo.

Casos como o ocorrido com o rabino-chefe Michael Schudrich, atacado a murro e com spray-pimenta numa rua de Varsóvia, a profanação de antigos cemitérios ou os grafitis que se repetem nas fachadas das sinagogas.

O tal colega brasileiro que fez a viagem revelou que, desde a chegada ao aeroporto de Varsóvia e um pouco por toda a viagem, a reacção das pessoas à presença visível de um grupo de judeus, não se mostrou muito amistosa. Com frequência ouviam comentários pouco simpáticos.

É neste ambiente que se encontra uma pessoa muito especial para mim: o rabino Boaz Pash, actual rabino de Cracóvia e que serviu como rabino em Lisboa durante 2 anos. Interrogado porque aceitou a missão de ser rabino num país com um registo tão trágico e em que o presente tampouco é risonho para os judeus, respondeu à boa maneira judaica, com outra pergunta: «Sabem o que é um met mitzvá

Um met mitzvah é um morto que não tem que se ocupe do seu enterro e que não pode obviamente ser deixado sem ser enterrado. Sejam quais forem as circunstâncias, com todas dificuldades e os perigos, os judeus que continuam a viver na Polónia, não podem ser deixados sem assistência.

publicado por Boaz às 11:58
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Segunda-feira, 24 de Abril de 2006

Histórias por contar

Hoje, em Israel, comemora-se o Dia de Memória aos Mártires e Heróis do Holocausto (estranha denominação, a meu ver). Ao som das sirenes, durante dois minutos, cessa o trânsito em todo o país. As pessoas param e relembram as memórias pessoais ou colectivas da tragédia que teve lugar na Europa há 60 anos.

Nos media israelitas, neste dia são contadas novas histórias, dos milhões de histórias individuais da Shoa, dos quais ainda faltarão descobrir e contar muitos milhares. Das notícias sobre o tema no The Jerusalem Post chamou-me a atenção para Many Shoah survivors live in poverty.

Apesar dos milhões pagos em "compensações de guerra" pelos sucessivos governos alemães - a braços com a herança deixada pelos nazis - são muitos os sobreviventes que vivem hoje na miséria. Inclusive em Israel. Com outras prioridades para o país, como a construção de fábricas, estradas, projectos agrícolas ou na defesa, os fundos dos sobreviventes acabaram por ir parar a outras causas que não os seus legítimos destinatários.

Há alguns anos, li um artigo da revista Newsweek que relatava o caso dos sobreviventes que vivem em hospitais psiquiátricos em Israel. Não será coincidência que a maioria dos doentes internados nesses hospitais sejam exactamente sobreviventes dos campos de concentração.

Depois da sua chegada a Israel, poucos anos após o final da guerra, revelaram sinais de "stress pós-traumático", uma patologia ainda sem nome na altura. Incapazes de lidar com estas situações, as autoridades médicas acabaram por decretar o internamento de muitos deles em instituições psiquiátricas.

Só no final da década de 80, mais de 40 anos após a libertação física dos campos, foram descobertos e começou o seu processo de reabilitação e libertação psicológica. Presos nos seus fantasmas de décadas, realmente foi como se só então tivessem saído detrás do arame farpado. São estas as histórias que ainda falta contar.

publicado por Boaz às 15:52
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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005

Choque permanente

Visitei ontem o Yad Vashem. É um dos locais de visita obrigatória em Jerusalém. Há várias semanas que o planeava fazer com um companheiro de casa e de estudo. Pelo facto de já lá ter estado por três vezes (a primeira em 1999, as outras duas em Maio passado) servir-lhe-ia de guia e tradutor. Fomos com mais duas colegas que, incrivelmente, pouco tinham ouvido falar do Museu do Holocausto de Jerusalém.

O choque é sempre brutal, mesmo depois de três visitas anteriores, bem demoradas e de ter assumido à partida, esta visita não tanto como visitante, mas mais como guia para os meus estreantes companheiros.

O final da visita é arrasador, numa sala com o tecto coberto de fotos do tipo passaporte, aparentemente inócuas, de pessoas que foram assassinadas. Imaginar - só imaginar - sem ter a mínima certeza ou noção, do que pode ter passado cada uma delas... Ainda mais as crianças.

