Sábado, 11 de Agosto de 2007

Figura de urso

Jerusalém exibe actualmente a exposição United Buddy Bears - The Art of Tolerance (ou aqui), uma das muitas iniciativas culturais enquadradas nas celebrações dos 40º aniversário da reunificação da cidade. É uma colecção de 133 estátuas de ursos pintadas. Cada uma foi pintada por um artista de um país diferente.

O português, por exemplo, representa uma casa tradicional portuguesa. Da porta da frente saem guitarras e da janela das traseiras espreita um galo de Barcelos. É possível encontrar o "urso-estátua da liberdade" americano, o "urso-charuto" cubano ou o "urso-índio" brasileiro. Muitas das representações têm mensagens sociais.


United Buddy Bears.
O urso português é o terceiro a contar da esquerda.

A exposição fundada em 2002, é originária da Alemanha (o urso é o símbolo de Berlim) e já esteve patente em cidades como Seul, Sydney ou o Cairo e pretende mostrar o Mundo inteiro unido na sua diversidade. Ao longo dos anos, alguns países modificaram o aspecto do seu urso. A organização leiloa os modelos antigos com fins de caridade, como a UNICEF.

Patente ao ar livre, na praça em frente à Câmara Municipal da capital israelita, a exposição tem atraído milhares de pessoas, que tiram fotos em frente aos seus favoritos.

Depois de Jerusalém, os ursos viajarão para Adis Abeba, capital da Etiópia.

publicado por Boaz às 22:31
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

Hessed, Bondade

Este último Sábado estive com um grupo de cerca 25 estudantes estrangeiros da Yeshivat HaKotel em Bnei Brak, um subúrbio de Tel Aviv conhecido por ter a maior população haredi (ultra-ortodoxa) do Mundo.

A cidade, entalada entre auto-estradas que servem de fronteira entre as várias cidades-subúrbio, é recente. Não tem mais de 70 anos. A falta de espaço e a impossibilidade de expansão reflecte-se nas novas construções do sul da cidade. Ali, antigos edifícios foram deitados ao chão e construíram em seu lugar torres de mais de 20 andares para alojar uma população em crescimento rápido. No centro da cidade ainda se mantêm a regra dos prédios de 2 ou 3 andares, mas não creio que por muito tempo. A procura vai exigir que o camartelo avance também por lá nos próximos anos.

Os haredim são muito reservados no seu modo de vida e não é habitual encontrá-los em lugares onde se misturem muito com os pouco observantes. Bnei Brak e alguns bairros de Jerusalém acabam assim por versões modernas dos antigos shtetls, aldeias maioritariamente judaicas da Polónia e Rússia. Modernas, mas onde o modo de vida se mantém em muitos aspectos imutável ao longo das gerações.

Dois dos valores principais do Judaísmo, muito cultivados em Bnei Brak, apesar de ser a mais pobre de Israel, são tzedaka e hessed (leia-se o "H" como o "J" espanhol, aspirado, "jessed"). Tzedaka pode ser num sentido comum manifestada através da esmola. No entanto, é bem mais do que colocar algumas moedas numa qualquer caixinha de caridade - as quais abundam por toda a cidade, nos balcões das lojas, nas paragens de autocarro, nos sinais de trânsito, junto aos locais muito frequentados.

Hessed traduz-se por bondade ou rectidão. Receber os visitantes - ainda mais os que visitam a cidade para aí passar o Shabbat - é uma forma muito elevada de hessed. Eu e o resto do grupo tivemos a oportunidade de a experimentar em primeira-mão. Em primeiro lugar, ficámos alojados na casa de uma família que nos recebeu sabendo apenas que vínhamos da Yeshivat HaKotel de Jerusalém.

A casa era modesta e pequena, a família numerosa - eram pelo menos 10 filhos. Mas mesmo com as suas grandes limitações, receberam na sua casa 9 rapazes. Esperavam 12. Os dois quartos habitualmente ocupados pelos filhos mais pequenos foram-nos cedidos. À chegada, bolos e refrescos numa mesinha num dos quartos. Apesar de muito humilde, toda a família se esforçou por nos proporcionar o maior conforto e alegria.

Alguns vizinhos, já avisados da nossa visita, chegaram entretanto para convidar alguns do grupo para passarem as refeições com as suas famílias. Eu e Marcelo, um colega brasileiro, fomos com o primeiro dos vizinhos a chegar. Depois de uma breve visita à família fomos para a sinagoga.

