
Quase famoso.
Apesar de ser licenciado em Comunicação Social, em poucas ocasiões apliquei o que estudei nos 4 anos do curso. Agora, nem tenho televisão em casa – e não o lamento. O contacto com o Mundo faz-se pela Internet. Ainda antes do sonho da carreira na Comunicação Social, tinha tido algum contacto com o mundo jornalístico na escola. Aos 13 ou 14 anos, entrei quase por acaso para o Clube de Jornalismo da Escola Secundária da Batalha. A experiência durou apenas algumas semanas, mas ainda me lembro de escrever alguns textos que seriam publicados no jornal da escola. E de fazer desenhos para ilustrar as peças.
Na mesma altura, ou poucos anos depois, o Jornal da Batalha teve a ideia de dedicar uma das suas páginas a uma das turmas da escola local. Os alunos escreveriam textos e a turma apareceria numa foto de grupo. Ainda guardo numa mala de documentos a página que foi feita pela minha turma... Ainda que seja difícil ver onde estou no meio da foto de turma, foi a primeira vez que "saí no jornal".
A segunda vez que "fui para as bancas" foi já nos anos da faculdade. Ao contrário de uma pacífica e sóbria foto nos idos anos do ensino secundário, a notícia da época universitária dizia respeito a uma "invasão". Os revolucionários alunos do ISCSP, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a minha faculdade em Lisboa, decidiram tomar de volta e à força o andar de cima do secular Palácio Burnay onde funcionava a faculdade. Havia sido "nosso" até à extinção temporária do ISCSP algumas décadas antes, mas aí funcionavam alguns dos serviços de outra instituição, o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Era a parte mais nobre do palácio e era uma vergonha que estivesse a ser usado por "eles".
Na cobertura jornalística da invasão – como é que chegaram tão rápido? Estavam avisados? –, um fotógrafo do Jornal de Notícias apanhou-me com um maço de livros arrancados de uma das prateleiras dos cientistas ocupantes. Eu nem dei por ele. Só soube quando vi a foto no diário! Em termos de processo judicial, nunca se fez nada contra a nossa "medida radical" e, passadas algumas semanas, metemos o rabinho entre as pernas e voltámos a ter apenas "o andar de baixo". E foi assim, como um anónimo criminoso fotografado em "flagrante delito" que saí numa das páginas da secção de Sociedade do JN em 2000 e picos.
No final do curso consegui – com ajuda da indispensável cunha, por supuesto – um precioso estágio. O meu padrinho falou com um amigo que tinha um outro amigo e que, sem acaso, era o responsável pelos estagiários da rádio de notícias TSF, uma das mais importantes estações de rádio de Portugal. Depois de uma entrevista para apurar capacidades, comecei a trabalhar logo no dia seguinte. Trabalhar não era bem o termo certo: o estágio era, apesar de bem-vindo, "não remunerado". Comecei por fazer o turno da manhã.
Saía bem cedo do apartamento onde morava junto ao Largo do Rato e tomava dois autocarros até chegar à redacção no Braço de Prata, quase a chegar ao Parque das Nações. O termo "não remunerado" era absoluto, e significava que eu tinha de pagar o meu transporte – a não ser as deslocações em trabalho – e nem incluía almoço. Valiam-me as bolachas e o iogurte trazidos de casa, e a máquina de café para ser usada à discrição. Depois passei para o turno da tarde.
Ao contrário do que se pensa no mundo fora do círculo jornalístico, nem todos os jornalísticas "aparecem". Nem todos são "estrelas". Antes pelo contrário, a profissão de jornalista é muito menos romântica. O meu trabalho era mais de apoio. Depois de escolher uma historia para cobrir, telefonava para aqui e acolá à cata de depoimentos de alguém com quem interessava falar por algum assunto. Por vezes fazia "trabalho de campo": saía da redacção para algum lugar em Lisboa para assistir a impossivelmente chatas conferências de imprensa, como reuniões de centrais sindicais. Entrevistei um ex-ministro da Ciência sobre o aniversário de Albert Einstein. Num seminário da Associação Luso-Americana entrei pela primeira e única vez no Sheraton de Lisboa, onde estaria o ministro do Trabalho. Eu não falei com ele, mas um jornalista de TV encontrou-o e rapidamente lhe fez uma pergunta pertinente. Tão rápido que eu nem tive tempo de ligar o meu microfone! Desastres de principiante.
