Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Shalom, bem-vindo a Portugal

Quando revelo que sou de Portugal, em conversas com algum israelita, a maioria declara não conhecer nada do país. Por vezes perguntam se é bonito, sem existe anti-semitismo e o que tem de interesse. Na verdade, apesar de todos os atrativos turísticos de Portugal, o país atrai uns insignificantes mil turistas israelitas por ano. Isso, num universo de quase dois milhões de israelitas que fazem férias no estrangeiro, anualmente. Porém, não é de estranhar a falta de turistas israelitas – ou judeus em geral – em Portugal. O país apresenta uma série de problemas difíceis de ultrapassar para qualquer turista judeu.


Sinagoga Shaarei Tikvá, em Lisboa. Uma jóia pouco conhecida.

Na minha recente viagem a Portugal, senti o menor dos problemas do turismo judaico no país: a inexistência de voos diretos entre Israel e Portugal. Porém, apesar da conveniência que seria ter um voo direto, não faltam aeroportos europeus como alternativas para escala entre os dois países. Se a escala for curta, até se aguenta. No passado, tanto a El Al como a TAP tiveram voos diretos entre Tel Aviv e Lisboa (esta última nos longínquos tempos da ligação Lisboa-Macau, que fazia escala em Tel Aviv). Porém, a escassez de turistas israelitas a escolherem fazer férias em Portugal e os poucos portugueses que visitam Israel, determinaram o fim da rota nas duas companhias.

Por comparação, em Espanha existem ligações diárias entre Barcelona e Madrid com Tel Aviv (mais do que uma por dia), e outras para algumas estâncias de veraneio da costa espanhola. O “país vizinho” atrai cerca de 200 mil turistas israelitas todos os anos. Ou seja, 200 vezes mais do que aqueles que visitam Portugal.

Mas, de novo, este é o menor dos problemas que um turista judeu enfrenta quando decide viajar para Portugal. Ainda que uma parte importante de israelitas e dos judeus em geral não sejam religiosos, muitos preocupam-se minimamente com a alimentação casher: a que segue o código de Kashrut, a lei alimentar judaica. Ora, num país tão voltado para o turismo e, alegadamente interessado em atrair o público judaico, em todo o país não existe sequer um único restaurante casher. Em Lisboa, a zona nobre dos hotéis, em redor do Marquês de Pombal, Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, com dezenas de unidades à escolha, fica a uma conveniente curta distância da sinagoga, mas não se encontra um único hotel casher.

Em termos de alimentação, pelo menos em Lisboa e Porto, existe em cada uma das cidades somente um supermercado com uma minúscula “secção de produtos kosher”, com artigos como sopas em pó, conservas, bolachas, compotas de fruta, duas ou três variedades de vinho casher português e espanhol de péssima qualidade e carne congelada a preços descaradamente inflacionados (a bem da verdade, não por culpa dos respetivos supermercados).

Isso não quer dizer que um visitante judeu em Portugal – ou qualquer um dos judeus residentes – que queira cumprir as intrincadas regras da alimentação de acordo com a Lei Judaica, se arrisca a morrer de fome. A abundância de frutas e peixe e o uso de algumas leniências nas leis de Kashrut, salvam qualquer um da carência alimentar.

Ultrapassadas as dificuldades de acesso ao país e a alimentação, resta o país em si. Portugal não apresenta monumentos judaicos de referência, como aqueles que se destacam na Europa Oriental ou mesmo em Espanha. Nenhum dos escassos vestígios da presença judaica em Portugal poderá rivalizar com locais como Cracóvia, Praga, Toledo ou Córdoba. Em Lisboa – caso raro entre as capitais da Europa – não existe sequer um museu judaico. Apesar da vontade expressa pela Comunidade Israelita de Lisboa e da autarquia, a abertura de um museu judaico há anos que não sai do papel.

As marcas da presença judaica em Portugal são raras e pouco significativas, se comparadas com outros mercados turísticos. Talvez o mais interessante para o turista judeu seja mesmo uma visita a Belmonte. E aí, nem sequer para conhecer o pequeno Museu Judaico ou a moderna sinagoga Beit Eliahu, mas antes para conhecer ao vivo a extraordinária comunidade judaica local e escutar as histórias dos cripto-judeus, entretanto regressados ao Judaísmo. A ausência de anti-semitismo em Portugal, em contraste com uma Europa onde essa praga regressa numa onda cada vez mais forte, pode até ser um dos pontos a favor para a escolha de Portugal como destino de férias para os turistas judeus.

Empresários turísticos de Portugal interessados em atrair o pujante mercado israelita declararam que pretendem destacar-se como um produto distinto de Espanha. Porém, para o conseguirem terão de resolver uma série de obstáculos. O mais simples dos quais será mesmo pôr aviões a voar entre Tel Aviv e Lisboa.

publicado por Boaz às 22:08
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Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Voltar a Lisboa?

Desde que decidimos, eu e a minha esposa, frequentar um curso de preparação para "shelichim" – emissários para as comunidades judaicas na Diáspora – pensámos na possibilidade de irmos para Portugal. Brasil, Espanha ou qualquer país de língua espanhola da América são outras possibilidades. Em Portugal, a única comunidade com a qual tive um contacto directo foi a de Lisboa, desde a minha entrada na faculdade.

Desde o início do meu processo de conversão, com melhores ou piores momentos, tivemos uma relação um pouco atribulada. A hostilidade face aos candidatos à conversão, numa altura em que não havia sequer rabino na sinagoga, resultou em alguns momentos amargos. O primeiro contacto, em Fevereiro de 1998, foi desastroso. Tanto que, durante alguns anos, até 2002, não voltei a contactar a comunidade.