À saída, antes da varanda com uma explêndida vista sobre as florestas a oeste de Jerusalém, há, de cada lado do corredor, livros para quem quiser escrever alguma coisa. Tinha prometido a mim mesmo escrever alguma coisa desta vez. Não fui capaz. De novo.

Que se pode escrever? Não há frio ou calor. A fome e a sede são inadmissíveis. Não há dores de costas nem pernas cansadas ao fim de várias horas de visita. Somente um torbilhão de pensamentos para os quais, no momento, não se conseguem encontrar palavras.

publicado por Boaz às 09:35
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Terça-feira, 20 de Setembro de 2005

Pela justiça, não pela vingança

Wiesenthal - o caçador de nazis Faleceu hoje, em Viena, o mais conhecido e incansável "caçador de nazis". Simon Wiesenthal tinha 96 anos e há mais de 40 que se dedicava - durante muito tempo, sem qualquer ajuda - a encontrar e levar a tribunal os criminosos de guerra nazis. Sessenta anos depois, o seu trabalho estava longe de terminado.

Sobrevivente do campo de concentração de Mauthausen (Áustria), perdeu dezenas de familiares durante o Holocausto. Quando, um dia, a sua filha adolescente, nascida já depois da guerra, regressou da escola com o choque de ouvir os colegas de turma negar a história de Anne Frank, explicou-lhe o móbil da sua luta: a procura da justiça, nunca o ódio ou a vingança.

Para além do exemplo da sua vida, deixou uma autobiografia: "Os Assassinos Estão Entre Nós", já adaptada para televisão em meados da década de 90, numa mini-série com um Ben Kingsley notável. E o Museu da Tolerância - o nome diz tudo - em Los Angeles.

publicado por Boaz às 16:40
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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2005

Leituras

Definitivamente, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi não é um bom livro de cabeceira. É um bom livro. Um excelente livro, mas não para ter à cabeceira. Deveria constar da "Lista dos 10 Livros Essenciais das Pessoas Cultas", que há uns anos Pacheco Pereira (um tipo convencido e que tem um blogue famoso - onde eu não costumo ir porque não suporto o sujeito - chamado Abuso ou Aburro, ou coisa do género) desfiou numa palestra na faculdade.

Primo Levi

Não é indicado para antes de dormir, nem como leitura matinal. No primeiro caso, não sossega e logo, não dá bom sono. No segundo, faz passar o resto do dia deprimido. Não o aconselho antes das refeições. Péssimo para se conjugar com o apetite, já que, depois de o ler, a fome passa a ter outra dimensão...

Antes pelo contrário, a obra de Primo Levi é um livro fundamental que se deve ler antes de dormir, ao acordar, antes e depois de comer. Porque, por isso mesmo, incomoda, choca, desassossega. Conceitos e realidades tão básicas para cada um de nós como os amigos, o trabalho, o descanso, a comida, a doença, a distância entre a vida e a morte são mostradas de uma forma inconcebível para qualquer homem livre. Este e outros livros da chamada "literatura concentracionária". Não para leitura sistemática, mas que deveria constar, de tempos a tempos, das escolhas literárias de cada um.

PS - Outras obras do género que recomendo: O Comboio da Morte, Os Médicos Malditos, Os Médicos do Impossível e, muito especialmente Os Feiticeiros do Céu, todas de Christian Bernadac. Desafio quem quer que seja minimamente consciente, depois de ler qualquer destes livros, a contar, com alguma vontade de rir, um certo tipo de piadas...

publicado por Boaz às 16:59
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2005

Lembrar - pelos mortos, os vivos e toda a Humanidade

"Uma crença, mais do que qualquer outra (para citar uma frase de Isaiah Berlin) é responsável pelo massacre de indivíduos nos altares dos grandes ideais históricos. É a crença de que aqueles que não compartilham a minha fé - ou a minha raça ou ideologia - não partilham da minha humanidade.

Na melhor das hipóteses, são cidadãos de segunda classe. Na pior, são privados da santidade da vida. Eles são os condenados, os descrentes, os infiéis, os não redimidos; eles encontram-se fora do círculo da redenção. Se é a fé o que os torna humanos, então aqueles que não têm a minha fé são um pouco menos do que humanos.

Desta equação vieram as Cruzadas, as Inquisições, as jihads, os pogroms, o sangue do sacrifício humano derramado através dos tempos. Dela - da substituição de raça por fé - veio o Holocausto."

