Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Voltar a Lisboa?

Desde que decidimos, eu e a minha esposa, frequentar um curso de preparação para "shelichim" – emissários para as comunidades judaicas na Diáspora – pensámos na possibilidade de irmos para Portugal. Brasil, Espanha ou qualquer país de língua espanhola da América são outras possibilidades. Em Portugal, a única comunidade com a qual tive um contacto directo foi a de Lisboa, desde a minha entrada na faculdade.

Desde o início do meu processo de conversão, com melhores ou piores momentos, tivemos uma relação um pouco atribulada. A hostilidade face aos candidatos à conversão, numa altura em que não havia sequer rabino na sinagoga, resultou em alguns momentos amargos. O primeiro contacto, em Fevereiro de 1998, foi desastroso. Tanto que, durante alguns anos, até 2002, não voltei a contactar a comunidade.

Tive o discernimento suficiente para perceber que uma comunidade judaica não faz todo o Judaísmo, ou que alguns judeus não fazem todo o Povo Judeu. Por isso, não desisti. Com a porta de Lisboa aparentemente trancada, continuei a estudar o Judaísmo o melhor que conseguia, pela Internet e nos poucos livros que conseguia encontrar nas bibliotecas. Assim que descobri – já não me lembro por que maneira –, que havia chegado um rabino à comunidade, e que ele tinha um endereço de e-mail, apressei-me a tentar essa nova porta. Pensei: se a reacção for negativa, pelo menos não será tão dramática como ao vivo.


Sinagoga de Lisboa, Shaare Tikva, os Portões da Esperança.

Todas as semanas, enviava ao rabino pelo menos um e-mail com perguntas. As respostas eram sempre secas e, pelo menos aparentemente, desinteressadas. (Existe o costume de tentar demover o candidato à conversão, para que este prove o seu real interesse). Tantos e-mails enviei que o rabino deve ter ficado farto de mim e decidiu entregar o meu caso a um membro da comunidade. Esta reviravolta mostrou-se providencial. As respostas aos meus e-mails passaram a ser mais pacientes e atenciosas. Tivemos algumas discussões filosóficas interessantes e acabámos por nos tornar amigos.

Alguns meses depois, em Fevereiro de 2003, fui convidado a visitar a sinagoga. "Uma visita turística", pensei. Não, na hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que dá início ao Shabat! Incrédulo com a ocasião do convite, pedi explicações: "Não seria melhor ir a outra hora?". A resposta, ainda hoje me soa como a um magnífico lema de vida: "Quando se aprende a nadar numa piscina, podes saltar do lado mais baixo ou do lado mais fundo. Eu acho que deverias saltar do lado fundo".

Perante tal encorajamento, decidi aceitar o convite. Até então, ainda não conhecia pessoalmente o paciente judeu que há meses respondia aos meus e-mails. Esperou por mim no portão da sinagoga para facilitar a minha entrada. Foi a minha primeira experiência com a segurança do local.

O primeiro Kabalat Shabat foi estranho. O hebraico, as melodias das rezas, a sinagoga quase vazia, não conhecer ninguém além do meu amigo-por-email-e-agora-também-em-pessoa. Seguia as orações pelo livrinho em hebraico, português e transliteração. Absolutamente lindo, o primeiro Lechá Dodi. No estranho oceano da língua hebraica, as seis palavras da declaração de fé judaica: “Shemá Israel, Hashem Elokeinu, Hashem Ehad” foram a única ilha algo familiar em toda a cerimónia. O cúmulo do meu desnorteio chegou quando, pouco depois, todos se levantaram, viraram-se na direcção da Arca Sagrada (também a direcção de Jerusalém) e ficaram em silêncio, balançando-se como costumam fazer muitos judeus quando rezam. Perdi-me nas páginas do livrinho. “Onde vão?” Folheei, para a frente e para trás a tentar adivinhar o que rezavam em silêncio. Fiquei na minha, sentindo-me meio estúpido, e discretamente tentando o mais possível parecer um deles.

Alguns minutos depois, voltaram a rezar alto. “E onde vão agora?”. Um novo folhear atrapalhado. Foi impossível achar o fio à meada. Uns minutos depois e o serviço terminou. À saída, o meu amigo perguntou: “O que achaste?”. “Estranho, mas bonito”. “Podes voltar na próxima semana, se quiseres”. Obviamente voltei. Desta vez, na entrada não havia ninguém à espera, além do segurança de ocasião. A custo, deixou-me entrar. O meu amigo não estava para confirmar o convite que me fizera. Enquanto esperava para começar a cerimónia, um membro da comunidade perguntou-me se eu era judeu. Precisavam de gente para completar o minyan (conjunto mínimo de dez homens necessário para as orações públicas). "Não, não sou". Fiquei marcado.