Tive o discernimento suficiente para perceber que uma comunidade judaica não faz todo o Judaísmo, ou que alguns judeus não fazem todo o Povo Judeu. Por isso, não desisti. Com a porta de Lisboa aparentemente trancada, continuei a estudar o Judaísmo o melhor que conseguia, pela Internet e nos poucos livros que conseguia encontrar nas bibliotecas. Assim que descobri – já não me lembro por que maneira –, que havia chegado um rabino à comunidade, e que ele tinha um endereço de e-mail, apressei-me a tentar essa nova porta. Pensei: se a reacção for negativa, pelo menos não será tão dramática como ao vivo.


Sinagoga de Lisboa, Shaare Tikva, os Portões da Esperança.

Todas as semanas, enviava ao rabino pelo menos um e-mail com perguntas. As respostas eram sempre secas e, pelo menos aparentemente, desinteressadas. (Existe o costume de tentar demover o candidato à conversão, para que este prove o seu real interesse). Tantos e-mails enviei que o rabino deve ter ficado farto de mim e decidiu entregar o meu caso a um membro da comunidade. Esta reviravolta mostrou-se providencial. As respostas aos meus e-mails passaram a ser mais pacientes e atenciosas. Tivemos algumas discussões filosóficas interessantes e acabámos por nos tornar amigos.

Alguns meses depois, em Fevereiro de 2003, fui convidado a visitar a sinagoga. "Uma visita turística", pensei. Não, na hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que dá início ao Shabat! Incrédulo com a ocasião do convite, pedi explicações: "Não seria melhor ir a outra hora?". A resposta, ainda hoje me soa como a um magnífico lema de vida: "Quando se aprende a nadar numa piscina, podes saltar do lado mais baixo ou do lado mais fundo. Eu acho que deverias saltar do lado fundo".

Perante tal encorajamento, decidi aceitar o convite. Até então, ainda não conhecia pessoalmente o paciente judeu que há meses respondia aos meus e-mails. Esperou por mim no portão da sinagoga para facilitar a minha entrada. Foi a minha primeira experiência com a segurança do local.

O primeiro Kabalat Shabat foi estranho. O hebraico, as melodias das rezas, a sinagoga quase vazia, não conhecer ninguém além do meu amigo-por-email-e-agora-também-em-pessoa. Seguia as orações pelo livrinho em hebraico, português e transliteração. Absolutamente lindo, o primeiro Lechá Dodi. No estranho oceano da língua hebraica, as seis palavras da declaração de fé judaica: “Shemá Israel, Hashem Elokeinu, Hashem Ehad” foram a única ilha algo familiar em toda a cerimónia. O cúmulo do meu desnorteio chegou quando, pouco depois, todos se levantaram, viraram-se na direcção da Arca Sagrada (também a direcção de Jerusalém) e ficaram em silêncio, balançando-se como costumam fazer muitos judeus quando rezam. Perdi-me nas páginas do livrinho. “Onde vão?” Folheei, para a frente e para trás a tentar adivinhar o que rezavam em silêncio. Fiquei na minha, sentindo-me meio estúpido, e discretamente tentando o mais possível parecer um deles.

Alguns minutos depois, voltaram a rezar alto. “E onde vão agora?”. Um novo folhear atrapalhado. Foi impossível achar o fio à meada. Uns minutos depois e o serviço terminou. À saída, o meu amigo perguntou: “O que achaste?”. “Estranho, mas bonito”. “Podes voltar na próxima semana, se quiseres”. Obviamente voltei. Desta vez, na entrada não havia ninguém à espera, além do segurança de ocasião. A custo, deixou-me entrar. O meu amigo não estava para confirmar o convite que me fizera. Enquanto esperava para começar a cerimónia, um membro da comunidade perguntou-me se eu era judeu. Precisavam de gente para completar o minyan (conjunto mínimo de dez homens necessário para as orações públicas). "Não, não sou". Fiquei marcado.

Na semana seguinte, o segurança barrou-me a porta. "A sinagoga é só para membros", disse-me, de forma antipaticamente peremptória. Nem valeu a pena invocar o convite do meu amigo. "Se quiser voltar, terá de enviar uma carta para a direcção de segurança da comunidade, a pedir autorização para frequentar a sinagoga". Frustrante. Enviei a carta. Esperei um mês pela resposta. Fui perguntando por e-mail ao meu amigo, se sabia algo da dita carta: onde tinha ido parar, se tinha sido recebida. Decidi enviar outra. "Talvez se tenha extraviado", deduzi. Um mês, dois, três… e nada. Nesta altura já tinha terminado o meu estágio na Rádio TSF e voltara a viver na Batalha, a 120 quilómetros de Lisboa. E a comunidade voltara a ficar sem rabino.

Alguns meses depois, voltei a Lisboa por algumas semanas para um curso pós-universitário de jornalismo. Aproveitando a oportunidade do meu regresso à capital, o meu amigo na comunidade voltou a convidar-me para um Kabalat Shabat. Sem ter recebido qualquer resposta em mais de 6 meses, fiquei apreensivo em aceitar o convite. "Eu espero-te do lado de fora do portão e entramos juntos", assegurou-me. Chegámos cedo, o vigilante ainda não tinha chegado. Não tive problemas para entrar. A meio do serviço vi-o entrar na sinagoga. Gelei. Pareceu ignorar-me. Imaginei, "depois de tantos meses talvez nem se lembre de mim".

À saída, ainda no pátio da sinagoga, o segurança provou a sua boa memória. "Você não volta a fazer o que fez! Não tem autorização para entrar aqui!" Da forma colérica como me falou parecia acusar-me de ter arrombado o portão. Encaminhámo-nos para a rua. Tentei defender-me como podia: "Como pode falar assim, se o senhor não estava aqui quando cheguei…" Com o passar do tempo, o jovem estava cada vez mais agitado. Cheguei a temer que me batesse.

