Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

Mais do que um destino de peregrinos

align=justify>face=verdana size=2>A onda de peregrinos na última quadra natalícia, incluindo as celebrações de alguns cristãos ortodoxos, que ocorrem alguns dias mais tarde que o calendário gregoriano, encheu o país de visitantes estrangeiros. O ano de 2010 foi o melhor de sempre para o turismo israelita. Pela primeira vez, mais de 3 milhões de visitantes estrangeiros entraram em Israel. Não é um número impressionante se comparado com referências no turismo mundial como a França, Espanha ou Itália com mais de 50 milhões de visitantes por ano cada um. Mas “3 milhões” é um marco assinalável. align=justify>face=verdana size=2>O turismo cristão representa mais de 50% de todos os visitantes em Israel. Mesmo nos anos negros da Segunda Intifada (2000-2005), os cristãos continuaram a afluir à Terra Santa. A sonhada enchente da Passagem do Milénio foi uma quimera, mas os cristãos (em especial evangélicos), mais até do que os judeus, continuaram a visitar o país. As numerosas igrejas em Jerusalém e Nazaré, a Via Dolorosa, a igreja da Natividade em Belém, uma imersão no Rio Jordão (agora pouco mais é que uma vala imunda, pouco recomendável) em forma de baptismo e um passeio num “barco de Jesus” no Mar da Galileia, estes são os passeios obrigatórios para o peregrino em viagem pela Terra Santa. Porém, ainda que estes locais sejam o destaque de qualquer campanha de promoção turística para Israel, o país tem muito mais para oferecer do que os locais sagrados das Escrituras.
publicado por Boaz às 20:35
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Sábado, 20 de Novembro de 2010

O regresso dos peregrinos

align=justify>face=verdana size=2>Israel está na moda. Esta afirmação pode parecer estranha, dadas as recorrentes notícias mostradas sobre o país, que lhe dão uma imagem em geral muito pouco atraente. Os terríveis cinco anos da Segunda Intifada fizeram afundar a imagem de Israel depois das boas (ou talvez sonhadoras) perspetivas criadas com os acordos de paz. A Guerra do Líbano em 2006 e a última guerra em Gaza no Inverno de 2008-2009 ainda estão na memória de muitos. E o episódio da flotilha turca em finais de Maio de 2010 incendiou mais uma vez a opinião pública contra Israel. Mas podemos generalizar? align=justify>face=verdana size=2>Quando visitei Jerusalém em Maio de 2005, o turismo local ainda estava praticamente moribundo, depois do golpe da Intifada. No mercado árabe da Cidade Velha muitas lojas estavam encerradas. Na Ben Yehuda, uma rua pedonal de lojas de souvenirs e cafés no coração da Cidade Nova, viam-se poucos turistas. Tão poucos que as lojas ofereciam descontos aos “turistas corajosos”. Visitar Israel naquela época era manifestar nada menos que uma evidente declaração política. Essa foi a razão secreta para a minha viagem. align=center>face=verdana size=1>
Rua do Bairro Latino da Cidade Velha de Jerusalém, próxima do Santo Sepulcro.
Quase deserta. Mas isto era em 2006. align=justify>face=verdana size=2>A cidade de Belém, vizinha de Jerusalém e controlada pela Autoridade Palestiniana, onde me atrevi a entrar por algumas horas, era uma deprimente cidade-fantasma, de ruas poeirentas e hotéis desertos. Na altura, a presença de turistas era tão incomum que eu, junto com um grupo de ocidentais hospedados na velha Petra Hostel, fui entrevistado por um jornalista israelita da revista National Geographic Treveler, para uma reportagem sobre o regresso dos mochileiros às pousadas de Jerusalém. align=justify>face=verdana size=2>Hoje, cinco anos, algumas guerras e muitos gritos anti-Israel depois, a realidade parece o oposto ao marasmo no turismo israelita vivido nos meados da década. Todos os dias, ao atravessar a Cidade Velha de Jerusalém pelo shuq, o mercado árabe, sou testemunha de uma verdadeira torrente de visitantes. Apesar da crise económica internacional e da persistente valorização da moeda israelita, o shekel, em relação ao dólar e o euro. A época alta do Verão e as Grandes Festas judaicas do início do Outono passaram, mas o fluxo de estrangeiros não parece abrandar. align=justify>face=verdana size=2>A julgar pelo crescente número de turistas e as boas recomendações de várias cidades israelitas em meios de comunicação especializados em turismo, não se confirma em nada a má imagem do país na arena mundial. Tel Aviv foi recentemente classificada pelo famosíssimo guia “Lonely Planet” em terceiro lugar no Top 10 dos melhores lugares para visitar em 2011. “A cidade que nunca dorme” foi ainda votada como uma das 10 melhores cidades do Mundo para diversão, a par de lugares com muito “melhor fama”, como Berlim, Las Vegas, Ibiza ou Lisboa. Jerusalém também tem recebido várias recomendações de renome no panorama turístico internacional. align=justify>face=verdana size=2>Os turistas israelitas, após alguns anos afastados da Cidade Santa devido à violência terrorista da Intifada, regressam aos mercados, aos cafés da Ben Yehuda, ao Muro das Lamentações (conhecido localmente como Kotel, “muro” em hebraico) e ao parque arqueológico da Cidade de David. Apesar de não haver escola em Israel que não organize passeios ao Kotel e de, durante o serviço militar muitos soldados realizarem visitas à Cidade Velha, é comum ser inquirido na rua por turistas israelitas sobre como chegar ao Muro. align=justify>face=verdana size=2>A normalização das relações diplomáticas de Israel com alguns países muçulmanos, mesmo que seja abaladas a cada estalar do conflito com os Palestinianos, tem atraído um número cada vez maior de peregrinos islâmicos a Jerusalém. Depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita, Jerusalém é a terceira cidade santa do Islão. Parecem ser indianos, malaios ou paquistaneses – os meus conhecimentos de antropologia não são suficientes para os identificar. E nunca tive coragem para lhes perguntar a origem. align=justify>face=verdana size=2>Grupos de nigerianos cristãos, em especial as mulheres com os seus trajes coloridos e penteados entrançados, enchem as lojas de souvenirs. Admirava-me como um país com tanta pobreza como a Nigéria conseguia fornecer tantos turistas a Israel. Até descobrir que o governo do país patrocina a peregrinação dos fiéis cristãos à Terra Santa, tal como faz com a peregrinação de muçulmanos a Meca. Além dos produtos típicos do Médio Oriente, os nigerianos têm uma misteriosa predilecção por mantas e malas de viagem. align=justify>face=verdana size=2>De Itália, Espanha, Polónia, França e Alemanha, com as suas bem estabelecidas comunidades católicas encontram-se numerosos peregrinos em excursões diocesanas acompanhadas com os respetivos padres. Da Rússia, vêm-se grupos de fiéis, a grande maioria mulheres, com a cabeça coberta com lenços brancos em sinal de recato seguindo o sacerdote ortodoxo, com os seus trajes negros e cabelos atados num longo rabo-de-cavalo. Destes lugares, quase todos os turistas são gente que já atingiu a idade da reforma. O mesmo se passa com os grupos de protestantes americanos. Sinal do desinteresse geral dos jovens por assuntos religiosos, que por essa razão preferem paragens mais exóticas e de veraneio. align=justify>face=verdana size=2>Entre os judeus americanos estabeleceu-se o costume de viajar para Israel por ocasião do bar mitzva dos seus filhos. A cerimónia realizada pelos meninos de 13 anos que marca a sua entrada na idade adulta do cumprimento dos mandamentos costumava ser, e em muitos casos ainda é, uma ocasião efusiva, de exageros quase carnavalescos. Em vez de gastarem uma fortuna numa festa praticamente vazia de significado, as famílias decidem fazer uma viagem à Terra Santa, realizando a cerimónia religiosa no Kotel, o Muro das Lamentações. Nos hotéis vizinhos da Cidade Velha enormes cartazes dão as boas-vindas aos jovens e suas famílias. align=justify>face=verdana size=2>Outro dos grupos numerosos é o dos sul-americanos. Colombianos ou mexicanos (identifico-os pelo sotaque) e sobretudo evangélicos brasileiros enchem as ruas do shuq. A decisão da companhia aérea israelita El Al de abrir uma ligação aérea direta Tel Aviv-São Paulo tem sido um sucesso. Por um lado, o Brasil é um dos destinos de eleição dos mochileiros israelitas para viagem pós-serviço militar. Por outro, para milhões dos fervorosos evangélicos brasileiros, uma viagem à Terra Santa é o sonho de uma vida. align=justify>face=verdana size=2>Aqui, a TAP poderia fazer um bom negócio. A companhia portuguesa já é a companhia aérea estrangeira que mais voa para o Brasil, com ligações entre Lisboa e nove cidades brasileiras (com outras quatro que podem entrar na lista em breve). A El Al voa apenas para São Paulo. Apenas com abertura de uma ligação aérea entre Lisboa e Tel Aviv, Lisboa poderia servir de ponte aérea entre Israel e o Brasil, aproveitando-se do crescente fluxo de evangélicos brasileiros para a Terra Santa e da popularidade do Brasil em Israel. align=justify>face=verdana size=2>E no final das contas, Lisboa até poderia impor-se como um destino por si só e não apenas como um aeroporto de escala. É que, até para os portugueses, Israel também já começa a voltar aos roteiros turísticos. De acordo com as estatísticas, ainda que os números absolutos ainda sejam baixos, em termos percentuais Portugal foi mesmo o país que mais aumentou a remessa de turistas para Israel. E sejam muito bem-vindos.