Ali, fomos imediatamente detectados como sendo "de fora". Depois das orações de Kabbalat Shabbat (a Recepção do Shabbat) vários homens se acercaram de nós com a saudação "Bem-vindos" e querendo saber quem éramos. Chegámos até a ser convidados para passar o Shabbat com outra família além daquela a que estávamos destinados.

O facto do nascimento recente de mais um filho, não foi impedimento para a família em querer receber alguns dos visitantes. Mesmo muito pequenas, todas as crianças estavam já bem conscientes da importância de receber bem as visitas.

Um dos outros membros do grupo passou o almoço de Shabbat com o dono da casa onde todo o grupo passou a noite. Contou-nos depois o quanto se sentiu "incomodado" pela enorme generosidade dos anfitriões. Enquanto cada um dos membros da família recebeu uma pequena peça de carne, ele recebeu quase meio frango.

Terminados os almoços nas várias casas onde haviam sido repartidos, aos poucos foram chegando os restantes 8 estudantes. Rapidamente, o dono da casa fazia caber na pequena sala de jantar, já de si apinhada pela sua grande família, mais uma cadeira para que quem chegasse se juntasse à mesa. E mais comida era trazida. E entre a comida, o dono da casa, na sua imensa sabedoria, partilhava com todos algumas palavras da Torá. Os seus filhos mostravam-se honrados com a nossa presença e insistiam em que lhes ensinássemos algo, mesmo num hebraico ainda limitado.

No fim do Shabbat, já de regresso à yeshiva, discutimos sobre o enorme encargo que devemos ter sido para aquela modesta família. Imagino que passarão algumas dificuldades durante a semana, mas o Shabbat merece ser celebrado com a dignidade dos reis. E foi como reis, mais do que no mais sumptuoso dos palácios, que nos fizeram sentir.

Raramente vi tanta alegria autêntica no meio de tanta humildade. Dos casos que tenho próximos apenas posso compará-la à hospitalidade dos meus avós na sua modesta casa.

publicado por Boaz às 12:39
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Domingo, 3 de Julho de 2005

Quem canta, que males espanta?

Foi muito bonito o desfile das estrelas a cantarem em nome de uma causa nobre. Foi lindo ver Madonna, rainha das futilidades e do showbiz, a abraçar Birhan Woldu, uma etíope recém-licenciada em Agricultura, que há 20 anos - na altura do Live Aid - estava à beira da morte num campo de refugiados e que, segundo Bob Geldof, foi salva em parte com a ajuda dos donativos angariados por aquele concerto de solidariedade. Só pelo sucesso da sua história, valeu o esforço de há 20 anos. Afinal, "quem salva uma vida é como se salvasse a humanidade inteira" como diz o Talmude.


Madonna e Birhan Woldu no palco principal do Live 8, em Londres

Os 10 concertos, do Japão aos Estados Unidos, eram grátis. Não se pretendia angariar dinheiro para matar a fome em África (se bem que o SMS para pôr o nome na lista custasse 0,50€: a RTP também precisa de ajuda...). O objectivo era chamar a atenção do clube dos mais ricos para a miséria dos mais pobres. Apontaram-se os responsáveis pela miséria africana e esses foram os líderes dos países do G8, que vão reunir-se dentro de dias, na Escócia. "Os líderes dos 8 mais ricos reúnem-se num castelo escocês à beira de um campo de golfe, enquanto mais de mil milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia" foi a imagem que passou. Aqui estão os culpados, é a estes que tem de se pedir contas. Como é fácil arranjar bodes expiatórios, quando se seguem as regras do politicamente correcto.

E o politicamente correcto é mesmo culpar os brancos e os ricos por tudo o que de mal se passa em África. Nestas ocasiões tratam-se os africanos como criaturas indefesas, face à implacável voragem capitalista. A existência de uma gigantesca dívida externa na maioria dos países africanos é posta no cadastro dos europeus e americanos. As guerras que década após década se têm travado no continente, são explicadas como instigações interesseiras dos brancos, das empresas de armamento e de multinacionais que querem dominar os abundantes recursos de África.

Os africanos - incluindo os seus dirigentes - são apresentados como gente sem vontade. Inimputáveis. Marionetas puxadas por cordelinhos a partir da Europa e América. Ou nem sequer são incluídos como variáveis da equação. E quando se mencionam os próprios líderes africanos (como o angolano José Eduardo dos Santos) são mostrados como peões no cínico xadrez do Ocidente que só quer espremer a riqueza dos seus países. E eles, coitadinhos, deixam-se levar pelo engodo.