Deixei-o falar. Afinal, nada do que eu pudesse dizer iria fazê-lo acalmar-se. "Escreva outra carta! Não há duas sem três. E enquanto não receber resposta, está proibido de entrar aqui!" Num aviso ameaçador, disse-me que se voltasse à sinagoga, seria expulso nem que tivesse de recorrer "à força". É verdade, ele tinha razão, eu não tinha autorização formal, mas também não era preciso fazer tamanho escândalo. Porém, confesso que de todo este episódio vergonhoso, o que mais me custou nem foi o rapazote furioso e malcriado, cumprindo com orgulho o papel que alguém lhe tinha confiado. O pior foi mesmo o silêncio. O silêncio daqueles que iam saindo da sinagoga e ficavam parados à nossa volta durante um minuto ou dois, a admirar tranquilamente aquela luta de galos no meio da rua. Sem nada fazer, ou dizer. (Quem cala, consente?) Humilhado, fui embora, com o meu amigo, que entretanto saíra da sinagoga e levara também ele uma dose de desaforo do tal segurança.

Escrevi a terceira carta, desta vez iria enviá-la registada. Nela, incluí uma linha sobre o memorável episódio da minha última visita à sinagoga. Mais dois meses de espera. Recebi a autorização numa carta breve e seca. Nenhum comentário sobre o comportamento do segurança. E no tempo da espera terminara o meu mini-curso de jornalismo escrito em Lisboa e voltara de novo para casa da família. A resposta chegara tarde demais.

Quase seis meses depois, quando já havia chegado um novo rabino, voltei a ser convidado para a sinagoga, mais propriamente para comer na sucá (cabana que se constrói para a festa de Sucot). Seria uma oportunidade para falar com o rabino sobre o meu caso. Acabei por não falar com ele, já que aquele não era um assunto para discutir à mesa, em frente à família dele e alguns convidados. Alguns dias depois, voltámos a encontrar-nos para uma entrevista formal. No final, convidou-me a entrar na classe de conversão da comunidade já na semana seguinte. Que abertura!

Semana a semana, durante 11 meses, fui de propósito a Lisboa apenas para as aulas de conversão na sinagoga. Era um grupo de mais de 20 pessoas, todas da região de Lisboa. Eu era o único "da província". Desde essa altura, deixámos – eu e os outros candidatos à conversão – de ter problemas para entrar na sinagoga. O novo rabino estava "do nosso lado" ainda que tivesse de bater de frente com alguns "hostis". Aos poucos, a comunidade tornou-se mais tolerante connosco.

Voltar a Lisboa seria voltar a muitas recordações. Algumas amargas, outras deliciosas. Foram algumas pedras no longo caminho da minha conversão, mas mesmo as mais aguçadas ajudaram a pavimentar a estrada. Não guardo escoriações pelas quedas, nem rancores.

publicado por Boaz às 10:25
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Sexta-feira, 11 de Maio de 2007

Longe de Jerusalém

Já passaram 2 semanas desde que cheguei de Israel.

Uma estadia fora do ambiente da yeshiva, já tem as suas consequências. A primeira é ao nível do estudo. Todos os dias, não sinto a obrigação de me levantar cedo para ir para as aulas na yeshiva. E estudar sozinho também não é lá muito aliciante. Mas vou estudando, pouco a pouco, alguma coisa.

As distracções são inúmeras, mesmo que já tenha deixado de ser viciado na televisão. No entanto, confesso que retomei o hábito de ver as notícias e algumas séries e documentários. E, acho que para bem, decidi não ter Internet em casa. Sempre é menos uma razão para não me deitar tarde e não passar muito tempo à frente do computador. Mas arranjei um espaço alternativo, para quando a Internet se torna mesmo indispensável. E como o tal local alternativo fica a vários quilómetros da minha casa, até aproveito para fazer exercício, na minha já velhinha mas saudosa bicicleta.

Outros dos problemas de estar fora de Israel é ao nível da oração. É que, tirando no Shabat, também não tenho normalmente o ímpeto de me levantar cedo para rezar. É verdade que rezo, mas pelo menos as orações da manhã, faço-as normalmente, fora de horas. E claro, exceptuando quando rezo na sinagoga, não tenho a oportunidade para rezar com minyan (conjunto mínimo de 10 homens judeus com mais de 13 anos, a partir do qual é possível fazer o serviço religioso completo).

A questão da comida casher, normalmente um dos problemas mais bicudos a resolver por judeu que está fora de um ambiente judaico, até não tem sido assim tão difícil de solucionar. Além da habitual "casherização" da cozinha que tive de fazer logo à chegada a minha casa, tenho a sorte de a família ter deixado de comer carne em casa, reservando os seus apetites na alimentação carnívora para a saída domingueira ao restaurante.

De qualquer forma, uma ida ao supermercado levanta o problema de ter de verificar a lista dos ingredientes de cada coisa que compro, desde as bolachas, aos cereais de pequeno-almoço, aos iogurtes. Há dias, quando me preparava para comer a usual taça de cereais antes de dormir, verifiquei que afinal os corn-flakes não eram casher. Bolas, uns emulsionantes proibidos na lista de ingredientes! Felizmente, descobri a tempo, mesmo antes de ter vertido o leite na taça, mas estragaram-me a refeição... Ainda não ouviram falar da lecitina de soja???

Mais tarde contei o facto à minha mãe, para a avisar de que já não iria comer dos ditos cereais. Ela veio com uma tirada sarcástica: "Olha, vê lá se vais para o Inferno!" Sinceramente, não me posso queixar da sua falta de colaboração com os meus novos e (a seu ver) complicados hábitos, mas vai e volta, lá se sai com uma destas...