publicado por Boaz às 20:25
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Hebron, entre o Céu e a guerra

align=justify>face=verdana size=2>No último dia das férias do Verão, antes do recomeço dos estudos na yeshivá, decidi visitar – desta vez sozinho – a cidade de Hebron, situada a apenas 20 quilómetros de casa. Há três anos que não visitava a cidade dos Patriarcas. Apesar da importância histórica e espiritual daquela que é a segunda cidade santa do Judaísmo, confesso que não é dos lugares que mais me atraem. Para lá da santidade, é uma cidade conflituosa, além de terrivelmente suja. Da primeira visita, recordo o som de tiros esporádicos e o persistente fedor a esterco de burro. align=center>face=verdana size=2>
face=verdana size=1>"Sétimo Degrau" | Túmulo de Sara
Túmulo de Yishai e Rute | Checkpoint "Tarpat"
align=justify>face=verdana size=2>Apanhei boleia no cruzamento de Gush Etzion. Destino: Kiryat Arba. Assim que se sai do cruzamento do Gush em direção a sul, a estrada torna-se mais estreita. Ao lado do caminho há vinhas e campos de cultivo, alguns abandonados. Atravessamos várias aldeias árabes. A maioria das casas parecem inacabadas. Grafittis em árabe estão em quase todas as paredes. Entre a miséria das aldeias sobressaem as casas dos ricos locais, com um telhado em forma de pagode chinês. Destoam tanto como as casas de imigrantes com inclinados telhados alpinos que pululam nas aldeias de Portugal. Montes de entulho de obras e das pedreiras e sucatas ferrugentas pontilham a paisagem. O lixo despejado na borda do jardim ou junto às paredes das casas fazem jus à proverbial imundície dos povoados árabes. Em frente a cada cruzamento, uma torre de vigia do exército de Israel. Na beira da estrada, placas vermelhas e brancas avisam os cidadãos israelitas da proibição de entrar no território da Autoridade Palestiniana. Ameaçadoramente declaram “Estão por sua conta e risco”. align=justify>face=verdana size=2>Chegados a Kiryat Arba, o condutor da boleia deixa-me numa praça do colonato. Pergunto como chegar a Hebron. “Siga esta rua até ao cruzamento e espere uma boleia até à Gruta dos Patriarcas.” Pergunto se é possível chegar a pé. “Sim, tem presença do exército e da polícia. Não tem problema.” Ao chegar ao tal cruzamento, olho para Hebron, do outro lado da cerca que rodeia Kiryat Arba. Tirando o posto de controlo na entrada do colonato, não se vêm soldados na rua. Decidi não arriscar a caminhada e esperei pela boleia, que chegou logo a seguir. Quase não se avistam pessoas na rua. O calor do meio-dia não encoraja a sair de casa. align=justify>face=verdana size=2>Na praça em frente à Gruta dos Patriarcas uma multidão de centenas de turistas franceses com bandeiras de Israel chega para visitar o santuário. Num dos cantos do edifício situa-se o lugar conhecido como o Sétimo Degrau. Desde a conquista islâmica no século XIII aquele era o ponto mais próximo onde os peregrinos judeus podiam rezar do túmulo dos Patriarcas. Depois de 1967, quando Israel conquistou a cidade à Jordânia, os Judeus puderam voltar a rezar no interior do santuário. Mesmo com a permissão, ainda hoje, muitos visitantes continuam a rezar no Sétimo Degrau, recordando 800 anos de humilhante proibição. Homens e mulheres, haredim e os tais turistas franceses, rezam juntos no local. Algumas mulheres choram. align=justify>face=verdana size=2>À entrada do santuário há dois pontos de controlo dos visitantes. Não se pode entrar com armas. Nem com bandeiras, mesmo as de Israel que os franceses empunham. Grupos de homens estudam. Ao lado, um minyan reza Minchá, a oração da tarde. Uma vedação de madeira separa-os das mulheres que recitam salmos. No pátio interior coberto por um toldo, outro grupo de homens reza. De cada extremo do pátio, dois pequenos santuários entre os túmulos dos casais dos Patriarcas sepultados no local. Jacob e Leah de um lado. Abraão e Sara do outro. A decoração do local é tipicamente muçulmana, denotando o domínio islâmico quase ininterrupto durante 1400 anos. As pinturas nos tectos têm um aspeto renovado. Sob o túmulo de Leah, os pombos – indiferentes à santidade do local –, deixaram os seus despojos. align=justify>face=verdana size=2>Decido estudar um pouco enquanto espero por um novo minyan para a oração da tarde. Saio pouco depois de terminada a reza. Ao descer as escadas para a rua pondero se devo ou não visitar outros locais de Hebron onde residem os judeus. Paro a alguns metros de um soldado que vigia um cruzamento da rua principal. Acerco-me e pergunto: “Quero ir até Tel Rumeida, é seguro?”. “Sim, não tem problema”, assegura-me. align=justify>face=verdana size=2>A cidade de Hebron é um dos principais pontos de disputa entre Israel e os Palestinianos. Uma parte da Cidade Velha, em redor da Gruta dos Patriarcas e junto a Kiryat Arba, é controlada por Israel. Nessa área, três pequenos núcleos abrigam algumas centenas de habitantes judeus. Os bairros árabes têm um aspeto de cidade fantasma. A violência da Segunda Intifada – que em Hebron teve alguns dos seus piores episódios – levaram a prolongados períodos de recolher obrigatório e encerramento de lojas. Muitos dos habitantes árabes mudaram-se para o outro lado da cidade, controlada pela Autoridade Palestiniana. align=justify>face=verdana size=2>À minha frente, na rua principal, caminha um casal de árabes idosos. O homem usa um longo keffiyeh branco e vermelho. Um pouco adiante, um turista asiático. Ao passar por ele cumprimenta-me com um sorriso: “Hello”. Retribuo a saudação e pergunto-lhe de onde vem. É sul-coreano. No caminho tento conversar um pouco com ele, mas o seu inglês é terrivelmente limitado. Decide parar junto a uma paragem de autocarro que me parece abandonada. align=justify>face=verdana size=2>Continuo sozinho a minha jornada. Olho as varandas sobre a rua principal, todas protegidas por finas redes de ferro. “Ao menos assim, não tenho de me preocupar que me atirem alguma pedra…”, penso. Todavia, um cano de espingarda passa bem entre os buracos da rede. Confio que o Exército deve ter procedido à limpeza das armas da cidade. No caminho, uma cafetaria self-service para uso dos soldados israelitas que patrulham as ruas. Beit Hadassa, o antigo hospital judaico é hoje uma das residências judaicas em Hebron. O local foi palco de um massacre da comunidade judaica às mãos dos vizinhos árabes, em 1929. Um pequeno museu recorda a tragédia. align=justify>face=verdana size=2>Até há alguns anos, em cada porta havia uma loja. Hoje estão todas fechadas e trancadas com uma barra de ferro. A Intifada matou o comércio nesta metade da cidade. Não sei se ainda vivem árabes naquela área. Alguns barulhos de conversas e de televisões informam-me que sim. No fim da rua, um checkpoint serve de passagem de pedestres para a parte palestiniana de Hebron. align=justify>face=verdana size=2>Tel Rumeida, o meu destino, situa-se no alto de uma colina. A estrada é íngreme. Ao lado, o muro que separa a cidade. Quase no alto da encosta, uma abertura no muro permite observar a cidade palestiniana do outro lado. Ao contrário da área onde me encontro, daquele lado vejo shoppings e mais shoppings, com cúpulas vistosas. Prédios residenciais modernos. Aqui e além, mais alguns pagodes chineses. E um ininterrupto barulho de buzinas. align=justify>face=verdana size=2>No alto da ladeira, dois soldados patrulham um cruzamento muito próximo de Tel Rumeida. Ali situa-se, ao lado de uma pequena base militar israelita, o núcleo judaico mais isolado de Hebron. A maior parte das famílias vivem em caravanas, ao lado das ruínas milenares de Tel Hebron. Entro no recinto da base para visitar o túmulo de Yishai e Rute, pai e bisavó do rei David. É uma ruína poeirenta e deserta. Uma vela memorial colocada sobre a laje escurecida testemunha que alguém passou ali recentemente. Entro na pequena sinagoga ao lado. Está vazia, mas a luz e a ventoinha estão ligadas. Sento-me por alguns minutos para descansar do calor e da caminhada. Recito alguns salmos. As eternas palavras do Rei David entoadas na cidade onde ele reinou por sete anos têm outro significado. Dou uma volta pelas ruínas. Um painel informa a existência de uma antiga sinagoga. Entro, curvando-me, por uma porta baixa. No interior, nada lembra tratar-se de uma sinagoga. Exceto alguns livros sagrados numa estante ou amontoados num canto, cobertos de pó. align=justify>face=verdana size=2>São horas de regressar a casa. Desço a encosta em direção ao centro da cidade. Algumas crianças árabes caminham também por ali. Passa por mim um carro israelita, o primeiro que vejo passar desde que saí há mais de uma hora da Gruta dos Patriarcas. Junto a Beit Hadassa várias crianças judias correm pela rua. Para eles aquele é o espaço de brincadeiras, independente da situação que se viva na cidade. align=justify>face=verdana size=2>Avisto o autocarro 160 que vai partir para Jerusalém. Cheguei em boa hora. Na segunda paragem, o turista coreano ainda espera o transporte de regresso a Jerusalém. Olho a cidade passar pelo vidro sujo do autocarro. Sujo como as ruas da Cidade Velha com casas esventradas, cicatrizes da Intifada. Hebron é um dos símbolos das intermináveis (e talvez insolúveis) negociações com os Palestinianos. É difícil para Israel manter a situação atual, pelos custos económicos e humanos. O exemplo da entrega de Gaza não perspetiva bons resultados para futuras transferências de território. Até porque Hebron é um dos mais poderosos redutos do Hamas na Cisjordânia. align=justify>face=verdana size=2>Santa e conflituosa. Cheia de preces. Cansada de mágoas.
publicado por Boaz às 21:10
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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Quando apenas resta a gestão dos estragos