A visita do presidente do Governo Regional dos Açores levou-me ao Palácio de Belém, a residência do Presidente da República. O líder açoriano falou alguma coisa que era importante, mas eu não entendi o interesse da coisa. No dia seguinte, à chegada à redacção, levei uma reprimenda quando me disseram que ele realmente tinha dito algo que era notícia. E que a TSF tinha deixado fugir. Outra rádio noticiou em primeira-mão. Aprenderam a não enviar um novato para cobrir assuntos de Estado. A única vez que a minha voz foi ouvida nas ondas hertzianas foi numa peça sobre uma "Feira do Livro Usado" realizada no Mercado da Ribeira. Com Carlos Paredes como música de fundo construí uma peça em linguagem poética. Foi "para o ar" nessa noite, a uma hora em que pouca gente ouve rádio. Repetiram-na de manhã cedo, ao início da hora de ponta do trânsito lisboeta.
Na altura estalou o escândalo de pedofilia na Casa Pia. Todos os dias apareciam revelações cada vez mais escabrosas. Na redacção, ouviam-se boatos implicando pessoas que, só semanas ou meses mais tarde, seriam trazidos a público. Ou nunca foram mencionadas "cá fora". Não imaginamos o podre que corre na antecâmara das notícias até fazermos parte de uma redacção.
Eram as vésperas da invasão americana do Iraque. A guerra estava iminente. Todos os dias, Bush e companhia revelavam outra razão para mandar Saddam Hussein para fora do poleiro. Era preciso saber o que diziam a CNN e a BBC e gravar o que noticiavam. Várias vezes traduzi e dobrei em estúdio declarações de Bush, Dick Cheney, Tony Blair e outros "peixes graúdos". A estação planeava quem iria mandar para o Médio Oriente, cobrindo os países mais importantes da região. "Armas de destruição maciça" era o termo mais usado nos media da altura. O Mundo não parece ter mudado muito desde essa altura...
Poucos dias depois de terminar os meses de estágio, assisti no meu quarto ao início da guerra em directo na RTP, a 20 de Março de 2003. Um providencial directo do jornalista Carlos Fino apanhou as primeiras bombas a cair em Bagdad. Aquela já não era a minha guerra. Eu estava de fora, a imaginar o reboliço que deveria ser a redacção da TSF. Ao todo foram apenas 4 meses. Aprendi alguma coisa, em especial o cuidado que temos de ter quando escutamos, vemos ou lemos algo nos media. As palavras cuidadosamente usadas para causarem polémica, para darem nome à casa, para a própria casa ser notícia por ter noticiado tal coisa, é mais importante do que revelar a notícia em si.
Alguns meses depois, trabalhei durante apenas um mês num semanário católico da diocese de Leiria. A coisa mais interessante na enfadonha rotina semanal era a montagem das notícias do jornal, às segundas e terças-feiras. Era interessante ver nascer o jornal que vai aparecer, dias depois, nas bancas. Organizar o enorme e desinteressante arquivo fotográfico do jornal ou escolher folhas de papel de impressão que ainda podiam ser usadas, foram outras coisas que eu fiz, nos dias em que não havia nada para fazer na sala onde funcionava o jornal, com apenas três funcionários.
No ano seguinte, passei para a televisão. Não, apesar das minhas tentativas e dezenas de currículos enviados não consegui ter outro estágio, nem mesmo "não remunerado" e ainda menos um emprego certo. Na altura, já começara a tomar forma o meu processo de conversão e foi nessa condição que apareci num programa de informação religiosa da RTP 2. Foram entrevistar os alunos que frequentavam as classes de conversão na sinagoga de Lisboa.
Com a ajuda do blog, fui entrevistado duas vezes sobre o assunto da minha conversão ao Judaísmo. Um leitor chileno entrevistou-me em inglês e publicou a notícia num jornal online do Canadá. O mês passado, foi a vez de uma jornalista brasileira, de um jornal judaico do Rio de Janeiro se interessar pela minha história.
Há meses, um amigo português (nascido em Moçambique) residente em Jerusalém foi descoberto pelo jornalista Henrique Cymerman, correspondente da SIC em Israel. A história de um português de origem "marrana" (em hebriaco anussim, os judeus obrigados a converterem-se ao Catolicismo e mantidos judeus em segredo), hoje 100% judeu, a trabalhar no Jardim Botânico de Jerusalém deu origem a uma reportagem de televisão. Depois da realização da reportagem, o meu amigo avisou-me que o jornalista estava interessado em conhecer outros portugueses em Israel e que por isso, lhe tinha dado o meu contacto.
Até hoje, alguns meses depois, espero o tal telefonema do Henrique Cymerman. Ainda não foi desta que apareci na SIC!
Esta semana, a SIC e a TVI estrearam um sistema de classificação dos programas em emissão. Agora, basta olhar para o canto superior direito do ecrã do televisor para saber a idade a partir da qual o programa é adequado.