Rabbi Jonathan Sacks, Uma Letra da Torá

Pilha de sapatos. Auschwitz
Despojos da barbárie

Hoje, de acordo com o calendário hebraico (26 de Nissan) é o Yom HaShoa (יום השואה), o Dia do Holocausto. Em Israel é dia de luto. Todo o entretenimento público encerra. Às 10 da manhã tocam as sirenes durante dois minutos em todas as cidades. O trânsito pára. As pessoas param.

Na Polónia, centenas de jovens israelitas e polacos realizam a "Marcha dos Vivos", percorrendo a pé os mais de dois quilómetros que separam Auschwitz - o campo de concentração - e Birkenau - o campo da morte, das câmaras de gás.

Em nome dos mortos, dos sobreviventes e para que jamais, em qualquer parte do mundo, o genocídio seja permitido.

publicado por Boaz às 16:47
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Quarta-feira, 16 de Março de 2005

Memórias do Monte da Recordação

Numa cerimónia que contou com a presença de dezenas de governantes estrangeiros, foi inaugurado o novo museu do Holocausto no complexo de Yad Vashem, em Jerusalém. Usando avançados meios audiovisuais, o local pretende mostrar a história do ponto de vista das próprias vítimas, incluindo pela exposição de objectos pessoais, ao contrário do que acontecia até agora, em que dominava a perspectiva do establishment da instituição.

Visitei o Memorial de Yad Vashem há quase seis anos. Na altura, alguns dos espaços pareceram-me demasiado "institucionais", em que cada um dos diferentes memoriais carregava uma enorme carga simbólica, mas pouco pessoal.

A visita guiada em inglês ao museu iniciava-se com uma breve passagem pela Alameda dos Justos entre as Nações, um bosque em que cada árvore recorda um não-judeu (em alguns casos um grupo) que ajudou judeus durante a II Guerra Mundial. Dada a fama do homenageado, a explicação do local era dada em frente à árvore de Oskar Schindler, o mais reconhecido dos "Justos" depois do filme de Spielberg. Mais tarde procurei - e encontrei - a árvore plantada em honra de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português de Bordéus, que é o único português homenageado no local.

Durante a visita à exposição, não prestei a mínima atenção à guia. Face a tanta informação - nos objectos, nos cartazes, nas fotos - e apesar de ter demorado uma hora a percorrer todo o museu, as suas explicações eram demasiado vagas e rápidas para permitir perceber o significado de tudo o que era via.

Em redor do museu e do Centro de Documentação existem diversos monumentos evocativos. Um vagão de comboio, verdadeiro, usado nas deportações. Incrivelmente pequeno, ainda mais pensando que, de cada vez, levou 80 a 100 pessoas para a morte. O Vale das Comunidades, um labirinto de pedra e cimento em que as paredes estão cobertas de nomes de terras cujas comunidades judaicas foram devastadas. Desde centenas de aldeias da Polónia ou da Lituânia, a grandes cidades como Varsóvia, Salónica ou Frankfurt.

Memorial das Crianças

E o Memorial das Crianças, uma caverna com um milhão e meio de minúsculas luzes, uma para cada criança morta no Genocídio. Percorrer o local é claustrofóbico, ziguezagueando numa quase absoluta escuridão. E ouvir os nomes, idades e origem das vítimas. É que, apesar da tendência para se invocar apenas a estatística, nenhuma delas era anónima.

É esse anonimato que o novo Museu quer quebrar, através da recolha e do relato da história de cada um dos 6 milhões.

NOTA: Monte da Recordação, ou Har Ha'Zicaron, o monte de Jerusalém onde fica situado o Memorial de Yad Vashem.

publicado por Boaz às 17:18
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Quarta-feira, 9 de Março de 2005

Alguém achou graça, eu não achei a mínima

Definitivamente, há quem ria com a mais absoluta miséria e com isso faça mesmo programas de televisão. E chamam-lhe programas de humor.

Há coisa de duas semanas, a SIC estreou a versão televisiva de "O Inimigo Público", inspirada no suplemento satírico que acompanha uma vez por semana o jornal "Público". De um modo geral, sou apreciador do tal suplemento, e o programa também me parecia ter alguma graça, apesar de achar o Rui Unas um pouco tosco. No último programa, a pintura ficou irremediavelmente borrada com uma tirada de muito mau gosto. Aliás, nem sequer foi a primeira vez que aparecem "piadas" deste nível n'O Inimigo Público, no caso, na versão escrita.