Uma frota de barcos, carregada de ajuda humanitária para a desgraçada e bloqueada Gaza, a ser entregue por algumas centenas de ativistas dos direitos humanos. Esta seria a definição simples da "Frota da Liberdade". Porém, esta definição é também profundamente ingénua e distorcida. Em primeiro lugar, os organizadores da iniciativa pertencem a uma organização turca de direitos humanos, que a par de louváveis iniciativas de caráter humanitário no Terceiro Mundo, é suspeita de canalizar fundos para várias organizações envolvidas na Jihad, entre elas, o Hamas. Além disso, três dos turcos mortos na tomada de um dos barcos pelo exército de Israel haviam declarado querer morrer como mártires pela Palestina. Ou seja, esta era para eles nada menos que uma missão suicida.

Comprometido com um bloqueio naval e terrestre à Faixa de Gaza governada pelo Hamas, há mais de uma semana que Israel negociava com os organizadores da "Frota". O governo de Israel tentou convencer a organização da missão a canalizarem a ajuda para Gaza através da via terrestre, permitindo antecipadamente a verificação da carga para eliminar qualquer suspeita de tráfico de armas ou material que pudesse ser usado pelo Hamas contra Israel. Todas as vias de negociação foram recusadas pelos ativistas. Recusado foi também um pedido da família do soldado israelita Gilad Shalit, sequestrado em Gaza há quatro anos, para lhe ser entregue também um pacote de ajuda.

É óbvio que o resultado é trágico. Nove mortos (as fontes iniciais falavam em 15 ou mesmo 20). E várias dezenas de feridos. Israel reclama que agiu em legítima defesa, quando os soldados foram recebidos à bastonada e com facas pelos auto-intitulados tais defensores dos direitos humanos no navio "Mavi Marmara". Nos outros cinco barcos não houve violência. Os militares estavam equipados com espingardas de paintball e com pistolas a ser usadas apenas em última análise. Não esperavam tamanha resistência por parte dos integrantes da "Frota".

Qualquer que fosse o desfecho, ele nunca seria bom para Israel. E seria sempre muito conveniente para o Hamas. Na semana que antecedeu a tomada dos barcos, durante as discussões entre o governo de Israel e os organizadores da "Frota", o próprio Primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, declarou que o Hamas sairia vencedor deste episódio, fosse qual fosse o desfecho. Não é preciso ser profeta para fazer essa declaração. Se os barcos fossem deixados passar, isso significaria um furo no bloqueio israelita: uma vitória para o Hamas. Se os barcos fossem impedidos de chegar, em qualquer caso, Israel ficaria mal visto: uma vitória para o Hamas.

A "Frota" disfarçada de missão de ajuda humanitária foi uma perfeita e bem montada operação de Relações Públicas para o Hamas. É assim que se pode resumir, numa frase, toda esta história da "Frota da Liberdade". Os ativistas internacionais, embebedados por um ódio anti-Israel deixaram-se levar pelo engodo. Ou, sem qualquer vergonha, aderiram a ele deliberadamente. Israel não tinha como ganhar o confronto. Nesta, como noutras crises, resta fazer uma gestão dos estragos na imagem internacional de Israel. Mais difícil ainda com um temperamental Ministro dos Negócios Estrangeiros com fama de "falcão". Frente às embaixadas israelitas por essa Europa fora, multidões gritam contra Israel e a favor dos Palestinianos com os slogans do costume. Em Lisboa eram uns 50 gatos-pingados.

A causa ganhou mais alguns mártires. Alguns deles mártires por vontade própria. Todos com direito ao harém de 70 virgens prometido pelo profeta. Esta tarde, de regresso a casa, reparei que praticamente todas as lojas do mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém se encontravam fechadas. Um sinal de protesto pela tragédia ao largo de Gaza. De qualquer forma, algumas lojas estavam de porta entreaberta. Não fosse aparecer algum turista interessado na quinquilharia disponível. Imagino que haja festejos à porta fechada. Aos olhos do Mundo, Israel saiu (mais) mal visto. O Hamas cantará vitória.

PS – Atenções mundiais viradas para Israel e, a Turquia – pátria dos barcos e da maioria dos ativistas da "Frota da Liberdade" – teve um timing perfeito para bombardear posições dos seus opositores curdos no Curdistão Iraquiano. Não se esperam manifestações anti-turcas frente às respetivas embaixadas.

publicado por Boaz às 23:00
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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Dia santo na Babilónia

align=justify>face=verdana size=2>Desde que casei, posso contar pelos dedos as vezes que passei o Shabbat fora de casa. E depois do nascimento do bebé, a família apenas se atreveu a sair de casa para passar o Shabbat em duas ocasiões, e ambas em Jerusalém. Porém, há algumas semanas, aventurámo-nos até Tel Aviv. De férias na semana da Pessach, a Páscoa Judaica, tínhamos mais tempo para preparar a viagem de autocarro até à costa. À chegada, Tel Aviv depara-se completamente diferente de Jerusalém. No estilo dos edifícios e, mais ainda, nas pessoas.
publicado por Boaz às 23:30
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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Os bons ares de Jerusalém

A Cimeira de Copenhaga terminou em nada. A tentativa de chegar a um acordo que dê mais esperança a um futuro mais limpo para o planeta e seus habitantes (humanos, animais e vegetais) chocou com os inconciliáveis interesses dos políticos e do capital num mundo em plena crise económica.

Israel obviamente tem algum trabalho a fazer na área ambiental. É verdade que, em termos globais, Israel é um país muito pequeno e com um impacto mínimo no quadro da degradação ambiental do planeta. Não posso dizer que o país seja muito "limpo". À beira das estradas, é comum ver montes de entulho de obras. As ruas das cidades, em especial Jerusalém, são sujas. A reciclagem de embalagens é coisa nova por estas paragens e a poupança de água ainda tem muito por onde evoluir. Ainda assim, Israel tem dado alguns passos para melhorar o seu próprio registo.

Há cerca de 100 anos, o território de Israel era desértico ou semi-desértico na sua totalidade. Os pioneiros judeus sionistas, ansiosos de erguer nas décadas seguintes um país moderno e desenvolvido, começaram essa tarefa com a plantação de árvores. Milhões de árvores foram plantadas por quase todo o país – incluindo mesmo algumas áreas do inclemente deserto do Neguev. Daí que, Israel seja o único país do mundo que hoje tem uma área florestal superior à que tinha há 100 anos. O desbaste florestal – pela moto-serra ou os incêndios – não atingiu Israel como atingiu a Amazónia, a Indonésia, a Escandinávia ou Portugal.

Para isso contribuíram as campanhas de florestação que persistem até hoje. Todos os anos, no dia 15 do mês hebraico de Shevat – por volta de Janeiro ou Fevereiro – o país festeja o Ano Novo das Árvores. Milhares de crianças de todas as escolas plantam uma árvore. Um dos românticos ideais de vida da sociedade ocidental a par de "ter um filho e escrever um livro". À custa disso, o país conseguiu mudar drasticamente a sua paisagem. O norte e o centro de Israel são hoje verdejantes e Jerusalém, outrora no meio do deserto, é rodeada de florestas.

Na década de 1970, o impulso para aumentar as exportações e o orgulho nacional na produção frutícola, levaram a um abuso dos pesticidas e fertilizantes químicos. O resultado foi óbvio: contaminação das fontes de água. Hoje, a produção de frutas, verduras e flores continuam prósperas, mas o país aderiu em força à agricultura orgânica.

A água foi e continua a ser o caso bicudo da ecologia nacional: é escassa e de má qualidade. Dos rios israelitas, apenas o Jordão corre o ano inteiro. Todos os outros são temporários, fluindo apenas alguns meses durante o Inverno e a Primavera. E isto somente se houver chuvas suficientes. Em redor de Tel Aviv e Haifa, as principais cidades industriais, a poluição transformou ribeiros em valas contaminadas, poluindo as praias. A recente despoluição do Rio Yarkon em Tel Aviv originou uma nova área de lazer nas margens do rio, com novos parques.

A crónica falta de água levou à adopção de métodos inovadores na gestão da água. O primeiro e mais famoso foi a invenção da "rega gota-a-gota". Outro, a reutilização de água: Israel é o país com maior percentagem de água de esgoto purificada e reciclada, para ser usada na agricultura: 70%. O segundo país da lista, a Espanha, está a uns longínquos 12%. É também um dos líderes nas tecnologias de dessalinização de água do mar.