Só que há problemas. Não, não é o facto de, de acordo com a TVI, crianças de 10 anos poderem assistir, sem efeitos negativos, às suas telenovelas. Ou o desfile de travestis mal-disfarçados nas noites da SIC ser considerado próprio para gente de 12 anos.
A verdade é que a RTP não implementou o sistema, com todas as consequências que daí podem vir. Qual é o pai que não tem pavor de que os seus inocentes filhos sejam apanhados pelas rajadas de verborreia do Francisco Louçã numa entrevista à Judite de Sousa?
Apelo daqui à APSI - Associação de Promoção da Segurança Infantil, para resolver a situação. Ou arriscamo-nos a que as futuras gerações deste país se tornem pseudo-revolucionários de ocasião, mal vestidos, de lenço palestiniano ao pescoço e punho erguido contra ninguém-sabe-bem-o-quê.
Os pais agradecem.
Ontem à noite, a 2: transmitiu mais um programa "Parlamento". Eu não costumo ver esse tipo de programas, por achar insuportáveis a maioria dos nossos deputados, mais a sua retórica. Ontem, talvez por masoquismo, assisti ao programa, com a curiosidade de saber as opiniões de deputados das diversas bancadas da Assembleia da República sobre o fenómeno do terrorismo e os modos de o combater.
Os deputados do PS, PSD e CDS foram regulares, com o habitualmente maior "sentido de Estado" que os caracteriza. (Isto não se aplicaria se o PSDista fosse o Alberto João Jardim.) Anormalmente equilibrada achei a opinião do camarada "norte-coreano" Bernardino Soares. Como já se esperava, Ana Drago, a voz do Bloco de Esquerda no programa, insistiu na culpa do capitalismo em todos os males do Mundo. Até no terrorismo: a culpa é das operações offshore e da lavagem de dinheiro que aí se faz, que possibilitam o financiamento do crime organizado e do terrorismo. Pois muito bem...
Só que todos se esqueceram de um pormenor: o fanatismo que é a base do terrorismo da Al-Qaeda. É que, ao contrário do 11 de Setembro - que foi uma operação de grande envergadura -, o 11 de Março e o 7 de Julho foram esquemas relativamente simples, que não precisaram de muito dinheiro.
Explosivos, telemóveis e conhecimentos em fabricar bombas, que se adquirem em milhares de sites na Internet. Tudo somado, só falta um elemento fundamental: a motivação. E essa provém dos radicais infiltrados nas comunidades islâmicas que se aproveitam da liberdade de expressão existente na Europa - e muito especialmente no Reino Unido - e assim propagam as suas ideias assassinas.
Os senhores deputados, sempre preocupados com o politicamente correcto, meteram o rabinho entre as pernas e habilmente esqueceram-se do cerne do problema.
Num caso de violência doméstica tornado público - coisa rara - um homem prendeu a esposa com uma corrente (com 13 quilos de peso, treze!) a um tanque de roupa situado num barracão agrícola. Deixou-a nessas condições durante uma semana, a pão e água. Os factos deram-se numa aldeia transmontana, o que para o caso não interessa nada.
Os vizinhos não deram conta de nada - nunca dão, o normal é saberem só quando já é tarde de mais - e, ao fim de uma semana, a mulher conseguiu libertar-se e procurar ajuda. Foi levada para o hospital de Mirandela.
A RTP fez uma reportagem no local e recolheu opiniões dos populares, que se diziam chocados. Isto foi o que disse um deles: "Não é coisa que se faça. 'Tá bem que podia dar-lhe umas lambadas, se ela se portasse mal... mas assim não".
Nem vale a pena comentar estas palavras, tal é o seu nível. No entanto questiono o trabalho do jornalista e do editor da peça. Então as notícias, em especial nestes casos, servem de denúncia da violência e inclui-se uma declaração que é exactamente uma apologia da violência?
Até porque, o mais provável é que, até chegar à corrente, muitas lambadas tenham passado por baixo da ponte.
PS A besta (o marido) foi presa preventivamente e deverá ser acusada de rapto e maus-tratos.
PSS - Contra esta criminalidade não ouvi nenhuma besta fascista rosnar há uns dias no Rossio.
Definitivamente, há quem ria com a mais absoluta miséria e com isso faça mesmo programas de televisão. E chamam-lhe programas de humor.
Há coisa de duas semanas, a SIC estreou a versão televisiva de "O Inimigo Público", inspirada no suplemento satírico que acompanha uma vez por semana o jornal "Público". De um modo geral, sou apreciador do tal suplemento, e o programa também me parecia ter alguma graça, apesar de achar o Rui Unas um pouco tosco. No último programa, a pintura ficou irremediavelmente borrada com uma tirada de muito mau gosto. Aliás, nem sequer foi a primeira vez que aparecem "piadas" deste nível n'O Inimigo Público, no caso, na versão escrita.