Ao contrário do que acontece em Jerusalém, é normal ser confrontado em Lisboa com publicidade pouco recatada. A cada passo, parecem saltar das paragens de autocarros ou em outdoors, imagens de mulheres seminuas. Tenho de admitir que, antes de ir para Israel eu nem dava grande importância a tais cartazes, pois obviamente que estava acostumado a ver esse tipo de publicidade em Portugal. Um ano fora, ainda mais, passado numa cidade como Jerusalém, tão sóbria na questão dos corpos menos cobertos, faz com que hoje pareça muito mais impressionado com esse tipo de imagens.

Acerca disto, queixava-se um amigo brasileiro da yeshiva, entretanto regressado ao Rio. Pouco tempo depois da sua chegada ao Brasil escreveu no seu primeiro e-mail: "Eu não tinha ideia que as pessoas no Brasil andavam peladas na rua!". Em Portugal não é tanto assim, mas anda bem longe do recato de Jerusalém.

publicado por Boaz às 17:54
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2006

Lisboa 1506-2006 (II)

Publicado ontem no Correio da Manhã. Escrito por Ferreira Fernandes, na sua coluna 'Bilhete Postal':

Um dia especial

Faz hoje 500 anos que uma multidão imbecil tornou Portugal mais pobre. A matança de muitas centenas de judeus em Lisboa (talvez quatro mil) fez o País perder, entre mortos e exilados, os mais cultos e modernos dos seus filhos.

O crime boçal prosseguiu durante séculos. Até ao Marquês de Pombal a "limpeza do sangue" - a prova de ausência de judeus até aos bisavós - era condição para bons empregos. Ao seu ministro Pombal, o rei D. José pediu que decretasse um distintivo obrigatório para quem tivesse sangue judeu. No dia seguinte, ele apareceu com três distintivos ao peito. O rei perguntou a razão. Pombal: "Um por mim, outro pelo inquisidor-mor e outro por Vossa Majestade." Judeus somos, os portugueses, todos um pouco. Ignorantes de nós somos todos muito.

publicado por Boaz às 13:49
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Quinta-feira, 20 de Abril de 2006

Lisboa 1506-2006

Ontem, 500º aniversário do massacre de Lisboa (1506), durante o qual foram mortos cerca de 4000 Judeus e "Cristãos-novos", realizou-se no Largo de São Domingos, junto ao Rossio, uma pequena manifestação em memória da chacina.

Seguindo o apelo lançado via Internet pelo blog Rua da Judiaria, alguns dos presentes acenderam velas. Interessado em saber sobre cobertura jornalística da manifestação, acabei por descobrir no site Yahoo! News diversas fotos, entre as quais a seguinte.

Lisboa 2006

Ao mesmo tempo, também se juntaram, mas com propósitos completamente distintos, alguns apoiantes da extrema-direita nacional. Enquanto na praça uns acendiam as velas memoriais, outro faziam a saudação fascista. O contraste não poderia ser maior...

Na análise das notícias, também notei na falta de presença de elementos da Comunidade Israelita de Lisboa. Segundo as contas, estavam lá 50 pessoas (incluindo o presidente), de entre os cerca de 1000 membros da CIL. Manifestamente pouco, mas que parece estar de acordo com a regra da sistemática fraca exposição pública da comunidade.

Nota: Para informação sobre o massacre de 1506, com alguns relatos da época (e posteriores), recomendo a leitura dos últimos artigos do blog Rua da Judiaria, de Nuno Guerreiro, o jornalista português residente em Nova Iorque que lançou a iniciativa da recordação activa desta tragédia esquecida pelos manuais escolares e pela maioria dos livros da nossa História.

publicado por Boaz às 15:57
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Quinta-feira, 30 de Março de 2006

"Estás mudado"

O regresso a Portugal apresenta-se-me com uma série de desafios. O primeiro deles é manter o cumprimento das mitzvot (preceitos judaicos) num ambiente com muito pouco de Judaísmo. Ao mesmo tempo que tento seguir os meus princípios, procuro não ofender as pessoas que me estão próximas, desconhecedoras das regras judaicas e dos seus intrincados detalhes e significados.

A primeira grande luta foi com a comida. Alimentação casher e cozinhas onde essa regra é cumprida à risca são a norma em Israel. Cá, pelo contrário, só usar a louça comum levanta uma série de problemas. Ao chegar a casa, a minha mãe apresentou-me, orgulhosa, um bolo que havia preparado para festejar o meu regresso. Vi a desilusão nos seus olhos quando lhe disse que não o podia comer. Custou-me - não tanto pelo bolo, mas mais para não a ofender, - mas tive de manter a minha posição.

Já estava à espera de uma reacção assim, por isso a havia avisado de antemão para não fazer conta comigo para o jantar. Todavia, como me poderia lembrar que ela iria fazer um bolo, coisa rara lá em casa?! No dia seguinte, dediquei-me durante várias horas a "casherizar" tachos, pratos e talheres para usar durante a minha curta estadia.

Também o uso permanente da kippa levantou sobrolhos a princípio. "Agora estás em casa, não precisas de usar isso". Já os tsitsit, cujo aspecto visível é uma série de fiozinhos brancos pendurados nas calças, surpreendentemente, não causaram reacção.

Fiquei sem saber o que dizer quando a minha mãe me disse que eu "estava mudado". Especialmente tendo-o dito de uma forma não muito agradada, se bem que não exactamente hostil, mas quase como se já não me reconhecesse, ou não me conhecesse bem. Parece que tinha chegado um estranho a casa...