Uma das grandes potencialidades ecológicas de Israel é o uso da energia solar. O país é pioneiro e líder mundial na tecnologia de aquecimento de água com recurso a painéis solares. Nos telhados israelitas é comum avistar painéis fotovoltaicos com o respectivo tanque de água. Sem petróleo nem barragens hidroelétricas, a energia grátis do sol foi a solução para aquecer a água do banho. A decisão do governo de construir uma nova central eléctrica abastecida a carvão originou protestos de uma sociedade cada vez mais informada e que reclama um ambiente mais saudável.

Os próximos desafios são o uso da energia solar e eólica para produção elétrica em larga escala. No caso das energia solar, o problema principal é a falta de espaço para instalar os parques solares. A principal "área vazia" do país é o Neguev, a região mais ensolarada de Israel. Porém, a maior parte do território é composto por parques naturais e áreas de bases militares de acesso restrito.

O problema com a energia eólica – para lá de o país não ser especialmente ventoso – é o facto de Israel ser um dos principais pontos de passagem de aves migratórias entre a Europa e África. É sabido que pássaros e torres eólicas não são uma combinação de sucesso.

No seu memorável discurso perante a Assembleia-Geral da ONU, há alguns meses, o PM de Israel Binyamin Netanyahu insistiu a vontade de "limpar o planeta". Israel, com todos os seus avanços tecnológicos e desejos de se livrar da dependência do petróleo, tem grandes potencialidades e tem servido como tubo de ensaio para projectos ambientais inovadores. Para lá dos sonhos traçados (e furados) da arena internacional.

publicado por Boaz às 00:10
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O Grande Canal

align=justify>face=verdana size=2>Diz-se em Portugal: “Não há fome que não dê em fartura”. Em Israel, a braços com uma grave situação de seca há vários anos, teve nos últimos dias fortes chuvas. Algumas cidades ficaram alagadas na região central, próxima de Tel Aviv. Apesar de abundantes – ou melhor, demasiadas para tão curto espaço de tempo – estas chuvadas pouco ajudam na situação de carência de água no país. align=justify>face=verdana size=2>O país tem poucas fontes de água doce. A maior é o Lago Kineret, ou Mar da Galileia, abastecido pelo rio Jordão, que nasce no Líbano. As outras são os dois aquíferos principais: o Ocidental, na planície costeira, e o das montanhas, na região de Jerusalém. Porém, todas estas fontes dependem da chuva, e essa tem sido escassa na última década.
publicado por Boaz às 15:35
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Domingo, 2 de Agosto de 2009

Crónicas da crise III: E constrói Jerusalém

align=justify>face=verdana size=2>Três vezes ao dia, durante os serviços religiosos, os judeus rezam pela reconstrução de Jerusalém. É o desejo de retomar a antiga glória perdida da cidade, antes da destruição pelos Romanos. Vemos que, mesmo em tempo de crise, as bênçãos têm funcionado. Pelo menos aparentemente. Em Jerusalém, as obras de grande envergadura não param. A maior delas é a mal-fadada rakevet kalá, o "metro ligeiro de superfície". Há mais de três anos, vem esburacando a cidade de ponta a ponta, deixando o centro em estado caótico e, por toda a capital o trânsito à beira do impossível. align=justify>face=verdana size=2>A polémica, megalómana, mas linda ponte de Santiago Calatrava para a passagem do tal "metro ligeiro" foi inaugurada há um ano. Ainda que se mantenham as dúvidas em relação ao final das obras e início do funcionamento da rakevet. Apesar de pronta, hoje serve apenas como novo local de fotos de turista e de passagem de peões e ciclistas num dos cruzamentos principais da Cidade Santa. O orçamento da obra já foi várias vezes multiplicado em relação ao valor inicialmente estimado. As derrapagens nas obras públicas não são só em Portugal...
publicado por Boaz às 20:09
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Crónicas da crise II: Entre pobres e ricos

Israel não é exceção à regra mundial da recessão económica. Também aqui se fazem sentir os abalos da crise mundial, resultado de uma economia moderna e com fortes ligações ao estrangeiro. Uma das áreas mais afetadas é o negócio dos diamantes, do qual Tel Aviv é um dos principais centros mundiais de lapidação e de comércio.

As principais empresas israelitas têm participação de empresas estrangeiras, em especial americanas. Ao mesmo tempo, boa parte dos negócios das companhias locais é feito em outros países. De acordo com as estatísticas, Israel será, após os EUA e o Canadá, o país com mais empresas cotadas no NASDAQ, o índice das empresas tecnológicas da Bolsa de Nova Iorque. Basta este dado para perceber a exposição do país à influência da situação económica internacional.

O recente escândalo financeiro realizado por Bernard Madoff afectou com especial severidade inúmeras fundações filantrópicas judaicas americanas, as quais por sua vez patrocinavam outras instituições em Israel. Yeshivot, organizações de caridade e de desenvolvimento de projectos no país foram especialmente afectados pela bancarrota de Madoff.

Milhares de famílias em Israel, em especial as famílias numerosas dos judeus ultra-ortodoxos, são mantidas em grande parte com ajudas de organizações de caridade. Muitos dos habituais doadores para causas israelitas, falidos pelo esquema de Madoff ou simplesmente afetados pelo panorama sombrio nas finanças mundiais, reduziram as suas contribuições.

Depois da crise nos têxteis – também por cá a mão-de-obra mais barata do Oriente cortou postos de trabalho –, e nas empresas de produção agrícola, até o outrora robusto sector das novas-tecnologias – principal base da economia de Israel – foi afectado pelo recuo económico internacional. Milhares de trabalhadores dispensados, redução das horas de trabalho e do respetivo salário e congelamento das contratações foram a regra durante os últimos meses.

As universidades e centros de investigação da área tecnológica deixaram de parecer tão atrativos para os jovens que escolhem uma futura carreira profissional. Ao contrário do que vinha acontecendo nos últimos anos. Ainda assim, a área das novas tecnologias, como a bioquímica e as novas energias são apostas de muitos jovens. A crise (como a bonança) não é eterna.

Há anos que a moeda israelita, o novo shekel, se tem valorizado progressivamente em relação ao dólar e ao euro. Até ao ano passado, as rendas das casas eram cobradas em dólares, mas face à acentuada desvalorização da moeda dos EUA, passaram a ser cobradas diretamente em shekels. A moeda forte – ainda mais depois de o shekel ter passado a integrar o grupo de divisas que podem ser cambiadas em todo o mundo – é boa para as centenas de milhar de israelitas que passam férias no estrangeiro. Porém, é má para as exportações israelitas.

Morar em Israel esteja cada vez mais caro. Tel Aviv é mesmo a cidade mais cara do Médio Oriente. Mais ainda do que as metrópoles dos petrodólares e da megalómana arquitectura futurista de Abu Dhabi e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. E a nível mundial é a 17ª cidade mais cara, ao nível de Roma e Nova Iorque.

Em Jerusalém, com crise ou sem ela, a verdade é que os mercados de rua, os supermercados, os cafés e restaurantes e os centros comerciais estão sempre bem apinhados. Os turistas enchem a Cidade Velha. O principal clube de futebol da capital, o Beitar, recebeu uma lufada de ar fresco de um milionário brasileiro. A Macabíada, uma espécie de Jogos Olímpicos Judaicos realizados em Israel a cada 4 anos, realizou-se com pompa e milhares de atletas, apesar dos apertos nas finanças e do receio da gripe A. Ou seja, a crise bate às portas, mas não as deita abaixo. Pelo menos a todas.

publicado por Boaz às 21:58
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Domingo, 26 de Julho de 2009

Raízes portuguesas no hino de Israel

O ministério da Educação de Israel, preocupado em incutir uma maior identificação com os símbolos nacionais nos estudantes do país, renovou o currículo sobre a história e o significado do Hatikvá, o hino nacional de Israel.

Para ser distribuído nas escolas seculares e religiosas do estado - mas não nas escolas ultra-ortodoxas e árabes, pouco recetivas àquilo que consideram "propaganda sionista" - a nova informação sobre o hino israelita deverá ser incorporada nas matérias das diferentes disciplinas. Novas pesquisas foram feitas sobre a origem da letra e da melodia do hino nacional israelita.

Até agora, era aceite que a melodia teria origem numa balada do folclore da Roménia. No entanto, foi descoberta uma fonte mais antiga, num texto de 1330 escrito com as anotações musicais da época, numa antiga sinagoga portuguesa.

Da próxima vez que cantar o hino de Israel vou tomar mais atenção à melodia. Talvez até consiga detectar nele algum tom de fado.

publicado por Boaz às 22:10
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Um país, um projecto divino

Na Torá, no final do Livro de Vaicrá (Levítico), uma série de terríveis e ameaçadoras maldições são lançadas por Deus sobre o Povo e a Terra de Israel, caso não cumpram os preceitos da Torá: "E reduzirei as vossas cidades à solidão, assolarei os vossos santuários (...) E Eu assolarei a terra, e se espantarão disso os vossos inimigos." (Vaicrá 26:31-32)

Estes e outros sinais foram cumpridos durante o longo exílio do Povo de Israel, que já dura há quase 2000 anos. O nosso Povo foi exilado, deixando desoladas as outrora vivas cidades da Israel bíblica. O Templo destruído. A Nação Judaica humilhada e dispersa entre os seus inimigos. A Terra Santa profanada por sucessões de povos invasores. Porém, apesar das constantes tentativas de se estabelecerem, em vinte séculos nenhum povo estrangeiro conseguiu lograr instalar-se na Terra de Israel. Tal como haviam declarado os profetas.