Obviamente que não podemos condenar as populações africanas à miséria eterna e ao subdesenvolvimento pelos erros dos seus líderes, os quais, na sua grande maioria, não foram sequer escolhidos pelos seus povos. Só que também é injusto que apenas se apontem os dedos acusadores - sim, trata-se também de apurar responsabilidades - aos senhores do capital, esquecendo deliberadamente que há grandes responsabilidades também do lado africano. O problema é que falar das coisas desta maneira é candidatar-se a levar com uma etiqueta de racista e colonialista.

Sem querer defender o passado colonial da Europa - e de Portugal em particular -, não deixa de ser preocupante, chocante até, que muitos países africanos vivam hoje pior do que há 30 ou 40 anos, quando se tornaram independentes. E, apesar de praticamente todos os Estados africanos terem já atingido a maioridade desde a independência, muito poucos ou nenhum atingiu a maturidade social e política que lhes permita fazer este tipo de reflexão.

Interessante e inédito, o testemunho de um cidadão da Costa do Marfim interrogado sobre as possíveis consequências de uma iniciativa como o Live 8. Disse: "Em África tudo é muito desorganizado. Queremos que os países ricos nos ajudem a organizarmo-nos, para que depois possamos seguir sozinhos o nosso próprio caminho. É humilhante andar sempre de mão estendida".

Os líderes africanos actuais são quase todos os mesmos que lideraram as revoltas e guerras de independência. Desde então que se agarram ao poder, sem nunca terem tido nem capacidade política nem legitimidade democrática para o exercerem. Até os três casos africanos que pareciam positivamente exemplares, estão agora também em sentido descendente: Costa do Marfim, Zimbabwe e África do Sul. Os dois primeiros bateram mesmo no fundo...

A Costa do Marfim foi, até ao final da década de 90 um exemplo de estabilidade em África. O país, apesar de não ser rico - excepto em cacau -, conseguiu algum desenvolvimento, mesmo governado durante 40 anos pelo mesmo homem: Félix Houphouet-Boigny, um ditador que como quase todos os ditadores era megalómano. Transformou Yamoussoukro, a sua aldeola natal, na capital política do país e mandou construir aí uma réplica da basílica de São Pedro. Depois da sua morte, o país entrou em colapso e hoje é um dos mais instáveis da África ocidental, dividido entre o poder oficial, a sul e os rebeldes no Norte. E o poder oficial é encabeçado por um típico ditador, Laurent Gbagbo, acusado em 2003 pela comunidade internacional de crimes contra a humanidade.

O Zimbabwe, que na década de 80 era até visto como outra boa excepção africana - o celeiro da África Austral, com um rendimento per capita de mais de 2300 dólares -, mesmo governado por Robert Mugabe, é hoje um país à beira do caos. É governado pelo mesmo Mugabe, que entretanto virou fascista, amordaçou os jornalistas, expulsou os agricultores brancos e vai matando os negros à fome. O rendimento da população é hoje quase 10 vezes inferior ao de há 25 anos. Para o presidente, a culpa vai toda para os brancos e Tony Blair. Uma das suas últimas medidas é a operação de limpeza das casas ilegais nas principais cidades, que já fez mais de 200 mil desalojados. Os reais motivos da campanha prendem-se com o facto de essas pessoas terem votado na oposição nas últimas eleições presidenciais. Deixá-las sem casa é a represália pela traição ao regime. A ONU e a União Africana calam-se e assim consentem.

Na África do Sul, depois do fim do regime racista do apartheid, as coisas pareciam risonhas. No entanto, desde que Thabo Mbeki assumiu o poder - e foi já reeleito - que se tem manifestado tão incapaz como a generalidade dos seus homólogos continentais. Incapaz para lidar com a imparável onda de violência. Incapaz, quase ao nível da insanidade, para lidar com a pandemia de SIDA que assola o país. E para embelezar a figura já de si bastante eloquente, é apoiante de Khadafi e do próprio Mugabe.

Por fim, valia a pena reflectir neste exemplo: em 1962, o Gana e a Coreia do Sul estavam ao mesmo nível de desenvolvimento. Hoje, a Coreia do Sul é tão só a 11ª economia do Mundo. O Gana, apesar de rico em recursos naturais, não saiu do estado de subdesenvolvimento.