Estranheza é exactamente a forma como encaro quase tudo à minha volta. Já percebi que as pessoas - família e amigos - me vêm de forma diferente, porque eu, realmente, me comporto de forma diferente. Os que me conhecem tomam-me como alguém muito falador e extrovertido entre os amigos mas, ao contrário de antes, não estou particularmente conversador. É que, simplesmente, não sei o que hei de dizer aos outros para que me entendam de imediato.

Em termos temporais passaram apenas seis meses, mas foram seis meses de mudanças muito profundas. Ao chegar, parece que passaram anos. O meu mundo de hoje é radicalmente diferente daquele em que vivia antes de partir, o que dá a impressão que cheguei a outro planeta. O planeta Diáspora.

publicado por Boaz às 13:42
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Segunda-feira, 27 de Março de 2006

O estrangeiro

Já estou em Portugal, depois da minha longa estadia em Israel. Que diferença! Já estava acostumado - bem acostumado - com a rotina da vida na yeshiva, a integrar-me com o modo de vida israelita, especialmente no ambiente de Jerusalém e agora, pelo menos durante mês e meio, vou ter de reaprender o modo de vida português.

Até agora não saí durante muito tempo à rua - somente o suficiente para a viagem de taxi entre o aeroporto e a casa de uns amigos onde passei a primeira noite, e uma ida ao banco para resolver uns problemas com o telemóvel.

Por um lado gostei de voltar a ver os portugueses na sua vida diária, de ouvir de novo as rádios portuguesas no meu radiozinho de bolso mas, por outro lado, não gostei de não me sentir à-vontade, andando pela rua com tsitsit e kippa. Se bem que a kippa que uso agora passe por um gorro apenas um pouco estranho, os tsitsit são indisfarçáveis no que toca à estranhesa! Sim, eu sei que a solução é andar com eles dentro das calças e não para fora... E voltei a ter a sensação desagradável de ser observado.

Até à pouco mais de um mês, ainda em Israel, estava furioso com a perspectiva de ter de ficar no país para me ser permitido acabar o processo de conversão. Havia ido para Israel com a ideia de despachar o processo em 6 meses e voltar a Portugal, e fazer a minha vida como membro do povo de Israel por cá... A certa altura, alguém meteu à força no pacote a obrigação de permanência em Israel. Que fúria que senti então! A distinção entre israelita e judeu é para mim muito clara, pelo que a imposição de tornar-se israelita junto com o tornar-se judeu, era a meu ver inaceitável.

No entanto, aos poucos, no final da estadia, usando a minha habitual atitude pragmática, acabei por perceber que não me queda outra, se quero viver mesmo como judeu.

Sem dúvida que admiro os raros "resistentes" que em Portugal teimam em viver como judeus autênticos. Não aqueles que se afirmam judeus, mesmo sendo-o realmente de acordo com a Lei Judaica e sendo membros reconhecidos das várias comunidades, mas aqueles que realmente se comprometem a viver seguindo essa Lei. E esses são uma minoria.

Em Israel é, para quem quer viver como judeu, tudo muito mais fácil. Comida casher, o cumprimento de Shabbat e a educação judaica das crianças são as regras básicas. Por cá, cada uma destas coisas apresenta uma série de obstáculos que requerem tarefas hercúleas para se transporem. E nem sempre se ultrapassam da forma ideal.

Olho com espectativa para os próximos dias, para ver como vou enfrentar as minhas obrigações religiosas neste ambiente pouco favorável.

Nota: o significado da kippa e dos tsitsit, dois símbolos de um homem judeu.

publicado por Boaz às 18:58
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

A visita da televisão

Na última segunda-feira, à chegada à aula de Judaísmo, deparei-me com uma equipa de televisão no pátio da sinagoga. Interroguei-me quem seriam e para que canal. Rapidamente, talvez por vaidade, pensei que poderiam ser israelitas: "a história de um grupo de portugueses a ter aulas de Judaísmo em Lisboa, já tinha chegado a Israel... com a quantidade de gente estrangeira que passou por cá nos últimos meses e falou connosco, não me admirava.". Até que os ouvi falar português e, a brincar, disse a uma colega da aula: "É p'rá SIC." Ela acreditou mesmo.

Apesar de estar com uma roufenha voz-de-constipado (há quem ache sexy as similares voz-de-bagaço e voz-de-cama) acedi ao convite e também respondi a algumas perguntas da jornalista. A tal colega a quem eu "enganara" dizendo que era para a SIC, estava um pouco preocupada com a possibilidade de as suas declarações virem a ser transmitidas na Guiné-Bissau, de onde é natural.

Afinal, estavam ali só para entrevistar os elementos da turma de conversão para o programa mensal da Comunidade Israelita do magazine A Fé dos Homens. Ainda não era desta que se iriam levantar cabelos em Bissau, por uma senhora pertencente à elite política do país estar num processo de conversão ao Judaísmo.

Confesso que tenho curiosidade em saber quem foi que escolheu o tema para o programa...

PS - Para os interessados, guineenses e não só, passa na 2: no dia 15 de Setembro, por volta das seis da tarde.

publicado por Boaz às 01:27
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Terça-feira, 7 de Junho de 2005

Temos que falar

Luz ao fundo do túnel?

Há momentos em que somos colocados contra a parede - mesmo que de uma forma não ameaçadora - e que nos obrigam a pensar a fundo na nossa vida. Ontem tive um desses momentos.

Assim que cheguei à sinagoga para a minha aula das segundas-feiras, o rabi veio ter comigo e disse-me com ar sério: "Temos que falar. Sobre o seu guiur (גיור, conversão), como vai ser. Quando é que podemos falar?"