Na semana seguinte, o segurança barrou-me a porta. "A sinagoga é só para membros", disse-me, de forma antipaticamente peremptória. Nem valeu a pena invocar o convite do meu amigo. "Se quiser voltar, terá de enviar uma carta para a direcção de segurança da comunidade, a pedir autorização para frequentar a sinagoga". Frustrante. Enviei a carta. Esperei um mês pela resposta. Fui perguntando por e-mail ao meu amigo, se sabia algo da dita carta: onde tinha ido parar, se tinha sido recebida. Decidi enviar outra. "Talvez se tenha extraviado", deduzi. Um mês, dois, três… e nada. Nesta altura já tinha terminado o meu estágio na Rádio TSF e voltara a viver na Batalha, a 120 quilómetros de Lisboa. E a comunidade voltara a ficar sem rabino.

Alguns meses depois, voltei a Lisboa por algumas semanas para um curso pós-universitário de jornalismo. Aproveitando a oportunidade do meu regresso à capital, o meu amigo na comunidade voltou a convidar-me para um Kabalat Shabat. Sem ter recebido qualquer resposta em mais de 6 meses, fiquei apreensivo em aceitar o convite. "Eu espero-te do lado de fora do portão e entramos juntos", assegurou-me. Chegámos cedo, o vigilante ainda não tinha chegado. Não tive problemas para entrar. A meio do serviço vi-o entrar na sinagoga. Gelei. Pareceu ignorar-me. Imaginei, "depois de tantos meses talvez nem se lembre de mim".

À saída, ainda no pátio da sinagoga, o segurança provou a sua boa memória. "Você não volta a fazer o que fez! Não tem autorização para entrar aqui!" Da forma colérica como me falou parecia acusar-me de ter arrombado o portão. Encaminhámo-nos para a rua. Tentei defender-me como podia: "Como pode falar assim, se o senhor não estava aqui quando cheguei…" Com o passar do tempo, o jovem estava cada vez mais agitado. Cheguei a temer que me batesse.

Deixei-o falar. Afinal, nada do que eu pudesse dizer iria fazê-lo acalmar-se. "Escreva outra carta! Não há duas sem três. E enquanto não receber resposta, está proibido de entrar aqui!" Num aviso ameaçador, disse-me que se voltasse à sinagoga, seria expulso nem que tivesse de recorrer "à força". É verdade, ele tinha razão, eu não tinha autorização formal, mas também não era preciso fazer tamanho escândalo. Porém, confesso que de todo este episódio vergonhoso, o que mais me custou nem foi o rapazote furioso e malcriado, cumprindo com orgulho o papel que alguém lhe tinha confiado. O pior foi mesmo o silêncio. O silêncio daqueles que iam saindo da sinagoga e ficavam parados à nossa volta durante um minuto ou dois, a admirar tranquilamente aquela luta de galos no meio da rua. Sem nada fazer, ou dizer. (Quem cala, consente?) Humilhado, fui embora, com o meu amigo, que entretanto saíra da sinagoga e levara também ele uma dose de desaforo do tal segurança.

Escrevi a terceira carta, desta vez iria enviá-la registada. Nela, incluí uma linha sobre o memorável episódio da minha última visita à sinagoga. Mais dois meses de espera. Recebi a autorização numa carta breve e seca. Nenhum comentário sobre o comportamento do segurança. E no tempo da espera terminara o meu mini-curso de jornalismo escrito em Lisboa e voltara de novo para casa da família. A resposta chegara tarde demais.

Quase seis meses depois, quando já havia chegado um novo rabino, voltei a ser convidado para a sinagoga, mais propriamente para comer na sucá (cabana que se constrói para a festa de Sucot). Seria uma oportunidade para falar com o rabino sobre o meu caso. Acabei por não falar com ele, já que aquele não era um assunto para discutir à mesa, em frente à família dele e alguns convidados. Alguns dias depois, voltámos a encontrar-nos para uma entrevista formal. No final, convidou-me a entrar na classe de conversão da comunidade já na semana seguinte. Que abertura!