O escritor americano Mark Twain, que visitou a Terra de Israel no final do século XIX descreveu-a como uma terra deserta e miserável, onde apenas havia espinhos e pedras. Porém, poucas décadas depois do seu relato de desolação, as primeiras vagas de pioneiros judeus conseguiram fundar vilas e cidades (como Tel Aviv, que celebra este ano um século de existência). O deserto floriu, e também a Torá floriu.

Fontes proféticas revelam de forma clara que binian haaretz, a reconstrução da Terra de Israel e kibbutz galuyot, a reunião dos exilados, são dois dos sinais claros do início da Gueulá, a Redenção do Povo Judeu. Não é coincidência – não existem coincidências no Judaísmo, que tenhamos isso bem claro – que, na oração de Shemone Esre ou Amidá que rezamos três vezes por dia, a bênção da reunião dos exilados se segue à bênção dos anos, na qual pedimos prosperidade para a terra. Os dois sinais estão juntos.

Até as numerosas e difíceis guerras que Israel tem travado não são ocasionais. Também elas fazem parte do processo para atingir o projecto divino da Redenção. Os Sábios dizem que "a Guerra é o começo da Redenção". As guerras, com os seus sofrimentos e também conquistas, clarificam a situação do Povo e da Terra de Israel. Ao louvar a Deus dizemos que Ele é baal milchamot, Senhor da Guerra, zorea tzedakot, Semeador da Justiça, matzmiach yeshuot, o que faz florescer a Salvação. A ordem não é aleatória.

O significado do Yom Ha'Atzmaut, o Dia da Independência de Israel, é sem dúvida nenhuma, divino. O crescimento da Torá na Terra de Israel apenas se deu em força após o estabelecimento do moderno Estado de Israel. Surgiram numerosas yeshivot, midrashot, organizações de tzedaká e, se não fosse preciso mais nenhum motivo: plena liberdade religiosa e acesso aos locais sagrados para os Judeus. Sem o perigo de serem mortos, desprezados ou classificados de cidadãos de segunda classe – pela primeira vez em 2000 anos!

Apesar das diferenças de perspectiva dentro da comunidade judaica em relação ao Estado de Israel, em que os menos entusiastas (e opositores) às conquistas do ideal sionista apelidam o Yom Ha'Atzmaut de Yom Ha'Atzamot, o Dia dos Ossos – até parece haver neste irónico trocadilho um fundo de verdade. Tal como na visão do profeta Ezequiel (37:1-14), os ossos secos ganharão de novo tendões, carne e pele. "Esses ossos são toda a Casa de Israel! (...) Porei em vós o Meu espírito e vivereis, e vos porei na vossa própria terra; e sabereis que Eu, o Eterno, assim determinei e farei cumprir."

Yom Ha’Atzmaut sameach!

Nota: A celebração da Independência de Israel segue o calendário judaico que é lunar. De acordo com o calendário solar gregoriano a data é a 14 de Maio.

publicado por Boaz às 12:00
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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Não há fábricas em Gaza

Quando Israel retirou os colonatos judeus da Faixa de Gaza, em Agosto e Setembro de 2005, foram demolidas as residências particulares, mas não os edifícios públicos. As antigas sinagogas e yeshivot, vazias de objectos sagrados, foram vandalizadas pelos moradores de Gaza, assim que o último soldado deixou a região.

Nos últimos anos da existência dos colonatos de Gush Katif, o principal bloco judaico em Gaza, as estufas eram a principal actividade económica. Milhares de toneladas de verduras orgânicas e flores eram exportados anualmente para a Europa. (Ainda hoje, em Israel, "Gush Katif" é sinónimo de legumes orgânicos e livres de bichos.) As estufas, ao contrário das casas dos antigos residentes foram deixadas intactas. O objectivo era transformá-las num pólo de desenvolvimento económico de Gaza. Porém, desde 2005, as estufas que tinham sido umas das mais avançadas do mundo, não produziram nada. Poucos dias após a evacuação, a maioria das estufas tinham sido saqueadas pela própria população.

Nos extensos terrenos vazios da área dos antigos colonatos pretendia-se construir prédios residenciais, para suprir a falta de habitação de qualidade em Gaza, uma das regiões mais densamente povoadas do Planeta. Apesar dos milhões de euros, dólares, e petro-dólares injectados anualmente nas finanças da Autoridade Palestiniana (estatisticamente, os Palestinianos são mesmo o povo que recebeu mais ajuda internacional per capita, de todos os tempos) a situação económica em Gaza não progrediu. Antes pelo contrário.

Nas eleições legislativas de Janeiro de 2006, ganhas pelo Hamas, a situação piorou. A maioria dos financiadores internacionais da Autoridade Palestiniana suspendeu os pagamentos. Quando o Hamas tomou de assalto a Faixa de Gaza em Julho de 2007 e dominou o território após sangrentos confrontos com apoiantes da Fatah, o território perdeu a maior parte das fontes de ajuda internacional, incluindo as fontes árabes.

Os Palestinianos desperdiçaram a oportunidade criada com a retirada de Gaza de 2005. Alguns idealizaram mesmo criar na Faixa de Gaza numa espécie de Hong Kong do Médio Oriente. Passe o delírio romântico de tal empreitada, a verdade é que Gaza perdeu todas as oportunidades que se lhe apresentaram. Por exemplo, as praias da região, em especial a de Dugit, eram famosas por terem "as melhores ondas de surf de Israel". Com esse potencial, poderiam ter construído resorts que estariam cheios de turistas israelitas e internacionais. Nada foi aproveitado. É evidente que Israel não ajudou da melhor forma para a prosperidade de Gaza, mas com a transformação da região num imenso campo de treino terrorista sob as ordens do Hamas, o país não poderia manter nem sequer o mínimo de cooperação com as autoridades locais.

Israel acabou por impor um bloqueio económico parcial. Todavia, mesmo nas alturas mais "apertadas" Israel continuou a fornecer cerca de 70% da energia de Gaza. O Egipto, esse estado amigo de todas as causas do nacionalismo árabe, fornece 20%. O que resta é produzido por uma central de energia na Faixa. Doentes de Gaza continuaram a ser tratados em hospitais israelitas, mesmo quando as bombas caíram a poucos metros do hospital Barzilai de Ashkelon.

Após a tomada do poder pelo Hamas, o Egipto estancou a fronteira internacional de Rafah, que o separa de Gaza. (Aliás, alguém ouviu falar do "bloqueio egípcio"?) Durante os confrontos entre o Hamas e a Fatah, os blocos de cimento de uma secção da barreira fronteiriça foram derrubados. Os canhões de água e os tiros da polícia de choque egípcia não impediram a passagem de mais de 500 mil palestinianos para o Sinai. Em poucos dias, a população de Gaza recheou a dispensa, parca com o bloqueio económico, enquanto o Hamas aproveitou para se abastecer de armas, incluindo os mísseis Grad, de fabrico iraniano, que agora disparam sobre as cidades do sul de Israel.

Depois do encerramento da fronteira, a alternativa para o Hamas para o abastecimento de armamento e para os civis para obterem bens básicos, foi o recurso aos túneis de contrabando. Supõe-se que existam mais de 200 entre os dois lados da fronteira de Rafah, por onde passa de tudo. Comida, medicamentos, combustível, animais e talvez até um soldado sequestrado (existe a hipótese de o soldado israelita raptado Gilad Shalit ter sido retirado de Gaza através de um dos túneis). Tudo é traficado. O Hamas controla todas as mercadorias que são contrabandeadas através dos túneis, cobrando uma taxa "alfandegária" usada para financiar as suas operações.

Desde 2005 a única indústria que floresceu em Gaza foi o fabrico de mísseis Qassam, para serem disparados sobre Israel. Daí que faltem todos os produtos transformados, mesmo os mais básicos, como o pão e o sabão.

É óbvio que Israel não tem favorecido a prosperidade em Gaza. A opção dos habitantes de Gaza em apoiarem o Hamas também não. Que país não bloquearia o seu inimigo declarado, impedindo-o de receber ajuda do exterior? O desenvolvimento visível na cidade árabe de Belém, nos arredores de Jerusalém, é um sinal claro de que a calma com Israel é da maior conveniência para os Palestinianos.

Não haverá desenvolvimento nem paz quando todos os recursos dos palestinianos forem dirigidos para o conflito com Israel. Tal como um dia declarou a Primeira-Ministra Golda Meir: "Haverá paz quando os Árabes começarem a amar os seus filhos mais do que eles nos odeiam".

publicado por Boaz às 22:36
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Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Um dia normal... e a guerra ao longe

A vida segue normal, dentro do possível em Israel. Nas orações da manhã, em todas as sinagogas de Israel, salmos especiais são ditos pelos soldados que combatem no sul. Na viagem à boleia, a caminho da yeshiva, em Jerusalém, escuto com atenção as notícias na rádio. Na volta, ao início da noite, a mesma coisa. Fora do bulício de Jerusalém, de vez em quando, é possível escutar os helicópteros de vigilância. Mais soldados são levados para a região de Gaza.

Em Jerusalém, a guerra é "lá longe". Não que Israel seja um país grande – é menor que o Alentejo. Gaza fica a menos de duas horas da capital, mas é suficientemente longe para a tranquilidade ser aqui, praticamente absoluta.