O lema do jornal e do programa é "se não aconteceu, podia ter acontecido". Num dos sketches - sobre o estado do turismo no Algarve -, o actor-repórter revelava que as praias algarvias assemelhavam-se a Auschwitz, com o chão coberto de corpos queimados e alemães a beber cerveja. O meu comentário é simplesmente mostrar a imagem seguinte, a qual creio ter servido de inspiração ao autor da peça.
Trata-se da única foto da cremação dos prisioneiros mortos nas câmaras de gás de Auschwitz II-Birkenau. Quando os crematórios ficaram sobrelotados em 1944 - o auge das deportações -, prisioneiros do Sonderkommando* foram obrigados a queimar os cadáveres em piras nas traseiras das câmaras de gás. A fotografia foi tirada secretamente por um prisioneiro e passada à Resistência.
Para uns será apenas uma piada de mau gosto. Para mim, além de um sinal de mau gosto e de evidente ignorância, é sinal de uma enorme torpeza de espírito. Eu sei que já passaram uns dias sobre o programa, mas como eu não posso vir aqui sempre que quero, fica para agora este reparo. De qualquer modo, não deixei o caso passar em claro.
PS - No canal ao lado e num registo oposto. A 2: exibiu ontem o sexto e último episódio da série documental da BBC "Auschwitz - os Nazis e a Solução Final". À hora das novelas e dos concursos. De realçar a qualidade da investigação, com a reconstituição digital das diversas fases da história do campo. Perturbadora a frieza com que, 60 anos depois, alguns dos antigos guardas SS e colaboradores relatam a sua experiência, procurando justificar o injustificável e sem o mínimo remorso.
Creio que os autores de "O Inimigo Público" deveriam ter assistido a este documentário. Eles e os outros que contam e se riem com as chamadas "piadas do Hitler". Conheço alguns...

Ontem, Paulo Portas e Francisco Louçã estiveram frente-a-frente num debate na SIC Notícias. Por estranho que pareça, e apesar das diferenças entre os dois, não houve puxões de cabelos ou arranhões.
A novidade foi a declaração do líder do PP, que admitiu «entendimentos pós-eleitorais» com o PS. Resta saber se Sócrates vai na cantiga... e o que Santana pensa de mais esta facada nas costas.
É pá, não sei se tem alguma coisa a ver, mas de repente comecei a sentir um leve cheiro a queijo. Será Limiano?
No Domingo passado, entre os convidados do Herman SIC esteve um casal de portugueses que sobreviveram ao tsunami na Tailândia. Durante os últimos dias, o "spot" de promoção do programa apresentava-os como atracções, entre cantores, travestis e imagens das rábulas do Quintal dos Ranhosos.
É certo que o programa só os teve lá porque eles aceitaram ir - obviamente a convite da produção. Mas dá nojo este aproveitamento da tragédia para ganhar audiência, esta busca da lágrima fácil, para lá da cobertura noticiosa já de si questionável.
E pior, transformar as cicatrizes e os pesadelos em entretenimento.
Na última sexta-feira vi na 2: o programa "Causas Comuns". Normalmente é uma verdadeira seca, quer pelos temas que costuma apresentar, quer pelo tom sonolento dos convidados e ainda mais do apresentador. Desta vez surpreendeu-me pela positiva. O tema: o Médio Oriente. Os convidados eram a diplomata e investigadora Manuela Franco e Vasco Rato, do Instituto de Defesa Nacional.
Foi uma raríssima, se não mesmo única vez em que na RTP foi abertamente exposta uma explicação sobre o conflito entre Israel e os Palestinianos sem a usual tendência para o politicamente correcto e o maniqueísmo que reduz o assunto a um confronto entre o Bem e o Mal, as vítimas e os carrascos, os inocentes e os culpados, em que os primeiros são sempre os palestinianos e os segundos são sempre os israelitas.
E a prova bem eloquente desse simplismo que impera na análise do conflito israelo-árabe surgiu quando se mostraram várias opiniões de populares apanhados na rua. O vox populi não era mais que uma sucessão de lugares comuns e interpretações básicas, ingénuas mesmo.
Só é pena que o programa tenha sido na 2: e ao final da tarde, uma hora de tão pobres audiências. Noutro canal e noutro horário iria contribuir para informar os telespectadores que no caso do Médio Oriente, as coisas são mais complicadas do que aquilo que muitas vezes se apresenta.
Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente
É proibido o uso de conteúdos sem autorização
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.
. Blogs
. Contra a Corrente/O MacGuffin
. Poplex
. Das 12 Tribos
. Aish
. Int'l Survey of Jewish Monuments