Eu respondi que podia ser em qualquer altura. A aula começou pouco depois. A data da conversa não ficou marcada, mas eu não consegui mais deixar de pensar no assunto. Durante a aula, a que eu tentei prestar o máximo da minha atenção, como sempre faço, as palavras do rabino soavam insistentemente na minha cabeça. "Temos que falar". As palavras e o que podem significar.

Sim, o que podem significar, pois eu não tenho a certeza. Significa que o rabi acha que eu estou preparado para as etapas finais do processo de conversão? Sei que várias pessoas que frequentam as aulas comigo já tiveram a tal conversa com o rabino e por sua recomendação (é assim que as coisas funcionam) deverão apresentar-se perante um Bet Din (tribunal rabínico) em Israel, dentro de alguns meses.

Olhando para algumas dessas pessoas, como a Ana e o João - aquelas que eu conheço melhor -, interrogo-me "como posso eu estar tão preparado como elas?" Não creio que alguma vez estarei mais decidido a ir para a frente com o processo do que estou actualmente. Há muito que deixei de ter dúvidas de que isto é o que realmente quero.

No entanto, não consigo deixar de pensar que, comparando com outras pessoas do grupo - e é impossível não comparar -, eu não mereço estar no mesmo plano. E não o admito por modéstia, que essa é companhia que não costuma andar de mão dada comigo. Simplesmente reconheço que ainda não mereço o prémio. Ainda há tantas coisas que eu não sei e não sei fazer. Estou ainda tão longe do que um judeu deve saber, mas especialmente ser e fazer... Não quero desta forma que todo o processo pareça fácil. Como se bastassem uns meses de aulas. Porque não o é, bem pelo contrário.

Por outro lado, caso eu seja mesmo escolhido para me apresentar perante o Bet Din e acabe por "passar no teste", tenho receio de perder o interesse. Depois de cerca de dez anos de um caminho pessoal, com muitas pedras, buracos e mais baixos do que altos, não quero achar que "já está, não preciso de me esforçar mais".

Hoje, a minha motivação para ir todas as semanas a Lisboa é atingir um patamar que me permita dar os passos definitivos no processo de conversão. E depois? Estou como se fosse um animal em cativeiro, uma ave que, depois de viver tantos anos numa gaiola, não sabe se vai conseguir voar e finalmente sobreviver no mundo para lá das grades.

Ando com estes pensamentos e ainda não tive a tal conversa...

publicado por Boaz às 17:35
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Sábado, 30 de Abril de 2005

Páscoa, sentido de liberdade

Este ano aqui, para o ano em Jerusalém!

Este ano tive a primeira experiência da Pessah (Páscoa Judaica) vivida em comunidade. Nos outros anos costumava lembrar-me do dia, com a ajuda de um calendário, e pensava, no meu cantinho, naquilo que inúmeras famílias e comunidades do mundo inteiro poderiam estar a fazer naqueles dias.

Na semana anterior desenrolei-me em tarefas comuns em cada casa judaica nesta época do ano. A principal das quais é a eliminação de todo o género de comidas feitas a partir de cereais fermentados, antes do início da Páscoa. Fermento (hametz) é coisa proibida nesta época do ano, pelo que bolachas, cereais e massas foram desaparecendo ao ritmo das refeições e o stock não foi renovado. Estando eu habituado a petiscar umas bolachinhas a qualquer hora - sou viciado em bolachas de aveia! - e a comer uma tigela de cereais antes de dormir, ter de me livrar de todas estas coisas durante uma semana, levantou-me o problema de não saber o que comer...

A Páscoa propriamente dita começou no Sábado à noite. Cheguei a pensar que ia passar o jantar pascal sozinho, apenas com a visita do Profeta Elias*, mas acabei por ser convidado para o jantar da sinagoga. (Obrigado Ana). Depois do serviço religioso - nunca tinha visto a sinagoga tão cheia, mas gente mais conhecedora disse-me que nunca ali vira tantos lugares vagos durante a Páscoa - fui ajudar a ultimar a preparação do jantar, ou seder.

A Páscoa é, por excelência, a festa judaica em que o espírito familiar é mais forte. A refeição da primeira e segunda noite da Páscoa - a festa dura oito dias - requer participação de toda a família, com especial destaque para as crianças. Durante o jantar é lida a Hagadah, onde se relata a história de Moisés que tenta convencer o faraó a libertar os escravos, os episódios das pragas que se abateram no Egipto e finalmente o Êxodo.

Eu não estava em família - com a minha família - mas o ambiente era visivelmente familiar, o que ajudou a superar a estranheza perante muitas coisas que ainda desconheço. Entre as canções e orações, comem-se diversas comidas com um significado específico. Ervas amargas lembram a dor da escravatura; um doce de maçãs, amêndoas e nozes recorda a argamassa com que os escravos hebreus construíram as cidades faraónicas; o pão ázimo, a pressa na preparação da saída do cativeiro...

Uma das mensagens da Páscoa é que devemos recordar a libertação do Egipto como se nós próprios tivéssemos sido libertados e que, ainda hoje devemos libertar-nos dos "Egiptos" que nos escravizam. É esta transposição para o presente que faz com que a tradição se mantenha e torne a Pessah tão actual.

* A tradição judaica diz que o Profeta Elias visita cada casa durante a noite da Pessah. Por isso é costume, após o jantar, deixar na mesa um copo de vinho, que o profeta tomará quando passar.

publicado por Boaz às 23:14
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2005

Uma folha solta

Decidi passar toda esta semana na cidade, a fim de me preparar para a Pessach (Páscoa Judaica, a original) que começa neste fim de semana. Assim aproveitei a oportunidade e na terça-feira, excepcionalmente, assisti à aula de Cabala - foi a minha primeira e será a única nos tempos mais próximos, por problemas logísticos. Adiante...