PS - Para que não restem dúvidas, sim, eu defendo o perdão da dívida dos países do Terceiro Mundo. Defendo a justiça no comércio mundial, com a abertura dos mercados aos produtos africanos. Defendo o fim dos subsídios agrícolas na Europa e América, que são a maior causa de distorção das regras de mercado e que condenam muitos agricultores africanos à pobreza. Defendo maiores ajudas à assistência humanitária em África, a maioria das quais ajudas a projectos de desenvolvimento e não simplesmente envio de alimentos e medicamentos, que são soluções de curto prazo e que fomentam a dependência em relação ao exterior. Mas também defendo o fim da cegueira comprometedora das Nações Unidas face aos corruptos e brutais regimes africanos, um elemento essencial na tragédia do Continente Negro. E, se preciso for, que se acabe à força com esses regimes.

publicado por Boaz às 17:45
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

O senão da bela

Recentemente, e com vista à próxima Cimeira do G8 (o grupo dos oito países mais industrializados do Mundo) que se vai realizar na Escócia, Tony Blair lançou o desafio do perdão da dívida externa de alguns dos países mais pobres. Nas negociações que se seguiram, ainda antes da cimeira, foi alcançado um acordo com vista ao perdão de mais de 40 mil milhões de euros a 18 das nações mais miseráveis do planeta, 15 das quais africanas.

A medida é meritória, ainda mais quando na lista constam somente países que se têm esforçado por seguir um rumo de reformas democráticas e maior respeito pelos direitos humanos, como sejam os casos de Moçambique, Mali ou Burkina Faso. Desta forma se mostra um "cartão vermelho" a outros Estados como Angola, Haiti ou Zimbabué que, apesar de igualmente falidos, continuam a ser bastiões de ditaduras e corrupção em larga escala. E sem vontade de mudança.

Até aqui tudo bem. O problema é que nestas coisas de diplomacia e economia basta levantar uma pedrinha para se descobrir algo sórdido. Poucos dias após o muito celebrado anúncio do perdão da dívida por iniciativa do governo britânico, veio a público a notícia que, exactamente o Reino Unido tinha, no último ano, vendido mais de 1500 milhões de euros em armamento a alguns países do Terceiro Mundo, alguns deles com graves registos de violações dos direitos humanos. Por isto, os caridosos Tony Blair e Gordon Brown não merecem uma coroa de louros.


Guterres pelos refugiados; Diana contra as minas terrestres; Bono pelo perdão da dívida.

Em geral fico desconfiado quando vejo gente famosa em causas de solidariedade ou de boas intenções. Quase sempre há qualquer coisa na pintura que não bate certo. As causas são louváveis, os modos como são apresentadas é que soam a falso. Alguns exemplos.

Bono, na sua cruzada contra a pobreza, tem sido uma das vozes mais persistentes na luta pelo perdão da dívida externa dos países mais pobres, um problema que constitui um importante entrave ao desenvolvimento. Recentemente, o líder dos U2 reuniu-se com Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia para discutir o assunto. Já durante a presente Vertigo Tour, a banda irlandesa tem feito apelos pela luta contra a pobreza. São bonitos os apelos solidários, mas se eu pudesse fazer uma pergunta a Bono neste momento - uma única - seria: quanto é que os U2 vão gastar em quartos de hotel e limusinas durante a digressão?

É este tipo de atitude que de certo modo me repugna. Como me repugnou ver, há anos, a princesa Diana a abraçar crianças angolanas estropiadas pelas minas terrestres, imaginando que o só seu orçamento em vestuário para a viagem a Angola seria superior ao orçamento anual do centro de apoio aos mutilados de guerra que ela visitou com tanta pompa.

E o nosso mui amado António Guterres, recém escolhido Alto-comissário da ONU para os Refugiados, na sua próxima visita ao Uganda, onde se vai inteirar da situação dos refugiados sudaneses, não deixará de passar algumas noites nalgum hotel de luxo em Kampala, nas aprazíveis margens do Lago Vitória, bem longe do fedor e das moscas dos campos de refugiados no norte do país, onde só deverá ir por algumas horas.

Com isto não quero dizer que quem se (compro)mete com causas solidárias, tenha de passar pelos mesmos tormentos que as pessoas a quem pretende ajudar. É óbvio que não desejava que a princesa Diana fosse para Angola andrajosa ou lá pisasse uma mina. Ou que Guterres tivesse de sofrer malária ou ter a sua família chacinada por soldados sudaneses, para saber o que sofreram e sofrem os refugiados no norte do Uganda.