O lema do jornal e do programa é "se não aconteceu, podia ter acontecido". Num dos sketches - sobre o estado do turismo no Algarve -, o actor-repórter revelava que as praias algarvias assemelhavam-se a Auschwitz, com o chão coberto de corpos queimados e alemães a beber cerveja. O meu comentário é simplesmente mostrar a imagem seguinte, a qual creio ter servido de inspiração ao autor da peça.

Corpos queimados

Trata-se da única foto da cremação dos prisioneiros mortos nas câmaras de gás de Auschwitz II-Birkenau. Quando os crematórios ficaram sobrelotados em 1944 - o auge das deportações -, prisioneiros do Sonderkommando* foram obrigados a queimar os cadáveres em piras nas traseiras das câmaras de gás. A fotografia foi tirada secretamente por um prisioneiro e passada à Resistência.

Para uns será apenas uma piada de mau gosto. Para mim, além de um sinal de mau gosto e de evidente ignorância, é sinal de uma enorme torpeza de espírito. Eu sei que já passaram uns dias sobre o programa, mas como eu não posso vir aqui sempre que quero, fica para agora este reparo. De qualquer modo, não deixei o caso passar em claro.

PS - No canal ao lado e num registo oposto. A 2: exibiu ontem o sexto e último episódio da série documental da BBC "Auschwitz - os Nazis e a Solução Final". À hora das novelas e dos concursos. De realçar a qualidade da investigação, com a reconstituição digital das diversas fases da história do campo. Perturbadora a frieza com que, 60 anos depois, alguns dos antigos guardas SS e colaboradores relatam a sua experiência, procurando justificar o injustificável e sem o mínimo remorso.

Creio que os autores de "O Inimigo Público" deveriam ter assistido a este documentário. Eles e os outros que contam e se riem com as chamadas "piadas do Hitler". Conheço alguns...

* Definições de Sonderkommando aqui e aqui.

publicado por Boaz às 16:02
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Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

Mau uso, mau sinal

Manifestante com estrela laranja 
(AP Photo/Ariel Schalit)

Numa recente manifestação contra o plano de retirada israelita da Faixa de Gaza, um apoiante do movimento dos colonos usa uma Estrela de David laranja na lapela. O símbolo faz lembrar as estrelas amarelas que os Judeus eram obrigados a usar durante o regime Nazi.

É sem dúvida um mau (e deliberado) uso de um símbolo infame, tirando-o do seu contexto e servindo-se do seu significado para daí obter proveitos pessoais e políticos.

Não vou questionar o plano de Ariel Sharon de desmantelar os colonatos da Faixa de Gaza e outros quatro da Cisjordânia. Nem sequer a manifestação. Afinal, e apesar dos seus defeitos, Israel é uma democracia e as pessoas têm direito a manifestar-se livremente. No entanto, nem tudo serve, ou devia servir, para ganhar simpatia para uma causa.

Infelizmente, não é a primeira vez que a simbologia do Holocausto entra na campanha contra a retirada. Noutro protesto pelo mesmo propósito, vários manifestantes iam vestidos com fatos às riscas a lembrar os uniformes dos prisioneiros dos campos de concentração. Ou o célebre cartaz surgido há uns 10 anos, em que o antigo Primeiro Ministro Yitzhak Rabin aparecia vestido com uma farda das SS, numa manifestação contra o processo de paz.

Usar aquele símbolo daquela maneira é banalizar o mal que foi a Shoa (Holocausto, em hebraico "Catástrofe"). E pior, é mais um triste exemplo do uso do Holocausto como marketing.

publicado por Boaz às 16:21
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2005

O "nunca mais" que se repete

Velas em Auschwitz

Todos os anos, em todas as invocações do Holocausto, se diz "nunca mais". "Auschwitz nunca mais. Nazismo nunca mais".

No entanto parece que a humanidade não ligou ao exemplo nem aprendeu com Auschwitz (e os outros cerca de 900 (!) campos de concentração nazis), os guetos, a morte planeada, industrial e sistemática. Ou seja, o genocídio.