Depois de outras actividades que se realizaram na sinagoga e que duraram até quase depois das 23 horas, regressei a casa de metro e, ousadia das ousadias, fiz toda a viagem de kippá na cabeça, até a prendi com um gancho, não fosse ela cair. Pelo adiantado da hora achei que a confusão no metro não me traria problemas.

Achei que nessa altura tinha erguido uma barreira entre mim e o mundo exterior, era um ser à parte. Não gostei muito da sensação. Apesar de, normalmente, o metro não ser para mim um local para socializar. Não houve desacatos, tudo correu com a normalidade esperada de qualquer passageiro anónimo.

Você é dju?

A surpresa chegou numa estação onde tive de fazer uma mudança de linha. Pelo canto do olho vi aproximar-se um indivíduo. Era africano. Perguntou-me se falava português (de barretinho na cabeça, deve ser estrangeiro, terá pensado). E depois: "Você é dju?". Deve ser judeu em crioulo, pensei eu. Respondi que sim. "A sua família é de Israel? De que parte de Israel?". Disse-lhe que era português. Aí, apresentou-se: Fernando. E contou-me que o avô dele era judeu, descendente de judeus portugueses que tinham ido para Cabo Verde. Que ele mesmo, se fosse mais novo - estava nos trintas e tais - ia para Israel e alistar-se-ia como voluntário no Exército. Porque gosta muito de Israel, mesmo havendo guerra. E que Israel precisa de apoio.

Alertou-me do problema em usar a kippa na rua. É que "há por aí muito árabe". "Eu tenho um símbolo (presumi que fosse uma estrela de David) que cheguei a levar para o trabalho, na lapela. Só que no meu trabalho há 17 paquistaneses. Quando eles me viram com aquilo perguntaram-me com má cara: 'O que é isso? Porque é que usas isso?'. Eu fingia que não sabia. 'Então tira. Isso não é bom'. E eu deixei de o levar para não ter problemas. Mas um dia destes volto a usá-lo."

Achei aquele encontro extraordinário. Vi nele a típica atitude de um marrano*. Apesar de ter perdido muitas referências e tradições, várias coisas se mantiveram muito vivas. A identificação e o amor pela Terra de Israel e pelos símbolos judaicos, o receio em relação aos "de fora". Há amores que nunca se esquecem e dores que o tempo não cura.

Foi inspirador. Para mim e certamente também para Fernando. Para mim, porque encontrei mais uma folha solta no grande livro da história do povo judeu. Para ele porque talvez lhe tenha dado mais um pouco da coragem necessária. Para que um dia destes ele volte a usá-lo...

* Marrano: termo, com carga depreciativa - literalmente significa porco - que designa os cripto-judeus ou judeus secretos, e descendentes que durante a Inquisição e até recentemente - em alguns pontos ainda se mantém - continuaram a praticar o Judaísmo às escondidas.

publicado por Boaz às 11:31
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

Mais um "suposto marrano"

Nos meus contactos com pessoas que - como eu - estão a passar por num processo de conversão ao Judaísmo, encontrei diferentes tipos de motivações. De um modo geral, ou é um caminho que já vem da própria experiência da família, (cripto-judeus, marranos), ou então são pessoas que, de alguma forma se foram aproximando do Judaísmo, sem qualquer interferência familiar. É o meu caso.

Em nenhum dos casos é fácil a resolução do "problema". Para além das diversas fases que é preciso cumprir - quase os 12 trabalhos de Hércules - há que lidar ainda com a pouca receptividade da própria comunidade judaica, mais ainda do que com "os de fora". Recebi recentemente este comentário revelador:

Você é mesmo judeu? Ou é mais um suposto marrano? Tem provas documentais como processos da Inquisição? Descende por linha matrilinear de judias? Se não, não é judeu. Jaime Cohen

Gostava de ter respondido em privado, por e-mail, mas como o autor não deixou qualquer contacto, e eu não o conheço de todo, aqui fica a resposta. (Talvez ele volte entretanto para o ler.)

"Mesmo judeu". O que é um judeu? Esta é uma pergunta que permanentemente se ouve nos meios judaicos. De acordo com a definição da Halachá (a lei judaica), é judeu todo o descendente de mãe judia ou por conversão. A minha mãe não é judia de todo, nem a minha avó. Eu até sou daqueles que desde pequeno costumava ouvir termos como judeu, rabino, judiar ou judiaria, com sentido bem distante do seu real significado.

Não sei o que é um "suposto marrano". Um fantasma? Um mito da família do unicórnio, do judeu de cauda ou do Adamastor? Uma ilusão de óptica? Nem creio que todos os marranos tenham provas documentais da sua condição. Nem todos foram apanhados pela Inquisição, pelo que nem todos têm essas provas. Têm, acima de tudo memória, porque foi pela memória, para lá da descendência, que perpetuaram a sua identidade. A própria condição do marrano (realmente a Joana tem razão, esta é uma palavra muito feia) pressupõe secretismo. Um secretismo cultivado desde tenra idade, para iludir os de fora, possíveis denunciantes ao Santo Ofício. E é preciso ter provas? Afinal, ambos os casos, cripto-judeus ou não, são tratados de igual modo. E as comunidades, pelo menos cá no "Rectângulo", costumam ser igualmente avessas aos dois.

Juntando as peças: não descendo de judeus pela linha matrilinear, não tenho provas documentais de como sou marrano, porque, como disse, não sou marrano. No fundo estou num limbo, um estranho em qualquer lado, um sin papeles. Tal como aos outros, os que têm ascendência pela linha matrilinear e os que têm provas dos seus antepassados presos pela Inquisição, o que me falta é o papel. A "carteirinha", como dizem alguns.