Só que, como se costuma dizer, à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer. É que assim, isto parece tão honesto como as dondocas da Lapa, que juntam 5 mil euros num cházinho de caridade pelos pob'zinhos, para o qual cada uma gastou 10 mil no fato de gala Chanel, nos sapatos Prada e na malinha Louis Vuitton.

publicado por Boaz às 13:10
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Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2005

Quem dá mais neste leilão de boa-vontade?

O mundo está mobilizado no auxílio às vítimas do tsunami no Índico. Em apenas dez dias angariou-se a nível mundial uma soma recorde para socorrer os feridos e desalojados, apoiar a reconstrução e auxiliar na tarefa de identificar e enterrar os mortos. Já se ultrapassaram os 2000 milhões de euros. É um bom sinal, aparentemente. Vários países competem no campeonato do "quem dá mais". As tabelas dos doadores estão sempre a mudar, tal é o frenesim solidário.

As nossas televisões dedicam longos minutos nos noticiários e até promovem galas de solidariedade a favor da causa. É o caso da RTP, amanhã. Na TVI, o programa do Goucha também lhe vai ser dedicado. Centenas de jornalistas de todo o mundo estão no Sudeste Asiático para mostrar as áreas devastadas, as mágoas dos sobreviventes e cobrir as operações de ajuda. (As nossas televisões continuam na sua habitual procura da lágrima e nas perguntas estúpidas às vítimas.)

Muitas empresas e gente milionária, de estrelas de Hollywood, da música e do desporto, prometem milhões em ajuda, mas que certamente não se esquecerão de deduzir na próxima declaração de impostos.

Mas, e se entre os milhares de mortos não houvesse turistas ocidentais, será que a atenção – e logo a solidariedade – seria tão grande? Nas minhas aulas de jornalismo aprendi que um dos valores-notícia é a proximidade, seja ela geográfica ou emocional. Cinicamente dizia-se nessas aulas que a vida de um francês vale a de 100 paquistaneses. Neste caso a proximidade é, por via da distância geográfica, puramente emocional. E este facto é muito fácil de provar.

Em 1997, um tufão fez mais de 140 mil mortos só no Bangladesh. Quase tantos como o total de vítimas de 26 de Dezembro.

Nessa altura, quanto milhões se angariaram para auxílio ao Bangladesh, que é um dos países mais pobres do mundo?
Quantas contas foram abertas nos bancos para arranjar dinheiro?
A TMN (ou outra operadora) lançou alguma campanha nesse sentido? Quantas mensagens de SMS foram então enviadas?

Pelo cavalgar dos números, haverá nesta altura no Darfur perto de 100 mil mortos, assassinados pelas milícias árabes janjaweed apoiadas pelo governo do Sudão.

Quantos minutos de silêncio se fizeram hoje, à porta do Parlamento Europeu, da nossa Assembleia da República, nas Bolsas, centros comerciais e ruas de todo o mundo para lembrar o Darfur?
Mais do que o silêncio, quantos minutos de denúncia desta tragédia passaram no último mês pelas televisões, pelo Parlamento Europeu e pela Assembleia da República?
Quantos aviões de ajuda humanitária foram enviados da Europa para os campos de refugiados do Chade onde procuram abrigo mais de um milhão de pessoas de Darfur?
O tenista Tim Henman, prometeu doar às vítimas do maremoto 100 dólares por cada "às" que conseguir fazer nos próximos três torneios. E quantos dólares vai doar ao Darfur?

Em apenas algumas semanas do ano de 1990, mais de 800 mil pessoas foram mortas no Ruanda num genocídio entre hutus e tutsis.

Quantos fogos de artifício de Ano Novo deixaram de ser lançados (como os de Bruxelas e Estocolmo deste ano) em homenagem à tragédia dos ruandeses?
Quantas equipas de médicos legistas europeias, americanas, australianas ou japonesas foram enviadas para o Ruanda para ajudar na identificação dos cadáveres?
Com que empenho se mostrou o Secretário-Geral da ONU num apelo para congregar esforços no auxílio às vítimas?

As respostas a todas estas perguntas são uma de duas: pouco ou nada. Porque ninguém faz turismo no Bangladesh, no Sudão ou no Ruanda.

É óptimo que as pessoas se preocupem com aquilo que se passa a milhares de quilómetros de distância. Que abdiquem de um pouco do seu conforto em favor dos que precisam. A era da globalização não serve apenas para o negócio, também serve para a solidariedade. Mas afinal, quanto renderia este leilão de boa-vontade se não houvesse gente dos nossos entre os mortos? Talvez não passasse de pouco mais que um rodapé, como é vulgar nas notícias com gente de longe...

publicado por Boaz às 23:52
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