De manhã, passo por jovens árabes de Jerusalém nas suas aulas de condução, na estrada de Hebron. O comum israelita espera pelo autocarro na paragem, como todos os dias. Os autocarros andam cheios. Notam-se mais polícias e soldados nas ruas. Não é nada que não tenha visto anteriormente. Na yeshiva, um aluno armado guarda a entrada - como vem sendo a norma desde há alguns meses (desde o atentado terrorista na yeshiva de Mercaz Harav).

À chegada, soube que o rabino brasileiro director do programa dos alunos sul-americanos foi chamado esta semana para miluim, o serviço de preparação periódica do Exército ao qual estão obrigados os ex-soldados, até aos 40 e poucos anos. Deixou em casa a mulher e o filho de dois anos. Está no gelado Monte Hermon, nos Golã, junto à fronteira síria. Esperemos que a Síria e o Hezbollah no Líbano, ali ao lado, não reservem surpresas nesta altura.

A meio da manhã, uma aula especial do Rosh Yeshivá, o director da yeshivá. Falou da importância do estudo de Torá nesta altura difícil para Israel. Os ânimos são altos. Milhares de famílias têm os filhos em Gaza. No entanto, há confiança entre os israelitas, apesar da situação difícil em Sderot, Beersheva, Ashdod e Ashkelon. E há união, num país normalmente tão dividido. Os jornais, tanto da esquerda como da direita, mostram-se ao lado da operação do Exército e da decisão do governo.

Permitam-me não pensar em Gaza, excepto nos soldados israelitas que lá estão a lutar contra o terror do Hamas. Há várias centenas de milhões de árabes e milhares de europeus eriçados a preocupar-se e a manifestarem-se pelos habitantes de Gaza. Deixem-me pensar nos israelitas que vivem nas cidades próximas da Faixa.

PS – A vida segue normal, dentro da anormalidade das notícias. A aproximação da chegada do bebé é a única coisa extraordinária no nosso quotidiano familiar. Hoje comprámos os lençóis do berço, as primeiras fraldas e o champô com que tomará os primeiros banhos.

publicado por Boaz às 00:30
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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Normalidade

Eleições nos Estados Unidos. Tragédia (ou apenas continuação dela) no Congo. Descalabro das bolsas um pouco por todo o Mundo. Estes são os assuntos de hoje. De há várias semanas e, no caso das eleições americanas, a novela das 8 dos últimos meses. De Israel, já mal se fala. Talvez ainda se oiça, de quando em vez sobre a Ministra dos Negócios Estrangeiros Tzipi Livni, entretanto chegada a Primeira-ministra. Mas mais em nota de rodapé que em peça de noticiário.

É um dos sinais da normalidade que se vive por aqui. É certo que em muitos aspectos, a situação em Israel não mudou. A questão com os palestinianos continua na mesma: Gaza é o covil da matilha do Hamas e as cidades palestinianas da Cisjordânia são o arquipélago da desgraça que é o governo da Fatah. O soldado israelita Gilad Shalit continua sequestrado em Gaza (desde 25 de Junho de 2006) e não há perspectivas concretas para o seu resgate com vida. Como escreveu o Rei Salomão: "Não há nada de novo debaixo do Sol."

Porém, em muitos outros aspectos, a situação aproxima-se da de um país normal. Na rádio, para lá das histórias das novelas políticas, normais em todos os Estados, ainda mais com a aproximação das eleições municipais, fala-se sobretudo dos acidentes de trânsito. As histórias de arrepiar os cabelos dos atentados terroristas tão frequentes até há 3 anos, foram substituídas por contos sobre os mortos na estrada. Todos os dias, 2, 3, 5 pessoas morrem nas estradas de Israel e os media transmitem os berros dos familiares enlutados. De fazer chorar as pedras da calçada. Anúncios "choque" na rádio (eu não vejo TV, por isso não sei o que lá se mostra, mas imagino que a moda seja a mesma) alertam para os perigos da estrada.

Desvio de foco

Tão normal é o quotidiano local, que até as grandes cadeias de comunicação internacionais – até há pouco observavam com olhos de falcão o que aqui se passa – se aperceberam da actual "pobreza noticiosa" israelita. Isso não significa que por cá não aconteçam coisas importantes. Se por um lado, muito daquilo que era mostrado pelos media, em vez de se ter resolvido simplesmente passou a ser ignorado, de tão "gasta" que estava a história. Por outro lado, há fatalidades mais interessantes para encher jornais e noticiários.

Uma das consequências foi a redução acentuada do staff das representações de jornalistas estrangeiros. BBC, CNN, NBC e a maioria dos grandes canais de televisão mandaram uma boa parte dos seus antigos correspondentes para outras paragens mais interessantes: Iraque, África, Rússia, China.

Pela primeira vez em muitos anos, Israel não está no centro das atenções. Isso parece ser bom.

publicado por Boaz às 22:00
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Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

A pequena seta verde

Nos últimos meses em Israel, um dos assuntos principais de conversa tem sido a seca que o país atravessa. Vários Invernos sucessivos com chuvas insuficientes fizeram decrescer para um nível quase catastrófico os aquíferos e o Kinneret, ou Mar da Galileia, o principal reservatório natural de água doce do país.

Na tradição judaica, é costume começar a rezar pedindo chuvas após a semana de Succot, a Festa das Cabanas. Este ano, elas anteciparam-se e, logo no segundo dia da festa, as chuvas caíram em várias regiões do país, molhando as cabanas onde é costume residir e – se não houver chuva – também dormir. E nesta última semana, a precipitação foi igualmente generosa.

Interessado na situação da seca local, tenho consultado o site da Autoridade da Água de Israel. Numa das suas páginas mostra, quase diariamente, a evolução do nível de água no Kinneret. Há meses, que o nível da água cai, centímetro a centímetro, meses a fio, metro a metro, estando agora vários metros abaixo do nível ideal. A cada medição negativa, uma seta vermelha é acrescentada na tabela do site. Ontem, pela primeira vez desde Abril, o nível do lago aumentou. Um centímetro e meio apenas. Porém, a seta apareceu verde. Hoje, a seta verde repetiu-se. É um sinal.


Os dois últimos registos do nível da água do Kinneret, o Mar da Galileia.

Um rapazinho aqui da vizinhança, assim que as chuvas começaram, ficou espantado a olhar pela janela, a ver o fenómeno – diria – raro, nos últimos anos. Com uma confiança insuperável, perguntou à mãe: "É hoje que o Kinneret enche?".

Decerto que não será só com a chuva de hoje. Mas enquanto há verde há esperança.

publicado por Boaz às 21:40
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Sábado, 25 de Outubro de 2008

Caros amigos

Recentemente, numa manhã, quando cruzava o shuq - o mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém - a caminho da yeshivá, uma senhora estrangeira que passava ali interpelou-me, entregou-me um postal colorido e disse-me em inglês: "Parabéns pelos 60 anos do teu país. Nós gostamos muito de Israel e desejamos-lhe muita sorte, a si e ao seu país".

Sorri perante tamanha simpatia e entusiasmo sionista, aceitei o postal e continuei o meu caminho. Assim que virei as costas para retomar a caminhada, olhei brevemente o papel que me entregara. De um lado era um alegre desenho infantil com os dizeres: "ISRAEL 1948-2008 Mazel Tov!" (que é como quem diz: ISRAEL 1948-2008 Parabéns!).

Tive de virar o cartão para desvendar a sua autoria - e intenções. Um texto em hebraico e em inglês, dizia: "Com este cartão nós congratulamo-lo do fundo dos nossos corações com os 60 anos de existência do Estado de Israel. Nós apoiamo-lo, e nós rezamos que o D'us de Abraão, Isaac e Jacob o abençoe, a si e à sua família!" E uma frase bíblica para reforçar a mensagem: "Quão bonitas nas montanhas são os pés do que traz boas novas, sobre os montes que ascendem para anunciá-las para proclamar a paz, para dar a conhecer a salvação, que dizem a Sião: 'O teu Deus reina!';" (Isaías, 52:7)

No fundo, em holandês, revelava-se por fim a autoria do cartão: "Cristãos por Israel".


O "evangelista" americano John Hagee, líder do movimento Christians United for Israel
(Cristãos Unidos por Israel), discursa perante os seus seguidores e apoiantes israelitas num comício no
Centro de Congressos de Jerusalém, Abril de 2008.

É quase um paradoxo a ideia de movimentos cristãos "amigos de Israel". Não que eu ache que temos de ser inimigos figadais como outrora fomos, mas não nos esqueçamos que o Cristianismo foi fundado com a finalidade de "substituir o Judaísmo". Afinal, o "Novo Testamento" está em oposição ao Velho. A "Boa Nova" de Jesus, ou a "Nova Aliança", como lhe chamam, em substituição da (velha) "Aliança de Abraão, de Isaac e de Jacob". No entanto, é um fenómeno cada vez mais visível em Israel. Na última semana, coincidindo com as festividades de Succot, realizou-se em Jerusalém uma marcha de cristãos pró-Israel. Uns 3000 cristãos de quase 100 países desfilaram com as bandeiras azuis e brancas de Israel. Várias instituições, associadas sobretudo ao Protestantismo da linha evangélica, existem com o objectivo de ajudar Israel. Uma boa parte do lobby político pró-Israel norte-americano é formada por cristãos. Milhões de dólares são doados anualmente a Israel por igrejas do mundo inteiro.