Nunca vi diferenças de legitimidade entre eu e eles. Estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 18:24
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Terça-feira, 8 de Março de 2005

A minha kippá, eu e a minha kippá

Kippá, yarmulke, solidéu: o barretinho que os homens judeus usam durante as orações (os religiosos usam-no a toda a hora). Existem de todas as cores e padrões, até mesmo com bonecos dos Power Rangers! (private joke). A minha é uma simples kippá de veludo preto, comprada numa loja do Bairro Arménio de Jerusalém. (Ficam já avisados: está tudo em "fixed prices", ali não há regateio).

Após a minha última aula de religião e língua hebraica, assim que saí da sinagoga não a tirei logo. Ainda no átrio, enquanto abria o portão, um colega perguntou-me com estranheza: "vais com ela posta?". Não é comum na rua verem-se homens de kippá, mesmo sabendo que os Judeus são escassos por cá. Assim que se deixa a sinagoga, toca a arrumar o barrete no bolso ou na pasta, não vá algum goy (gentio) ver... Medo ou vergonha de se mostrar... não sei.

Apesar de já ter pensado no assunto, nunca me aventurei a "ir com ela posta" lá fora, fazer todo o caminho até casa, mesmo no metro. Contudo, não gosto de correr a tirá-la assim que acaba a aula. Gosto de prolongar um pouco aquele estado... É como se levasse um pouco do oásis para o deserto.

Bem sei que isto não é Paris ou Bruxelas, onde homens de kippá têm sido alvo de ataques e insultos (alguns dos casos reportados aqui). Pois é, por cá diz-se que "somos de brandos costumes". O pior foi ter lido recentemente num jornal que um grupo português de cabeças-rapadas foi aceite num clube internacional dessa canalha, o qual obriga que, para merecerem tamanha "honra", tenham de mostrar "obra feita". Ou seja, espancando (ou mesmo matando) judeus, negros ou gays. Já se sabe, os untermenschen do costume.

Por agora, mais vale prevenir, mesmo que não me agrade nada ter de me esconder.

publicado por Boaz às 17:35
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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

O destino, a viagem e a pressa

Há poucos dias, quando regressava a casa de autocarro, um amigo ligou-me a perguntar-me sobre uns afazeres que andamos a planear há já uns tempos. Depois de falarmos um pouco sobre o trabalho, perguntou-me como iam as minhas aulas de religião e língua hebraica.

- Muito bem. Só é pena serem apenas uma vez por semana.
- E o rabino, já disse alguma coisa sobre a conversão?
- Não. Mesmo àqueles que estão mais adiantados... creio que ainda não disse nada. De qualquer maneira, não quero apressar as coisas.

Despedimo-nos logo a seguir e o telefonema terminou. Eu fiquei a pensar no que ele me tinha perguntado e no modo como eu respondera, tão prontamente. Em especial o facto de "não querer apressar as coisas".

É este o essencial da história. Mesmo quando o destino é magnífico e tão ansiado, o caminho até lá chegar pode ser tão extraordinário como o que se anseia, que o melhor é não pretender acelerar o passo, e fazer o caminho tranquilamente, aproveitando todas as etapas.

publicado por Boaz às 16:27
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Domingo, 5 de Dezembro de 2004

Ordem de expulsão


 

Aguarela de Roque Gameiro representando a expulsão dos Judeus de Portugal.

O Édito de Expulsão foi promulgado por D. Manuel em 5 de Dezembro de 1496. Há 508 anos.

Para melhorar as relações com Espanha, o rei D. Manuel pretendia casar-se com a filha dos Reis Católicos. Como condição para aceitar o casamento da filha, Isabel e Fernando exigiram que expulsasse todos os Judeus de Portugal (como eles haviam feito em 1492). Na altura do decreto de expulsão de Espanha, milhares de judeus (93 mil segundo as contas do contemporâneo Andrés Bernaldez) atravessaram a fronteira em busca de abrigo, mediante o pagamento de um tributo de 8 cruzados por pessoa e a licença de trânsito por oito meses atribuída pelo rei D. João II.

Os que não puderam pagar a quantia viram-se numa situação de servidão. A estes foram retirados os filhos menores, que foram baptizados e entregues à guarda de Álvaro de Caminha que nessa altura partia para o povoamento da ilha de São Tomé, onde a maioria não resistiu às condições do clima.

Uma vez que os Judeus constituíam uma parte importante da elite económica, cultural e científica do país, o rei queria evitar a sua fuga. Para o conseguir autorizou a permanência no país àqueles que aceitassem a conversão ao cristianismo. Com a proibição de entrar em Castela, a única saída era por mar. No entanto, o rei não aprontou os barcos para o embarque e se, inicialmente, haviam sido facultados três portos para o embarque, apenas Lisboa ficou disponível. Enquanto esperavam autorização de saída foram baptizados à força os que o não tinham sido de livre vontade.

Surgiu então uma nova classe: os cristãos-novos. Tornaram-se o alvo preferencial da Inquisição que seria estabelecida em 1536, uma vez que muitos continuaram a praticar secretamente o Judaísmo. Mesmo depois da abolição do Tribunal do Santo Ofício, em 1821, o cripto-judaísmo continuou a ser praticado em Portugal, em especial na Beira Interior e Trás-os-Montes. Em Belmonte, só terminaria já depois do 25 de Abril.

«Andem estes mal baptizados tão cheios de temor desta fera [a Inquisição] que pela rua vão voltando os olhos [para ver] se os arrebata, e com os corações incertos, como a folha da árvore movediça, caminham, e se param atónitos.»
Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Diálogo III, Cap. 30, 1533.

publicado por Boaz às 21:32
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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