Domingo, 16 de Novembro de 2008

Ora pois

Muitas vezes, quando conheço um novo brasileiro, ele pergunta-me com um ar de curiosidade sincera: "é verdade que os portugueses sempre dizem 'ora pois'?". A minha reacção, a início, era de perfeita estranheza. Não me lembro de ter ouvido essa expressão em Portugal. Porque será então que os brasileiros me perguntam sobre essa alegada "expressão típica dos portugueses"?

Esta situação é apenas a revelação do desconhecimento acerca de Portugal e dos portugueses que existe entre os brasileiros. O país foi colónia portuguesa durante vários séculos. A base principal da cultura brasileira é evidentemente a herança portuguesa: em especial a língua, e a maioria da população de religião cristã. A influência portuguesa entrou, em maior ou menor grau, em todas as áreas da sociedade brasileira. Porém, actualmente, os antigos colonizados conhecem muito pouco de Portugal.

Conhecem relativamente bem a nossa história, mas apenas até à independência do Brasil. Na literatura estudam Camões e até Bocage, mas não a moderna literatura portuguesa. Da música ouviram falar – só falar, porque na verdade nunca escutaram nada – de fado. Na prática, música portuguesa é o tão fora de moda Roberto Leal. E isto porque ele começou a sua carreira em terras brasileiras.

Por vezes, para satirizar os portugueses, os meus amigos brasileiros cantam a famosa canção "Vira, vira" da banda Mamonas Assassinas. Essa banda fez um sucesso estrondoso também em Portugal. Eu e os meus amigos sabíamos de cor todas as músicas do único CD editado pela malograda banda. Até vir para Israel e conhecer alguns brasileiros, nunca tinha percebido que "Vira, vira" era exactamente uma sátira aos portugueses. Talvez porque os portugueses não têm de si mesmos a imagem que essa canção mostra. Contudo, essa representação exagerada é, de alguma maneira, a impressão que os brasileiros têm dos portugueses.

Em mais de 30 anos de telenovelas brasileiras em Portugal, os portugueses aprenderam e acostumaram-se ao sotaque do Brasil. Aprenderam até algumas das gírias. A maioria dos artistas populares no Brasil chega aos tops de venda de discos e fazem concertos em Portugal. Ao contrário, os brasileiros não assistem às telenovelas portuguesas, os discos dos artistas portugueses na moda não chegam ao Brasil e só meia dúzia de intelectuais é que conhecem Mariza, Dulce Pontes ou até Eugénia Mello e Castro, a qual há anos que reside no Brasil.

Apesar de centenas de empresas portuguesas terem negócios multi-milionários no Brasil: nas telecomunicações, no turismo, na banca, na electricidade ou no petróleo, essa presença não é percebida como portuguesa. Depois de décadas de imigração para o Brasil, a qual é hoje na sua maioria de empresários, dos portugueses continuam a ter a imagem do Manuel e do Joaquim, com grande probabilidade de um deles ser padeiro. Talvez pensem que todos os portugueses se chamem por esses dois nomes apenas. As mulheres portuguesas chamam-se invariavelmente, Maria. E têm bigode e pêlos no sovaco. (Já me perguntaram com seriedade se as jovens portuguesas continuam a seguir essa "moda".)

É óbvio que Portugal não pode esperar influenciar hoje o Brasil como o fez há 500 anos. O Brasil é um gigante comparado com Portugal, e o fluxo de influência é muito maior do Brasil para Portugal do que no sentido contrário. Mas não deixa de ser totalmente absurdo esse nível de desconhecimento.

publicado por Boaz às 20:57
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Domingo, 2 de Novembro de 2008

Facto é fato que é terno

Aqui em Israel, apesar de longe de casa e do ambiente em que vivi durante 28 anos, eu bem tento manter o meu português de Portugal. Praticamente só falo português com brasileiros: em casa, com os vizinhos brasileiros de Alon Shvut, com os colegas brasileiros da yeshivá. Conheço apenas uns cinco portugueses em Jerusalém e arredores, porém raramente estou com eles.

Muitas vezes, os meus amigos brasileiros riem-se quando eu falo de "camisola" e eles entendem "combinação" ou "camisa de dormir", porque eles chamam-lhe "malha". Um pulôver é um moleton. Ou o nosso "telemóvel", que é para eles "celular". Ou o "autocarro" que é "ônibus". O "banheiro" brasileiro, que é a portuguesa "casa de banho" gera uma série de confusões: o "autoclismo" (este causa risadas, sempre) que é a "descarga", a "sanita" que é a "privada", o "lavatório" que é uma "pia". Salvam-se a banheira e o bidé. O moço de recados português é um estafeta; o brasileiro é um office-boy. O primeiro tira fotocópias, o segundo tira xeroxes. A "fila" já foi "bicha" em Portugal, mas por causa da "bicha" dos brasileiros, os portugueses agora também lhe chamam "fila".

O lusitano "pequeno-almoço" é o brasileiro "café da manhã", mesmo que não tenha café mas leite com chocolate e bolachas ou cereais. Aliás, as bolachas portuguesas só são bolachas no Norte do Brasil, mas são biscoitos no Rio de Janeiro. Os cereais são "sucrilhos". O requeijão que os brasileiros adoram é apenas "queijo fundido" deste lado do Atlântico. Enquanto o requeijão português é algo como queijo fresco no Brasil. O frango brasileiro tem coxa e sobre-coxa enquanto o português tem coxa e perna. A aboborinha, é chamada pelos portugueses de courgete. Oui, como en français!

Por vezes, as diferenças são apenas ao nível da acentuação. Os portugueses falam e escrevem Amazónia, matrimónio e cómico. No Brasil escreve-se e fala-se Amazônia, matrimônio e cômico. Os exemplos poderiam acumular-se por muitas linhas.

Diariamente vou aprendendo um pouco mais da língua de Machado de Assim. Porém, procuro não perder a língua de Camões. Resta explicar que: facto é um fato, e um fato não é um acontecimento, mas um "terno". E terno é, simplesmente carinhoso.

publicado por Boaz às 17:34
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