É sabida a ligação histórica dos primórdios do Cristianismo à Terra Santa de Israel, com as seculares peregrinações aos locais sagrados de Jerusalém, Belém e Nazaré. O controlo desses locais foi o propósito das Cruzadas, no início da Idade Média. No entanto, o novo apoio cristão a Israel não provém tanto de um desejo de controlo dos locais santos. As profecias judaicas falam claramente da vinda do "Redentor" após a concretização de uma série de factos. A reunião das tribos exiladas de Israel é uma delas. Por isso, uma boa parte da ajuda cristã é canalizada para a assistência aos novos emigrantes judeus em Israel. Instituições em Jerusalém e noutras cidades oferecem aos novos imigrantes objectos para a casa e roupas, bastando-lhe para receberem essa ajuda mostrar o documento que prova que são imigrantes recentes.

Esse apoio cristão internacional é mal visto em muitos sectores da sociedade israelita, incluindo os próprios cristãos árabes de Israel. São também olhadas com desconfiança pelos "pacifistas", pois na generalidade, essas igrejas evangélicas apoiam os colonatos judaicos nos "Territórios Palestinianos", e muitas criticam mesmo as negociações de paz com a Autoridade Palestiniana, além de pressionarem a política norte-americana nesse sentido. Os judeus sionistas religiosos, favoráveis à colonização manifestam igualmente um desconforto pelos novos laços com estes cristãos. É que a filosofia evangélica não esconde que esse apoio não deriva da pura e desinteressada simpatia pelos Judeus ou Israel em si mesmos.

Na verdade, ele tem umas segundas intenções bem determinadas, destinando-se a "antecipar a nova vinda do Messias". Como admitiu o filósofo judeu francês Henri Bergson: "As minhas reflexões levaram-me cada vez mais próximo do Catolicismo, no qual eu vejo a completa finalização do Judaísmo..." Numa nova interpretação da profecia judaica da Batalha de Armagedão, os cristãos crêem numa batalha apocalíptica entre o bem e o mal, que proclamará Jesus como o Messias e na qual os Judeus que não o aceitarem serão exterminados.

Por isto tudo, não é de espantar que, há uns anos, o Rabino Shlomo Aviner, director de uma importante yeshivá de Jerusalém, tenha recusado um chorudo cheque de uma organização de "amigos evangélicos". É que, como diz um célebre cronista português: "Não há almoços grátis".



publicado por Boaz às 22:25
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

O regresso dos mortos

Ontem, Israel e o Hezbollah trocaram prisioneiros. Cinco terroristas que cumpriam pena nas prisões de Israel, assim como os cadáveres de cerca de 200 libaneses e palestinianos que estavam na posse de Israel, foram entregues. Em troca recebeu dois cadáveres. Os soldados Eldad Regev e Ehud Goldwasser haviam sido capturados em Julho de 2006. O seu sequestro às mãos do Hezbollah, enquanto patrulhavam uma área junto à fronteira israelo-libanesa, despoletou a Segunda Guerra do Líbano.


A discrição israelita vs. a pompa do Hezbollah.

Em Beirute, os prisioneiros, os vivos, são mostrados como heróis. O país decretou um dia de feriado nacional. Os caixões dos 200 cadáveres, foram passeados em enormes camiões engalanados. Vivos e mortos mostrados em paradas, sob a bandeira do Hezbollah. Os terroristas xiitas declaram vitória e dominam a vida política do Líbano, sem rival. O governo em peso, assim como dignitários muçulmanos e cristãos, saudaram os ex-prisioneiros, à chegada ao aeroporto de Beirute.

Em Israel, choram-se e enterram-se os mortos. Não há desfiles com os caixões dos soldados. O luto é uma dor privada, reservada às famílias que, até há poucas semanas, ainda tinham esperanças de conseguir reencontrar os seus familiares com vida. Durante dois anos, o Hezbollah manipulou como quis a dor das famílias Regev e Goldwasser, sem saberem nada em concreto do destino dos seus desaparecidos. Eram desaparecidos, até que o próprio governo de Israel os declarou "mortos em combate". As autópsias revelaram que morreram ambos no ataque inicial, na altura do sequestro.

Com esta operação, mediada pelo governo alemão, Israel destruiu três princípios que regiam a sua diplomacia e postura regional: não dialogar com terroristas, não trocar vivos por mortos, não libertar condenados por crimes de sangue. Um dos criminosos libertados, Samir Kuntar, estava preso desde 1979, condenado pela morte de três pessoas, incluindo uma menina de 4 anos. Quase 30 anos passados, nunca mostrou qualquer arrependimento. Agora é um herói em Beirute, junto com Hassan Nazrallah, o líder do Hezbollah.

Ao realizar esta troca, Israel abriu uma série de precedentes perigosos, que motivam os terroristas a continuar as suas acções. Gilad Schalit, o soldado israelita de 21 anos, sequestrado em Gaza em 25 de Junho de 2006, continua em mãos do Hamas. Inspirando-se na troca de hoje, o Hamas pode exigir muito de Israel.

Isto porque, a troca de prisioneiros comprova uma máxima que tem sido uma das regras de ouro da defesa de Israel: nunca abandonamos um soldado. Vivo ou morto, ele deve voltar para casa. Israel mostra uma evidente superioridade moral e humana. A qual, nesta como noutras ocasiões, de um ponto de vista político e militar, pode ser vista como uma fraqueza. Os seus inimigos não terão qualquer pudor em explorá-la. Aí reside o segredo entre o contraste do luto sereno israelita, frente ao alarde dos que celebram um assassino como herói e consciência da nação.

publicado por Boaz às 23:04
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Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Rumo ao Sul

Desde o dia 3 de Abril último que a minha residência oficial é a Rehov Ha'teena (Rua da Figueira) no colonato de Alon Shevut. Depois de mais de um ano e meio a partilhar um quarto na Yeshivat HaKotel, finalmente arranjei uma casa que, apesar de alugada, posso chamar de "minha".

Alon Shevut é um pequeno colonato, cerca de 15 quilómetros a sul de Jerusalém. Saindo da Cidade Velha, na direcção sul, quem segue pela Estrada de Hebron, ao chegar às imediações de Belém, quando no fim da estrada se avista o posto de controlo junto ao Túmulo de Raquel, vira à direita. Duas centenas de metros e chega-se ao Cruzamento de Gilo, a ponta sul de Jerusalém.

Aí, durante todo o dia e parte da noite, sempre há alguém a pedir boleia. Quem viaja para sul, normalmente para algum dos colonatos do bloco de Gush Etzion ou para a cidade de Hebron, costuma parar e oferecer um lugar no carro. Uma boa alternativa, se pensarmos que a maioria das viagens de autocarro para o Gush – como é conhecida em Jerusalém a região de Etzion – apesar de serem baratos, têm pouca frequência e demoram imenso tempo.

Os túneis, o posto de controlo e o muro

À esquerda da estrada vê-se a cidade árabe de Belém. Nota-se que a cidade tem crescido, depois da crise da Segunda Intifada, quando os hotéis estiveram praticamente vazios durante anos a fio. Logo a seguir, os túneis de Gilo. Um túnel curto, um viaduto sobre o vale e o túnel mais longo. Antes da construção destas obras, a estrada para o sul cruzava a cidade árabe de Beit Jala. Com a Intifada, eram frequentes os tiroteios e o lançamento de pedras contra os carros que passavam o viaduto. Por isso se ergueu um muro de betão de um dos lados, para tapar a vista dos atiradores.

Assim que se sai do túnel, chega-se a um enorme posto de controlo ainda em construção. Todo o trânsito que sai do sul de Jerusalém em direcção à capital, é verificado nesta instalação. Soldados patrulham as várias faixas do posto, 24 horas por dia. Todos os dias.

Os carros vindos dos colonatos não costumam ter problemas para passar. No máximo, o enfadado soldado de serviço pergunta "De onde vem?". As mulheres soldados, talvez "para mostrar serviço" costumam ser mais insistentes. Os carros, táxis e autocarros árabes, pelo contrário, são verificados minuciosamente. Os passageiros costumam ser mandados sair da viatura, e as bagagens inspeccionadas. Excesso de zelo? Pense-se o que se quiser, mas a segurança é uma palavra levada a sério por aqui.

No posto de controlo começa uma das novas secções do muro que Israel constrói na Margem Ocidental. Ironia, todos os trabalhadores da obra são árabes. Até a empresa que fornece o cimento é árabe, descobriu-se que um dos seus donos é o ex-PM palestiniano Ahmed Qorei. Durante quilómetros, o muro acompanha o lado oriental da estrada. Até há alguns meses, do outro lado do muro viam-se povoados árabes. Hoje, apenas o muro de pedra e, de tempos a tempos, uma cinzenta torre de vigia militar.

Para os palestinianos, o muro tem o efeito psicológico de marcar a presença israelita. Para que eles saibam quem tem o controlo. Para os colonos israelitas o muro é visto como uma possível – e não desejada – fronteira com um possível – e não desejado – estado palestiniano. Por outro lado, é também uma maneira de esconder o outro lado. De uma certa forma, esconder o problema palestiniano. Longe da vista...