O "nunca mais" não foi ouvido no Tibete, em Timor-Leste, no Cambodja, na ex-Jugoslávia, no Ruanda e, neste momento ainda, no Sudão.

O filósofo George Santayana escreveu um dia: "Quem não aprende com a História terá de vivê-la de novo". Creio que esta é a maior e mais urgente herança do Holocausto para a consciência da Humanidade.

Cabe a cada um de nós aprender para não termos de enfrentar uma repetição da História. É que o "eu não sabia" não poderá ser invocado como desculpa.

publicado por Boaz às 17:31
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Porque é preciso não esquecer


O portão principal do campo e a torre de vigia, com os carris por onde chegavam a maioria dos prisioneiros.


'Arbeit Macht Frei' - O trabalho faz a liberdade. O incrível lema escrito no portão do campo.


Algumas das cerca de 600 crianças sobreviventes do campo de Auschwitz II-Birkenau, mostram os números de identificação tatuados no braço. Quase 7000 prisioneiros, incluindo mais de 600 crianças estavam vivos quando o campo foi libertado. (Imagem de um documentário soviético sobre a libertação de Auschwitz em 1945).

Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último vestígio de civilização desaparecera à nossa volta e dentro de nós. A obra de animalização, começada pelos alemães triunfantes, fora levada a cabo pelos alemães derrotados.

É homem quem mata, é homem que faz ou sofre injustiças; não é homem quem, perdida qualquer vergonha, divide a cama com um cadáver. Quem esperou que o seu vizinho acabasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem qualquer culpa própria, mais afastado do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais selvagem e o sádico mais atroz.

Uma parte da nossa existência reside nas almas de quem entra em contacto connosco: eis porque não é humana a existência de quem viveu dias em que o homem foi coisa aos olhos do homem. (...)

Mas a milhares de metros acima de nós, nos rasgos entre as nuvens cinzentas, desenvolviam-se os complicados milagres dos duelos aéreos. Por cima de nós, nus, impotentes, inermes, homens do nosso tempo procuravam a morte recíproca com os instrumentos mais requintados. Um gesto do seu dedo podia provocar a destruição de todo o campo, aniquilar milhares de vidas; enquanto o conjunto de todas as nossas energias e vontades não chegaria para prolongar um minuto a vida de um só de nós.

A confusão cessou à noite, e o quarto encheu-se de novo com o monólogo de Sómogyi. Na escuridão total, dei por mim acordado de repente. «L'pauv vieux» calava-se: acabara. Com o último estremecimento de vida, atirara-se da cama para o chão: ouvi o golpe dos joelhos, das ancas, dos ombros e da cabeça.

- "La mort l'a chassé de son li", sentenciou Arthur. Não podíamos certamente levá-lo para a fora durante a noite. Não nos restava mais do que voltar a dormir."

Este é o relato de Primo Levi (químico e escritor judeu italiano) do último dia em que foi prisioneiro em Auschwitz, registado na sua obra "Se Isto É Um Homem". No dia seguinte, o Exército Vermelho libertou o campo. Há exactamente 60 anos.

O que resta hoje da memória?

Mais: Liberation of Auschwitz-Birkenau by Russian troops January 27, 1945 | Yad Vashem (Museu Memorial do Holocausto, Jerusalém) | Simon Wiesenthal Center / Museum of Tolerance | Survivors of the Shoah Visual History Foundation | US Holocaust Memorial Museum (Com uma grande base de dados de fotos e histórias) | 60 anos da libertação (na BBC) | Why didn't the Allies bomb Auschwitz? (Uma boa pergunta, na BBC) | Holocaust Memorial Day (eventos no Reino Unido) | Fotos actuais dos campos de concentração / Idem (Do fotógrafo Alan Jacobs) | The Holocaust Revisited: A Retrospective Analysis of the Auschwitz-Birkenau Extermination Complex (Fotos aéreas tiradas pelos Aliados a partir de Abril de 1944. Também inclui uma descrição e história do campo) | An Auschwitz Alphabet (Baseado na obra de Primo Levi, por Jonathan Blumen) | What I Learned From Auschwitz (Do mesmo autor - o seu site, The Ethical Spectacle tem vários ensaios sobre o assunto).

publicado por Boaz às 03:03
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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