Semana a semana, durante 11 meses, fui de propósito a Lisboa apenas para as aulas de conversão na sinagoga. Era um grupo de mais de 20 pessoas, todas da região de Lisboa. Eu era o único "da província". Desde essa altura, deixámos – eu e os outros candidatos à conversão – de ter problemas para entrar na sinagoga. O novo rabino estava "do nosso lado" ainda que tivesse de bater de frente com alguns "hostis". Aos poucos, a comunidade tornou-se mais tolerante connosco.

Voltar a Lisboa seria voltar a muitas recordações. Algumas amargas, outras deliciosas. Foram algumas pedras no longo caminho da minha conversão, mas mesmo as mais aguçadas ajudaram a pavimentar a estrada. Não guardo escoriações pelas quedas, nem rancores.

publicado por Boaz às 10:25
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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2004

Algumas razões para sorrir

Há poucos dias, em Lisboa, perdi o expresso para casa. Como o próximo era só daí a 4 horas – que serviço eficiente, hein?! – e uma vez que eu não sou pessoa de ficar sentada à espera durante tanto tempo, resolvi ir dar uma volta pela cidade. Sem destino, sem propósito. Nem sequer para ver as montras, que também é coisa que não aprecio, ainda mais quando já estão inundadas da fúria natalícia. Só andar por aí, com o rádio de bolso ligado e os auscultadores nos ouvidos.

Foi uma caminhada de alguns quilómetros, de Sete Rios ao Rossio, passando pela Praça de Espanha, Marquês de Pombal, Rato, Príncipe Real e Carmo, regressando depois pela Avenida da Liberdade, Marquês, Parque Eduardo VII e São Sebastião.

Já no dia anterior tinha notado que as pessoas raramente olham as outras na cara e mantêm sempre um ar sério, aborrecido. Assim, decidi logo à partida que ia tentar manter, enquanto caminhava calmamente, um sorriso nos lábios. E aproveitar as pequenas coisas que via para manter o sorriso. Ao mesmo tempo iria observar a reacção das pessoas quando passasse por elas com aquela disposição.

Durante as várias horas do passeio por Lisboa reparei que as pessoas, de um modo geral pareciam tristes. Andavam na rua de olhar baixo, quase sempre virado para o chão. Talvez à espera de aí encontrar a sua sorte. Raramente passava por alguém que em vez de olhar para baixo, olhava em frente, ao infinito. E ainda menos vezes alguém que me olhava nos olhos quando passava por mim. E quando isso acontecia, rapidamente desviavam o olhar. Invariavelmente, para o chão ou o infinito.

Talvez se, mesmo no meio das suas pressas tentassem observar as outras pessoas, as ruas com outros olhos, o dia até lhes poderia parecer melhor. A mim soube-me bem superar o tédio da espera pelo expresso com uma visão nova da cidade.

Encontrei inúmeras razões para ficar bem disposto. O céu azul e o Sol radioso apesar do tempo frio. O semáforo onde eu chegava e que estava verde. Passar pela porta de um edifício que conheço e pensar no que se estaria a passar lá nesse momento. Duas manilhas junto às obras do Marquês: uma metáfora ao túnel. Os telhados dos prédios e a cúpula da Estrela ao fundo da Rua do Monte Olivete: um postal turístico ou um quadro de Maluda. O panorama da Baixa no miradouro de São Pedro de Alcântara. Passar por ruas onde nunca tinha estado. Uma boa canção a tocar no rádio – o que por vezes até me fazia ter vontade de dançar no meio da rua e no mínimo me fazia caminhar ao ritmo da música. (Não, não ando a tomar drogas. Era mesmo autêntico, sem “pastilhas”.) Os vendedores de castanhas a fazer cartuxos com folhas das páginas amarelas. As bolachas de aveia e um gole de água, acompanhados da vista grandiosa do alto do Parque Eduardo VII. A escultura do Cutileiro logo ali ao lado. Um melro que a poucos metros de mim se demorou a beber água numa bica.

Ao chegar ao destino, só me arrependi de não ter andado ainda mais devagar para não ter de esperar ainda durante uma hora. Ao menos, ainda me sobravam bolachas e um pouquito de água.

Cada vez acho mais que devemos aproveitar cada bocadinho de tempo para tirar o máximo das mais pequenas coisas, em vez de nos queixarmos de tudo. Ainda mais, após uma senhora de 30 e poucos anos que conheci recentemente me ter dito que, apesar de estar sem trabalho e depois de dois tumores cranianos se considerar uma privilegiada. E ter sempre um sorriso nos lábios.

publicado por Boaz às 04:43
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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