As grandes colónias

À chegada ao extremo norte do colonato de Efrat, termina o muro à beira da estrada. Do outro lado não há árabes. Os perigos para os automobilistas já não são os atiradores furtivos. Agora só os próprios condutores, que há muito tempo que matam mais que o terrorismo. Saindo da estrada principal, um pequeno posto de controlo, vigia os carros que entram em Efrat pelo norte. À frente, um acesso para os bairros de caravanas de Dagan Hill e Tamar. Apesar de já contarem com alguns anos, nunca se transformaram em bairros de casas de cimento. A expansão do colonato, que se estende por vários quilómetros do lado ocidental de uma montanha, está suspensa. Só no perímetro do próprio colonato ainda se constrói, embora pouco.


Efrat, a capital do Gush

Na continuação da estrada principal começa a parte mais povoada de Gush Etzion. Primeiro Neve Daniel, situado no alto de uma montanha, a quase 1000 metros de altitude, é um dos pontos mais altos do centro de Israel. Do local, ventoso durante todo o ano, tem-se uma vista espectacular. A ocidente, em dias de céu limpo, avista-se toda a região entre Jerusalém e o Mediterrâneo, de Tel Aviv a Gaza.

Um pouco abaixo, fica a colónia de Beitar Illit, a cidade com maior taxa de natalidade em Israel, habitada por judeus ultra-ortodoxos. É tal a procura de casa por novas famílias e o seu crescimento populacional, que se prevê que a população quase triplique até ao final da década, chegando aos 100.000 habitantes.

Perto de Neve Daniel, fica Elazar, em frente do vale que separa a estrada principal da colónia de Efrat. É um colonato pequeno, com belas casas. À entrada, um pequeno jardim zoológico, que faz as delícias das crianças da região. Depois de uma curva perigosa e de uma recta propícia a altas velocidades fica a entrada principal para Efrat e a colónia agrícola de Migdal Oz. Efrat é casa de quase 10.000 pessoas, a maioria americanos endinheirados. Em algumas das suas ruas, sucedem-se mansões gigantescas, com jardins bem cuidados.

A estrada do Gush continua até ao seu ponto central, o Tzomet haGush (Cruzamento do Gush). O cruzamento é o destino de muitos trampistas, os viajantes à boleia. Daí, é fácil chegar a qualquer ponto da região. Para ocidente, três singulares colónias de Gush Etzion: a aristocrática Alon Shevut; a campestre Kefar Etzion e a alternativa Bat Ayin. Para sul, a estrada continua até à dividida cidade santa de Hebron, um dos principais pontos de discórdia entre Israelitas e Árabes. E a militante Kiryat Arba.

O trajecto cruza, como se tudo fosse tranquilo, várias aldeias árabes. A paisagem vai mudando, de vinhas e olivais entre os belos muros de pedra – como me lembram a Serra de Aire! – a colinas cada vez mais secas, pontilhadas ora de cinzentas aldeias árabes, ora de bucólicas colónias judaicas. Pelas colinas do sul da Judeia, ruma para sul, até ao deserto do Neguev, seguindo para Beer Sheva, a grande cidade do sul. Porém, aí, é um mundo à parte, bem longe da tranquilidade aparente e das disputas políticas que são o quotidiano do Gush.

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Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Há quem lhe chame assim

País de merda. Assim mesmo. É desta forma que Israel é visto, chamado, (des)considerado, sentido, em muitos lugares do mundo, na mente de muita gente.

O jovem David Navarro, um espanhol residente em Israel, decidiu pegar nesta concepção e mostrar o outro lado de Israel. Aquele lado tapado muitas vezes pela trampa que passa pelos meios de comunicação social do Mundo acerca deste país.

Criou um site chamado, muito a propósito, País de mierda. Eu sei que em Portugal, as coisas ainda não tendem a ser tão escatologicamente distorcidas em relação a Israel, como em países como Espanha ou o Brasil, mas mesmo para os portugueses ainda há muitas ideias erradas que persistem.

Proponho uma visita. Prometo que não tem cheiro.

NOTA: Parece que este caso já dá que falar em Espanha: ABC, El Mundo, Telecinco, 20 minutos.

publicado por Boaz às 22:12
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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

"Este é o dia que o Eterno fez"

Ainda a tinta das assinaturas na Declaração de Independência de Israel não tinha secado e, cinco nações árabes (Egipto, Transjordânia [actual Jordânia], Síria, Líbano e Iraque) alinhavam as suas tropas frente às fronteiras demarcadas pela ONU, prontas para invadir o recém-criado Estado Judaico. A estratégia árabe era simples e previa que a derrota judaica seria alcançada num prazo de uma ou duas semanas apenas.

Isto foi há 60 anos. Israel ficou abalado. Resistiu. Triunfou. Alguém religioso não nega o magnífico "dedo de Deus" presente em muitos dos momentos históricos destas seis décadas em Israel. Mesmo os cépticos certamente se perguntam como esta pequena nação, composta na sua maioria por refugiados, conseguiu erguer um país como o Israel do presente. Um puzzle social confuso, composto de peças dificilmente ajustáveis: judeus e árabes, religiosos e seculares, sefarditas e askenazitas, ex-soviéticos, americanos, etíopes, peruanos, filipinas e tailandeses.

O "milagre israelita" não é fantasia. É conhecida a metáfora do pequeno território composto, ainda há menos de um século, por pântanos e desertos, transformado num fértil jardim. As coisas não acontecem por acaso. Tudo - tudo mesmo - em Israel funciona à custa de muito suor e engenho humano. E fé. Da irrigação dos campos ao trânsito na auto-estrada.

Vim pela primeira a Israel em 1999. Queria passar dois meses das minhas férias de Verão no país, gastando o mínimo de dinheiro possível. Ser voluntário num kibbutz foi a opção ideal. Sem conhecer ninguém no país, sem falar nada da língua local. (Valeu-me o meu inglês.) À chegada, a surpresa: um país verdadeiramente moderno. É certo que já tinha visto imagens de Israel na TV, mas ao vivo é outra sensação. Os arranha-céus de Tel Aviv. Um mito destruído de imediato: a influência americana era quase inexistente. Cartazes publicitários em hebraico! Como era possível viver num país moderno sem usar uma língua ocidental? Peço desculpa pelo eurocentrismo idiota.

Nessa altura, o meu interesse em Israel já não era meramente turístico ou mesmo cultural. Eu estava a bater à porta do Povo de Israel. Nos meus planos, mesmo desconhecendo inteiramente o alcance desse ideal, estava uma conversão ao Judaísmo. Passaram-se anos até voltar a pisar a Terra Santa. Na segunda visita, de apenas 11 dias, o meu processo de conversão já dera muitas e difíceis voltas, mas finalmente começara a tomar forma.

Em apenas quatro meses estaria de volta. Para sempre. Nem eu sabia à partida. Conseguira uma vaga num curso oficial de conversão ao Judaísmo, nos arredores de Jerusalém. Sem trabalho fixo em Portugal, sem ter uma família para sustentar, pouco me prendeu em casa. Fiquei seis meses no curso de conversão e entretanto entrei numa yeshiva. Pela primeira vez, entrei a fundo no mundo religioso judaico.

Sem planos para ficar em Israel, a princípio planeei ficar apenas 6 meses. Ir, converter-me, voltar. As minhas identidades portuguesa e judaica pareciam perfeitamente equilibráveis. O retorno à minha vila da Batalha foi estranho. Eu era um estranho. Foi um regresso a casa, apenas de visita. Fui um turista na minha terra natal. Foi um alívio voltar a Jerusalém.

As mudanças são muito rápidas e radicais para quem vive por estes lados. Em 2005, chegara quando ainda se sentia em força o abalo da destruição dos colonatos de Gaza. Passei cá a Segunda Guerra do Líbano, com os telefonemas quase diários da minha mãe, aterrada com as violentas imagens da guerra transmitidas pela televisão. Implorou-me para voltar para casa. Tentei, como podia, descansá-la. "Que iria eu fazer a Portugal?", pensei. Não queria sair naquela hora difícil. Não queria ter problemas para voltar, caso saísse.

Frequentemente recebo mensagens de amigos em Portugal que me pedem para voltar. Alegam que esta não é a minha terra. Que não tenho nada a fazer por aqui. Que o meu lugar é em Portugal. Entendo o ponto de vista deles. Um emigrante é visto como um ente temporariamente distante. Não conhecem a essência da emigração para Israel. Afinal, transplantar as raízes para um novo lugar é sempre um choque, também para a terra deixada vaga. Israel foi recém reimplantado nesta terra. Recém, se lembrarmos a cadeia de mais de 3500 anos de história judaica. Todos os que, como eu, decidiram viver aqui, são parte deste novo e impressionante reflorescimento judaico na Terra de Israel.

Estou em Israel há menos de três anos. Como judeu, há quase dois. Como cidadão, ainda não completei sequer um ano. Casei por cá, há exactamente um mês. Não me consigo imaginar a viver, de forma permanente, noutro lugar. Ao fim de um ano de aliya, dentro de alguns meses, vou poder tirar o passaporte israelita. Um ano de israelita em 60 anos de Israel.

Nota: O título provém de um versículo entoado na recitação de Halel, o conjunto de cânticos de louvor a Deus entoados nos dias mais alegres do ano. O Dia da Independência de Israel é um desses dias.

A ideia para este artigo partiu de Nuno Guerreiro, um jornalista judeu português residente em Nova Iorque e autor do excelente blog Rua da Judiaria. A intenção dele era publicar textos de escritores, jornalistas e bloguistas de língua portuguesa residentes em Israel. (A minha foto que acompanha o artigo já tem uns aninhos, mas, verdade seja dita, eu também não mudei assim tanto).

publicado por Boaz às 16:44
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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